devaneios da própria máquina de escrever (episódio #25)

porcaria, frank!, este rio está mesmo uma espelunca, & que fedor, nossa, não faz sentido pescarmos neste lixo, frank, não há peixes, frank! [frank está sentado à proa do barco, mordisca um caule de trigo, abraça distraidamente a vara de pescar enquanto dedilha o device eletrônico]: tu tinhas que dar uma olhada nisto aqui, diego, é mesmo qualquer coisa alienígena. [diego hesita. levanta os braços para o céu, faz que vai pedir ajuda a alguma divindade invisível. contorce o rosto enrugado. continua observando a superfície oleosa do rio, as pequenas marolas produzidas pelo sacolejar do barco, depois limpa o suor da testa com as mãos, solta uns grunhidos rancorosos]: aos diabos, deixa eu ver logo isto aí. [frank sorri sem tirar os olhos do ecrã & inclina o device para procurar um ângulo mais adequado, obstrui a luz do sol com o próprio boné]: sítio web de armazenamento de dados, tu colocas todas as tuas informações, sei lá, emails, cartas, tudo o que já publicaste nas redes sociais, as conversas, as tuas preferências, os filmes que mais gostas, as músicas que mais escutas, os livros que leras, enfim, colocas a tua vida aqui dentro, upload, & daí o algoritmo faz o resto, o algoritmo vai encontrar outros seres humanos com as mesmas preferências, inclusive as mulheres, diego, sim, as mulheres, as mulheres com as mesmas preferências, percebes o alcance deste troço? [diego coça a têmpora]: não sei não, frank. [como se falasse com um interlocutor invisível, frank dá de ombros]: & depois de morrermos, vê lá, depois de morrermos, o sítio web ainda mantém os nossos dados, impressionante, como uma espécie de sarcófago digital, ou [pensativo]… um mausoléu cibernético, tipo lênin-ciborgue, & as pessoas poderão acessar esse sarcófago, & nos fazer perguntas, quero dizer, fazer perguntas aos nossos dados acumulados, obviamente, & o algoritmo formularia as respostas. [diego se afasta do device. adota uma postura taciturna. oscila a vara de pescar. ao longe, a silhueta de uma lancha se aproxima.]

— p. r. cunha

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha

Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.

Quarta nota #9 — há um bezerrinho chamado Pê Erre (e ele passa bem)

Porque amnésia — e certo descaso involuntário — escrevo estas notas de quarta-feira numa manhã de quinta-feira parcialmente nublada, vista cinzenta, glacial, sol modorrento a aquecer coisa alguma. À tarde, sorvete com a Jéssica.


§ Certa leitora que mora num rancho, na paz dos campos, como se diz, não muito longe da cidade de Pirenópolis, enviara-me agradável electro-carta a dizer que gosta das coisas que escrevo. A leitora acrescenta ainda que o rancho acabara de ganhar um novo bezerrinho e que o animal já tem nome: Pê Erre — singela homenagem a este que vos fala.

§ Aqueles que mexem com robôs sabem que os robôs vieram para ficar, que os robôs não estão para brincadeiras. E aqueles que mexem com robôs estão a dizer também que se queres competir com estas criaturas metálicas é melhor desenvolveres qualificações como o pensamento crítico, a resolução de problemas ardilosos, a criatividade, a comunicação, o espírito colaborativo.

§ Em suma, se queres competir com robôs, não ajas como um robô.

§ Na primária, Miranda divertia-se no parquinho da escola. Era uma pequenina realmente graciosa. Na adolescência, engordara um bocado porque tomava sorvete e comia quantidade absurda de bacon ao pequeno-almoço. Em mulher, entregara-se à cocaína e nunca saía de casa. Numa altura, namoriscou a ideia de se tornar comissária de bordo da TAP Air Portugal.

§ Excelente método para se ver livre da procrastinação (em fazendas artísticas e não só) é ter em mente que o amanhã pode não existir. «E se eu morrer?» Pergunte-se isso várias vezes ao dia, principalmente quando a ociosidade construir moradas. «E se eu morrer?» Preciso de começar um livro, são muitas páginas, mas vou escrevê-lo depois — postura clássica de aqueles que não percebem a imprevisibilidade da ceifa. O desconforto da nossa finitude, como já se disse, ajuda a produzir coisas intensas.

§ Animal humano que vive cheio de ruminações, que passa um tempo considerável a ser vítima de pensamentos insuportáveis, problemas invisíveis, vítima da ansiedade, e da raiva, e da inquietude, atormenta-se por angústias desnecessárias, esperanças vãs, temores absurdos, muitas vezes torna-se vulnerável ao extremo, frágil, prisioneiro de memórias equivocadas, tenta responder a uma realidade que já há muito não tolera — e coisas do gênero.

§ 8/4/2017: o juiz Sérgio Moro diz que crime de caixa dois é pior do que corrupção, um crime contra a democracia, é trapaça, pior do que enriquecimento ilícito. 19/2/2019: o superministro (sic) Sérgio Moro diz que crime de caixa dois não tem gravidade de corrupção, não precisa de estar no projeto anticrime, não há necessidade de incomodar os políticos com temas sensíveis.

§ As pessoas mudam, quer dizer…

— P. R. Cunha

Ser digital — o comportamento humano como mercadoria

Cansado das barbáries terrestres,
o astrônomo vivia para o mundo da Lua.

