devaneios da própria máquina de escrever (episódio #4)

depois de aceitar a dura realidade, isto é: que a minha máquina de escrever não é benquista em parte alguma (tentei restaurantes, bibliotecas, toda a sorte de cafeterias, até um bar etílico & só recebi reprimendas): «muito elegante a máquina, companheiro, mas não podemos deixá-lo entrar aqui com esse aparato bélico» &tc. &tc. &tc.

olivetti, metralhadora verbal.

então que estou agora sentado ao jardim da casa de mamã, perto da minha horta. leio os jornais, toc-tac-tac-toc na olivetti & lembro-me cá do george orwell — acho que quando lemos toda a obra de determinado escritor meio que ganhamos o direito de tratá-lo, como se diz, sem papas na língua (de aí justifica-se o uso do artigo definido masculino singular): o george, que numa altura escrevera que qualquer pessoa com mais de trinta anos que analisasse o próprio passado acharia ali imensos defeitos dos quais não se orgulharia.

estava a criticar aqueles que apontavam o dedo para os «outros defeituosos», a desmascarar aqueles que se viam como juízes sociais, que garantiam ter vivido sem percalços, incólumes, que se davam o direito de decidir além do bem & do mal.

essa beatitude tão almejada pelas narrativas religiosas, dizia o george, mas tão antagônica aos modos do ser humano. não à toa, o george foi um dos mais ativos críticos do revisionismo histórico que se alastrava pelo século passado & cujas consequências mais devastadoras ele não pôde perceber, pois morreu aos quarenta & seis anos em janeiro de 1950.

enaltecer as conquistas, as medalhas adquiridas, os diplomas pregados na parede do escritório, o relógio de ouro, o automóvel importado, o telemóvel com seis câmeras, o bilhete de primeira classe; desconsiderar os fracassos, as dores, as perdas, o coração partido, as falhas de caráter, a ira, a fúria, os termos inapropriados, as mentiras, os abusos, a finitude…

biografias paradoxais editadas de acordo com as circunstâncias. o george aconselhava-nos a pensar nisso ao sermos julgados — & principalmente antes de julgarmos vivalma.

— p. r. cunha

O que é o neo-fascismo brasileiro?

Em um texto anterior escrevi que o personagem Pasternak vivia com uma frase de Karl Marx a lhe martelar a cabeça: que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. O passado é um oráculo capcioso, exprime-se em falsos cognatos. Deve-se analisá-lo cautelosamente com óculos contemporâneos a ver se é possível descortinar, um bocadinho que seja, a nebulosa cortina do futuro.

Numa coluna publicada no jornal inglês Tribune em 24 de março de 1944, George Orwell questionou-se sobre uma das perguntas mais importantes da época: afinal, o que é fascismo? Orwell nos conta que ouvira a palavra ser aplicada a agricultores, a lojistas, ao castigo corporal, à caça à raposa, às torturas, a Kipling, Gandhi, à astrologia, às mulheres, aos cães e «a não-sei-mais-o-quê».

O autor de 1984 mostrava-se interessado nos sentidos ocultos do termo. Sabia que aqueles que lançavam a palavra «fascista» em todas as direções estavam agregando a ela alguma medida de significado emocional, o que dificultava a tarefa de achar uma definição clara e aceita por todos. O que parecia bastante óbvio, porém, era que o fascismo da Segunda Guerra Mundial era algo cruel, inescrupuloso, arrogante, obscurantista, antiliberal — troglodita. E que tudo isso encontrava-se inserido em sistemas políticos e econômicos de nações ditas civilizadas.

Ter esses conceitos em mente pode ser decisivo para compreender (e debater) a situação delicada em que se encontra a democracia brasileira, prestes a colocar um neo-fascista à poltrona mais importante do país. De forma que é a nossa vez de perguntar: o que é um neo-fascista?

O neo-fascista, a meu ver, seria um ator medíocre que, quando as circunstâncias do teatro político permitem, consegue lá o papel de protagonista. Lembra, assim, um Hitler com maquiagem de palhaço a explorar a crise generalizada com ideias de «vencê-la pelo uso da força». 

O neo-fascista precisa, portanto, de um palco e — pelo menos nos primeiros atos — de uma plateia amedrontada disposta a pagar pela tragédia. O público começa a escolher bodes expiatórios para o ressentimento e a miséria social; o público se sente injustiçado. O monólogo do ator medíocre explora essas angústias com a construção de adversários terríveis que precisam ser combatidos a qualquer custo. É um ódio quase paranoico. Prenúncio de desastres.

