devaneios da própria máquina de escrever (episódio #14)

então, ao que parece, somos mesmo criaturas de hábitos. como diria um antigo: tu és aquilo que tu fazes repetidamente. consistência. 

numa altura perguntaram para a iris murdoch como ela lidava com o desafio de escrever livros extensos, ao que ela respondeu: não se chega à página quinhentos & quatro antes de passar pela página dois. susan sontag adotava filosofia parecida. (a imagem do tijolinho-de-cada-vez [sedutora demais para não ser evocada neste contexto].) 

evolutivamente, é provável que o hábito tenha ajudado o animal humano a lidar com certas imprevisibilidades: repetir o mesmo caminho, manter-se — na medida do possível — num mesmo acampamento à guisa de não se perder, preparar os mesmos alimentos para ninguém engasgar ingerindo coisas venenosas &tc. &tc. 

hábito que também se mistura com foco. fulano é pintor. fulano vai ao próprio ateliê todos os dias, segue a rotina, pinta quadros. não perde o foco. & aqui nos deparamos com um dos maiores desafios destes tempos pós-modernos: como manter hábito/foco diante de tantas possibilidades? 

um colega escritor dissera-me que não está dando conta de escrever com regularidade, pois acaba se perdendo nas séries (há milhares delas), nas redes sociais, nos noticiários (toda aquela ladainha de sempre). acontece que o hábito não tem juízo de valor. não possui a capacidade de julgar ética & esteticamente os estímulos que recebe. ele atua quase que de forma automática, funciona no modo «recompensa».

grosso modo, o hábito é justamente isto: conjunto de atos que geram recompensas neurológicas. se a pessoa se esparrama na poltrona para assistir à netflix & isto faz com que o cérebro libere as mesmas substâncias prazenteiras que liberaria se estivesse diante de um longo & custoso romance russo, ela tenderá (insisto: tenderá) a buscar o caminho mais fácil para atingir sensações agradáveis. 

mas não precisa de ser assim.

o artista que se apega à saudável rotina habitual cria uma espécie de antídoto, rede de proteção contra as redundâncias externas. é como o violino que se afina antes da grande sinfonia. toma o pequeno-almoço, prepara chávena de café, senta-se à escrivaninha, entrega-se às leituras para ativar neurônios, pratica exercícios [aparentemente] despretensiosos… qual um bom amante, sabe que o prazer da empreitada pode (& deve) ser prolongado.

«nice and easy», cantaria o saudoso sinatra: «making all the stops along the way».

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #9)

de uma adaptação jornalística: gostas de escrever & possuis textos que (assim julgas) merecem ser lidos; andas sempre com bloco-notas-&-caneta para produzir certas formas literárias inovadoras; não consegues parar de escrever, mas ninguém te liga nenhuma…

depois de uma série de exercícios extenuantes ao crossfit.

sempre tive imensa dificuldade com doutrinações. [pausa] & não estou cá a falar apenas dos dogmas religiosos. livros de auto-ajuda cujos autores garantem possuir todos os segredos de: felicidade, amor, amizade, como perder peso, como ficar milionário em três semanas, como influenciar pessoas, como não ser um completo falhado &tc.

[período de transição / explicar o supracitado]

é bonito & chistoso & abominável observar príncipe que oferece dicas existenciais aos criados do castelo quando, sabemos, príncipe sempre tivera apenas uma obrigação em vida, isto é: ser príncipe.

(escritores que se excedem nas próprias necessidades de consumir café, ópio ou álcool. comentar com alguém a respeito do livro que estou escrevendo seria como «confessar um assassinato».)

frase predileta dos trabalhos do david lynch, como proferida por dale cooper em twin peaks: «café escuro, escuro como a meia-noite de uma noite sem lua».

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #7)

uma daquelas manhãs em que se acorda & não se sabe ao certo se haverá algo, algum tema, ou mesmo faísca de ideia. 

a escrita é um prato que se prepara aos poucos.

sentar-se para escrever durante algumas horinhas talvez não faça diferença nenhuma. mas depois de um ano, cinco anos, oito anos de prática — acordar, escrever, acordar, escrever — o cérebro meio que entende/apre(e)nde: «ah, sim, o senhor quer criar literaturas, pois não»…

a máquina de escrever beneficia-se do hábito. acomodar-se diante dela, faça-chuva-ou-faça-sol, & esperar. porque sempre surge qualquer coisa.

há uma janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol. à noite, gosto de abri-la e mirar as estrelas — aquelas que consigo ver & aquelas que só consigo imaginar (70 sextilhões delas: mais estrelas do que todos os grãos de areia das praias terrestres). pontos luminosos que preenchem o céu noturno, que oferecem falsas impressões, ou melhor, falsas esperanças, pois, a despeito da ilusão de óptica (parecem tão próximas), essas estrelas se mostram absurdamente longe umas das outras, longe de nós, tão longe que quase poderíamos considerá-las todas inatingíveis.

é possível que num futuro mais apropriado a raça humana desenvolva tecnologias que permitam percorrer essas distâncias irracionais. porém, com o que temos hoje, limitamo-nos a observar a vastidão de espaços vazios, cosmo insaciável que desafia os nossos sensos mundanos de percepção.

ainda somos crianças tentando compreender o que há lá fora.

(ou estamos sozinhos nesta imensa morada cósmica ou não estamos. e ambas as possibilidades, como diria um antigo [& muitos daqueles que tentam responder ao paradoxo de fermi {afinal, onde estariam os extraterrestres?!}] assustam.)

por enquanto, fecho a janela que dá para as traseiras da casa, ao jardim, ao campo de futebol, à noite, ao infinito.

— p. r. cunha

Miniperfil da persistência

Paul só queria ser artista.

Mas os professores da escola diziam que ele não tinha talento; e os pais costumam acreditar nos professores da escola. Os de Paul proibiram-no de mexer nos pincéis. Artista? Artista coisa nenhuma, trabalharia no banco, com transações monetárias, tal e qual o papá.

A título de sinceridade, os primeiros desenhos de Paul eram mesmo bastante ruins. Pouca emoção, estabanados, toscos, nem faziam sentido. Isso, contudo, não o desanimava. Às escondidas, Paul pintava. Quadros-atrás-de-quadros, dia-após-dia.

Numa altura, algumas telas pareciam se formar, as paisagens não eram apenas borrões desalinhados. Começava a surgir qualquer coisa. Porém, aos olhos dos críticos, Paul continuava a ser insuficiente. Quadros terríveis, disseram, Paul medíocre — falta-lhe talento, falta-lhe tudo.

A morte, como se sabe, sempre chega. Então veio a foice e jogou o papá de Paul à cova. O filho herdara muito dinheiro.

De repente, não precisava dar satisfações, nem lidar com o autoritarismo paterno. Aliviado, livre, Paul pintava cada vez mais, todos os dias, sem parar, a pintura tornara-se definitivamente a sua vida.

Até que aconteceu.

Após centenas, ou melhor, milhares de obras inconstantes, de quadros rejeitados, Paul enfim encontrara a própria voz, o próprio estilo — aprendera a pintar. E como se isso não bastasse, ele decidira ir além, superar-se, ultrapassar toda uma época, transformar-se em história, referência, construir novas formas de expressão. Paul nunca mais seria o tipo tímido e irascível que rabiscava às sombras.

Dali em diante, todos o conheceriam como Paul Cézanne, o pai da Arte Moderna.

— P. R. Cunha

Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.