Orquídea-escova-de-mamadeira

Sempre foi meu desejo escrever esta cena em que um dos personagens — vamos chamá-lo de Charles Pacheco, beberrão inveterado, muito nervoso, intransigente, lunático, irascível, isto é: não necessariamente o tipo de pessoa que gostaríamos de ter ao nosso lado numa rua escura — tocasse da forma mais delicada possível as pétalas de um malmequer e andasse a comentar sobre todo o tipo de flores (coroa-de-frade, orquídea-escova-de-mamadeira, magnólia-branca, alamanda-roxa, hibisco, lírio-do-vale, limonium, narciso, mimosa, sempre-viva, tulipa negra [rainha da noite], urze, zinia, anis, boca-de-leão, cornizo, ervilha-de-cheiro, etcétera), com tamanha propriedade que todos pensariam: puxa!, é mesmo um sujeito estranho, lá bebe um bocado, mas também entende do que está a falar quando trata das flores.

— P. R. Cunha