O resultado destas eleições será o reflexo desse teatro do absurdo: clima de medo, de privação, de insegurança, perda de prestígio — além de uma profunda crise de legitimidade do Estado. Exatamente como ocorrera na Alemanha dos anos 1930. E se a história ainda pode nos ensinar alguma coisa: nunca é de mais ressaltar que Adolf Hitler chegara às altas esferas do poder alemão não através de golpe, mas através do voto democrático ao partido nazi.

— P. R. Cunha

Como ler livros incandescentes

Uma breve pausa na publicação de Fragmentos de um romance inacabável para falar sobre universos — sideral & literário.


Dizem que todo livro de verdade é ao mesmo tempo organizador e destruidor. E aqui utilizo a palavra «verdade» da forma mais abrangente possível: substantivo feminino cujo efeito pode (e deve) variar de acordo com o contexto dos nobres leitores. Não importa se você está a ler J. K. Rowling ou Tolstói, Asimov ou Gonçalo M. Tavares, Orwell ou Machado de Assis. O livro é seu, a sensação é sua, as personagens atraem a sua simpatia, as páginas brilham e por vezes ofuscam os olhos como um sol incandescente.

Mas quão perto do sol — e dos livros — podemos chegar? 

O Sol, estrela ao redor da qual o nosso planeta viaja a incríveis 110 mil km/h, é fonte primordial de vida aqui na Terra, mas também uma bola gigantesca com capacidades destruidoras inimagináveis. 

Daqui a oito dias (dezesseis horas e quarenta e um minutos), a Nasa lançará a Parker Solar Probe, um veículo espacial com formato de lanterna — daquelas que costumávamos encontrar na dispensa dos nossos avós. Essa curiosa espaçonave foi construída para estudar as brutais atividades solares. Mas, diferentemente de outras missões com objetivos parecidos, a Parker chegará perto, muito perto mesmo da superfície do Sol*.

Os riscos, segundo a Nasa, valem a pena. Por conta da aproximação inédita, a Parker produzirá imagens muito nítidas. Ao passo que os cientistas poderão pesquisar mais detalhadamente as peculiaridades solares, além de analisar outras possíveis ameaças desse Monstro de Fogo irascível.

Parker Solar Probe: nem tão perto a ponto de incinerar-se, nem tão longe a ponto de desfocar as lentes. E com isso ela nos dá, também, uma excelente aula de literatura.

— P. R. Cunha


*6.2 milhões de quilômetros — sete vezes mais perto do que qualquer outro objeto construído por seres humanos. Ou dez vezes mais perto do que Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol. Estima-se que a Parker Solar Probe orbitará a estrela a uma velocidade de 192 quilômetros… por segundo. É um bocado rápido.

Se pretendo ser escritor

A minha amiga poetisa G. lembrou-me que hoje é dia dos seres humanos que escrevem. Coincidentemente, estava a organizar meus textos mais antigos e deparei-me com este curioso manifesto (na falta de melhor termo) que escrevi em 2009, aquando vivia para São Petersburgo. Eu tinha 24 anos na altura.


SE PRETENDO SER ESCRITOR

Hoje eu moro na Rússia, perto da antiga casa do Dostoiévski. Hoje eu pretendo ser escritor.

As pessoas que me leram (basicamente: mãe, pai, o editor de suplementos do Correio Braziliense, namorada, uma prima que mora em Ipanema) disseram que minhas estórias são melancólicas, introspectivas, «têm qualquer coisa de crua ali», sinceridade etc.

Se pretendo ser escritor, que tipo de escritor pretendo ser:

Há os escritores ácidos. Escrevem para tumultuar, tirar-nos da zona de conforto. (Utilizo-me do tempo presente à guisa de estilo, mas a maioria dos autores que citarei adiante já, como se diz, bateu as botas): Hemingway, os melhores ensaios do Orwell, Christopher Hitchens, Swift, Handke, Norman Mailer, Ginsberg, S. Thompson, Bernhard, Kerouac, Burroughs, Dos Passos, Casanova, Sade, Bukowski. Outros escritores são bonzinhos e contemporizam; o sr. Chesterton, por exemplo, bonzinho, os contos alienígenas do Bradbury, bonzinhos, a prosa bucólica do Walden, idem.

Eu pretendo ser um escritor ácido & bonzinho, inverno & verão, Rússia & Brasil, luz & sombra. Um escritor bipolar, portanto — assim como o rapaz que segura esta caneta azul (presente da minha madrinha, a Marli).

O que é um escritor? Escritor é aquele que constrói frases. Um engenheiro gramatical.

Gostava de ser isto: engenheiro gramatical.

Quem sabe um dia.

— P. R. Cunha