Armazém intracraniano

O nosso cérebro é uma gaveta. Enchemos a gaveta com toda a espécie de coisas. Podemos chamar essas coisas de «informação».

No armário da casa de alguém há uma gaveta: se abrirmos encontraremos camisas, meias, uma caixa de ferramentas, joias, fotografias, etc. etc.

A gaveta não reclama, apenas recebe. Perguntamos a ela se quer ou não receber umas calças, a coletânea de enciclopédias dos nossos avós, artigos desportivos, computador, cabos. A gaveta nada diz.

Colocamos os ítens lá dentro e isso é tudo.

Claro que podemos levar em consideração as capacidades da gaveta: aguenta muito peso?, é espaçosa?, fácil de abrir?, o material é resistente?

Cérebro, gaveta de informações, eis do que estamos a falar aqui.

Ao sairmos para uma caminhada matinal, observamos os elementos à volta — os automóveis, as árvores, o voo rasante de um pintassilgo, o miúdo a chutar a bola. Estamos a preencher a nossa gaveta.

Gostava de acrescentar isto: nosso sistema encefálico não possui juízo de valor. Podemos assistir ao telejornal, escutar as sinfonias de Haydn, ler Rimbaud, acompanhar uma partida de curling. Para o cérebro-gaveta dá na mesma. Ele armazena.

Imagens: uma esponja que absorve o líquido que se acumulara na pia; o buraco negro a consumir matéria cósmica.

A pessoa que guarda para si informações trágicas, violentas, catastróficas, contraditórias, alarmantes — possivelmente deitar-se-á na cama com pavores. Tem sonhos intranquilos. Acorda com as angústias.

Abrimos novamente a gaveta desse ser humano afoito e dizemos: paletó já muito fora de moda, meias furadas, a bermuda não lhe cabe, o martelo está sem cabeça, etc.

— P. R. Cunha

Domingo paternal

Para Evandro de Oliveira Cunha, meu pai

Os semióticos fazem-no pensar/refletir a respeito das gavetas. Quando jornalista: pavor da palavra «gaveta» (s. f., cada uma das caixas corrediças que se embebem nos móveis e servem para encerrar objetos). O editor a dizer: o teu texto está certinho, ótimo, mas não encaixa nas próximas edições; teremos (e quem além dele teria esse poder?), sim, teremos de colocá-lo na gaveta. À espera, o limbo, purgatório. Depois, já escritor (ou a dizer-se um): a gaveta das acumulações, das empreitadas experimentais, os desencaixados (também uma espécie de purgatório, a antecâmara do lixo — o querer jogar fora, o medo de se arrepender depois). Ou mesmo aquela outra gaveta, mais branda, mais otimista, onde ele coloca o material de pesquisa, as anotações para o próximo romance a ser escrito.

— P. R. Cunha