Somos 7.6 bilhões a habitar esta errante bolota de pedra. De acordo com o portal statista.com 2.6 bilhões têm conta em alguma rede social (o Facebook, por exemplo, possui 2.23 bilhões de usuários ativos). Não é necessário recorrer a nenhuma ciência de foguete para conjecturar as possíveis direções dessa locomotiva desvairada: daqui a algumas décadas, toda a gente terá um telemóvel para chamar de seu, cada vez mais operações serão realizadas via rede web e isso faz pensar que os realizadores de filmes de zumbis não estavam assim tão distantes da realidade quando retrataram humanoides melancólicos a vagar algures com vistas a um horizonte invisível. No caso do Homo digital, fitar-se-á dispositivo de telecomunicação enquanto algoritmos (machine learning) oferecerem as devidas alternativas de: 1) consumo; 2) em quem votar nas próximas eleições; 3) por quem se apaixonar; 4) qual o trabalho mais adequado para si; 5) etc. Atualmente, a economia se mostra deveras preocupada com possíveis catástrofes naturais, com a escassez de benzina, crises hídricas. Porém, em breve, as commodities mais valiosas estarão voltadas para o «digital self». De aí, quando a ficção científica se tornar corriqueira, talvez alguém se lembre de 2018 com certa nostalgia — uma época em que ainda podíamos gozar de qualquer privacidade.

— P. R. Cunha

Siri, o que é ser humano?

Em recente campanha publicitária da Amazon Echo — cujo sugestivo título é «Dad’s day» (dia do pai) — uma mãe caucasiana com cerca de trinta anos chamada Laura está a se despedir do próprio bebê, um gorduchinho pendurado no colo do papai a fazer coisas que os miúdos de comerciais costumam fazer. 

Laura tem uma pele excelente, os cabelos arrumados, mostra-se confiante, com pressa para algum compromisso a respeito do qual nunca saberemos. Ela dá um despretensioso bye-bye para o bebezinho. O papá, no entanto, tem os cabelos desgrenhados, claro início de calvície nas laterais da testa, está em mangas de camisa, sonolento, veste calça moletom surrada. A mamã pergunta para o papá se ele ficará bem, o papá responde com convicção duvidosa que sim. 

A câmera se afasta e temos uma breve porém reveladora amostra do apartamento da família: mesa ainda com as sobras do pequeno-almoço, os móveis coloridos, as almofadas com estampas discretas, as paredes de tijolo, o piso de madeira rústica, a luz da manhã com aquela modorrenta névoa das cidades do leste estadunidense — Nova York, Boston? Ao lado do sofá amarelo, sobre uma mesinha de canto, a verdadeira estrela da campanha: a assistente virtual Alexa, versão Echo. 

Echo tem aproximadamente vinte e quatro centímetros de altura, voz feminina, parece com aquelas caixinhas de som que os banhistas gostam de colocar perto da piscina a curtir os últimos sucessos com batidas (e letras) incompreensíveis. O papai, num temporário lapso de firmeza, pede para a Alexa aumentar a música When I wake, do Justin Hurwitz*. Alexa obedece prontamente. 

Pai e filho estão agora brincando na poltrona, tudo parece correr bem, dentro dos conformes. Mas aos poucos começamos a entender por que a mamã saiu alhures sem aparentar grandes preocupações. Alexa interrompe a música e alerta: aqui vai um lembrete, Laura diz que o anel dos dentinhos está guardado na geladeira. O pai faz cara de aluado. Ele se dirige então à geladeira, o bebê começa a chorar, papai entrega o anel dos dentinhos, o bebê morde o anel dos dentinhos, o bebê se acalma. 

De aí vemos o papai a tirar as roupas da máquina, a lavar a louça, limpar a mamadeira e outras miudezas afins, tudo porque Alexa está a lembrá-lo. O papai age de forma muito estranha, como se nunca tivesse estado sozinho com o próprio filho antes. O bebê, por sua vez, continua a fazer coisas de bebês em comerciais. Alexa lembra também que Laura havia agendado um encontro de jogos infantis às 15h.

Depois há uma série de cenas tragicómicas: está a chover a potes, pai desesperado a empurrar o carrinho do gorduchinho na calçada voltando para a casa, pai encharcado abre a porta do apartamento, senta-se com o bebê na poltrona, pai em choque com olhos vidrados que fitam um horizonte invisível, bebê dorme no colo do pai. Alexa apita e diz: aqui vai um lembrete, Laura te ama muito e tu estás a fazer um excelente trabalho. Pai abre um sorriso estúpido, de regojizo, de alívio, como se tivesse se safado de um crime imperfeito, como se dissesse para si: oh, Alexa, o que seria de mim sem o teu auxílio…

O comercial dura meros trinta segundos e é basicamente uma compilação de clichês e esteriótipos a respeito dos casais contemporâneos. Mas há algo ali muito mais complexo e perturbador: a dependência cada vez maior de serviços tipo Alexa, Siri e Google Assistant. 

Na campanha da Amazon Echo pelo menos ainda se pode observar a presença de um ser humano, o papá bobão que quase tem uma taquicardia depois de algumas horinhas sem o auxílio da Super-Mamã. Chegará o dia em que os pais deixarão os filhos sozinhos com essas babás robotizadas e quase ninguém achará isso um absurdo, ou mesmo um aglomerado de lugares-comuns sobre o matrimônio moderno.

Talvez seja um futuro de preguiças, de limitado pensamento intelectual, de inércias. Lá estão as máquinas a fazer tudo pela gente, a responder tudo pela gente, o pai e a mãe no sofá diante do próprio bebê, o bebê que escuta as instruções da Alexa. O pai e a mãe não se sentem explorados, nem culpados; sentem-se irrelevantes.

— P. R. Cunha


*Vide trilha sonora do filme Whiplash.