Este desejo louco de fazer haikus enquanto seguro um martelo

Casa vazia, relativo silêncio, atmosfera aprazível — aproveitar enquanto não vêm ruídos, humanos, livros guardados (por enquanto), uma folha de papel, lápis à moda antiga, o relógio da parede que não deixa esquecer que o tempo é um maratonista de longas distâncias.

1.
menino
à janela ——
chora a chuva

2.
leitura de um romance
o nada finlandês
autocarro atrasado

3.
arvores abatidas
perfume de benzina
(outro) inverno em Brasília

— P. R. Cunha

Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha

Quatro haikus / exercícios de quarta-feira para não atrofiar o cérebro (manhã, 8:53)

I.

Barulho-do-ventilador-ruído-branco.

com medo da memória
esquece —
de si mesmo

 

II.

lia deitado
preparando-se
para a morte

 

III.

Como oferta para alguém que sofre de nostalgia.

saudades
daquele tempo
que nunca viverei


IV.

as árvores
cantam —
triste melodia

 

— P. R. Cunha

As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

Poucos esforços para não dar a perceber a vaga de sentimentos de saudade (série haiku com título relativamente longo)

1.
Homem-glaciar
ela disse
a porta ainda entreaberta

2.
Sozinho às traseiras
nota aguda de trompete —
desaba a tempestade

3.
Lembranças do meu pai
quente chávena de café
lá fora faz inverno

— P. R. Cunha


IMG_6510

Prelúdios

Brasília, abril de 2018. O Viajante está sentado à mesa do Clandestino Café e Música, escreve uma peça de teatro para a amiga galega Marina López Fernández. Há tempos que ele está preparado para uma grande viagem, mas ainda não havia chegado a altura de ir-se. O Viajante leva a chávena até aos lábios e sopra a superfície do café — a bebida ondulada o faz lembrar do oceano, da sua paixão pelo Atlântico. Aos poucos o efeito da cafeína enche os abismos do Viajante, os abismos entre aquilo que ele é e o que ele ainda gostava de ser. O Viajante poisa a chávena sobre a mesa e, como agora sabemos, decide que chegara a altura de ir-se. Vai viajar, portanto, o Viajante.

*

Brasília, maio de 2018. A viagem inicia-se num aeroporto. O Viajante contempla demoradamente os transeuntes que vão-e-vêm; pressente de certo modo o seu próprio destino — afinal, também ele está a ir-e-vir. Observa os passageiros desembarcarem, cumprimentam os familiares com grande euforia, como se chegassem de outro planeta e tivessem sobrevivido a grandes atentados terroristas. O Viajante olha então para o ecrã com os horários dos voos e percebe que esses mesmos passageiros acabaram de chegar de Goiânia — ou seja, estavam a meros 200 km de distância, 43 minutos de viagem. Perante tal cena, reflete-se sobre o que costuma acontecer nos aeroportos: a pessoa, ele diz consigo mesmo, a pessoa está a viver a própria vida alhures, decide que quer viajar, vai para o aeroporto e viaja. Dias depois, continua o Viajante para consigo, dias depois ela volta para casa sem saber por que diabos viajou, e continua a viver a própria existência, e a esperar. Estamos sempre esperando, no aeroporto, noutros cantos, na vida. Umas viagens a mais, umas viagens a menos, não fazem qualquer diferença para algumas pessoas, pensa o Viajante. Desta vez, sem sussurrar palavra.

» Versos à janelinha

1.
Brasília —
avião de concreto
vista de um avião de aço

2.
Passageiro desafinado
a cantarolar Jobim
vontade de bater no passageiro.

3.
Aqui do alto
as nuvens tão pesadas
— quanto o meu coração

4.
Adeus
Brasília
você nem liga.


Texto e fotografia: P. R. Cunha