Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.