Cem jardas para o livro

Por questões justificáveis, a escrita costuma ser associada ao academicismo — ou pelo menos à erudição. Talvez porque o «colocar ideias num determinado contexto» seja, amiúde, a continuidade de uma jornada cuja travessia mostrara-se repleta de leituras. E o erudito (eis a lógica duvidosa) lê mesmo um bocado.

Distorções parecidas parecem também assombrar esta outra atividade considerada por muita gente como um jogo intelectual: o xadrez. Ainda no panorama acadêmico, poucas reações costumam ser mais cômicas do que a do professor que precisa de confessar que não sabe jogá-lo. Consideram o xadrez um desafio ao cérebro; de forma que manusear as peças sobre o tabuleiro seria uma constatação da própria inteligência, amostra de sagacidade.

Curiosa insegurança.

Quando perguntaram para o Grande Mestre Bobby Fischer — provavelmente o maior de todos os tempos — o que achava dessa glorificação intelectual do xadrez, ele respondera com a frieza da praxe: é apenas uma superfície lisa com casinhas quadriculadas, só isso. Boris Spassky, ao que parece, pensa da mesma forma.

Não surpreende, portanto, que muitos ainda se sintam deveras incomodados quando essas práticas santificadas são deslocadas do pedestal para alturas mais, digamos, mundanas.

Há uma mesa cheia de docentes universitários. Estou sentado para a ponta direita, visivelmente desconfortável (spoiler alert: não sou docente universitário). Um dos professores me pede para discorrer a respeito do meu processo de escrita. Eu me arrumo na cadeira, bebo um gole de café e explico:

«Futebol americano, NFL. O escritor em muitas ocasiões faz as vezes do quarterback, precisa de saber lançar a bola direitinho, sim, mas sem ser afobado. Se percebes a aproximação da defesa, guarda a bola, tem calma, espera. Quinze jardas para a frente, quatro jardas para trás, mais doze adiante. Se há buracos na linha adversária, ótimo!, não hesites em acionar o running back. Deixa-o correr. Corre, running back, tu dizes. A secundária agora se mostra povoada? Então joga a bola para o alto, vê se o tight end está em forma. O fim do livro depende disto, da quantidade de touchdowns que a tua equipe consegue emplacar. E estejas preparadinho para deixares o campo completamente arruinado, com toda a sorte de escoriações. Pode ser um jogo brutal…»

Pela fisionomia assustada do professor, deduzi que aquilo não era bem o que ele estava esperando. E quando, irrequieto, voltou-se rapidamente aos outros colegas para discutir «pormenores universitários», daí tive a certeza de que não era mesmo o que ele estava esperando.

— P. R. Cunha


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 Quarterback é atacado pela defesa adversária: tal escritor a escrever livros. (Imagem: NFL Archives)

Futebol americano

Bola oval capacetes jogadores com armaduras é como assistir à batalha dos romanos gladiadores modernos o kickoff o retornador o running back ligeiro está a dançar à frente da defesa o Tom Brady o Julian Edelman o Rob Gronkowski as linhas as jardas o ataque avança a tática parece uma partida de xadrez o lançamento preciso o efeito a angústia da torcida o tempo congelado os gritos a festa a euforia o touchdown.

— P. R. Cunha

Quarta nota #3 — a casa está a ruir

§ É preciso tocar na ferida de uma vez por todas. O começo do fim foi em 2015, quando Charles Cosac decidiu encerrar as atividades da editora Cosac Naify por conta das graves recessões econômicas que assolavam o país. A Livraria Cultura — que comprou e fechou todas as lojas Fnac no Brasil — há pouco entrara com um pedido de recuperação judicial porque não consegue pagar fornecedores. No início desta semana a rede de livrarias Saraiva decidiu encerrar 20 das suas 104 unidades. Motivo? — dinâmica do varejo. Ontem foi a vez de outra gigante se entregar à pior crise vivida pelo mercado editorial brasileiro desde sempre: a Companhia das Letras, fundada por Luiz Schwarcz em 1986, acaba de ser majoritariamente assumida pela norteamericana Penguin Random House. Apesar de o sr. Schwarcz ter tentado colocar os paninhos quentes e dizer que «do ponto de vista editorial não muda nada» e que só espera alterações nas áreas administrativas e tecnológicas, o fedor já está forte de mais para continuarmos a ignorar o defunto na relva. E diante de um novo governo federal mais preocupado com bombas e metralhadoras do que com as letras, essa marcha fúnebre não deve se alastrar por muito tempo.

§ Cientistas acreditam que o período glacial na Terra costuma ocorrer com frequência de 40 a 100 mil anos. No Brasil, porém, a era do gelo ocorre a cada quatro anos.

§ Chávenas de café, uns livros clássicos, outros livros que ninguém lê, rádio, cinzeiros sujos, duas toalhas azuis, armários divididos, copos de cerveja, chuveiro elétrico que por vezes dá choque quando o banhista gira a torneira sem que os próprios pés estejam sobre o tapetinho de borracha Made in China.

§ NFL aos fins de semana e a vida é basicamente aquilo que acontece entre um jogo e outro, preenchimentos, domingos com uma dúzia de futebol americano e o resto dos dias a seguir trajetórias circunstanciais.

— P. R. Cunha