A febre

A febre nos transforma em meros espectadores. Marionetes arrastadas para lá e para cá pelas cordas do sistema imunológico. A cabeça pesa uns trezentos quilos, as palpitações vacilam, o corpo não corresponde. São dores que vêm como de um inferno longínquo. E se antes andávamos com imensa desenvoltura sobre a superfície rochosa deste planeta atmosférico, agora somos nós o espaço geográfico — o palco de uma guerra sanguinária entre os exércitos do gelo e do fogo.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #19)

CANÇÃO ESPERANÇOSA a cada dia uma tempestade nova com a qual nem finjo mais conseguir lidar monólito de gelo concreto armado as primeiras rachaduras & eu espero & eu espero oh como eu espero // 

comecei a ter umas paranóias estranhas com os meus olhos por serem tão moles frágeis vulneráveis sabes qualquer coisinha poderia furá-los & numa altura tu tens lá os teus olhos já noutra altura segundos depois podes não tê-los mais quem garante & ninguém parece se importar com isto porque andam por aí com olhos desprotegidos como se fossem olhos invencíveis nada poderia atingi-los mas a verdade é que sabemos que uma fina & imperceptível agulha poderia danificá-los imenso ou uma pedrinha de nada digamos que estejas a caminhar à berma de uma estrada passa um autocarro o pneu do autocarro arremessa qualquer coisa pontiaguda na tua direção compreendes onde quero chegar & o objeto pontiagudo atinge digamos o teu olho esquerdo rapaz não gosto nem de pensar numa coisa dessas terrível terrível porém é aquilo que eu estava a te dizer tens agora a visão intacta dou-te os parabéns sério muitas palmas mas nada pode garantir essa tua visão intacta não há uma lei universal que diga terás a tua visão intacta para sempre

— p. r. cunha