Vão encontrá-lo algures

A viagem elaborada durante certa inquietação/irritação ao lugar onde se está agora. Aquele que faz as malas para fugir (e o verbo não seria outro), que quer se ver livre dos vícios geográficos da própria morada. «Vou de viagem porque não aguento mais este prédio, estas ruas, este céu, ou mesmo a cara de Fulano(a)», diz-se. De aí a ojeriza que o viajante pode sentir por aqueles que não querem trocar de sítio, por aqueles que se sentem confortáveis no quarto de sempre. Viajante que não admite, ou melhor, que não aceita que o espaço que tanto lhe oprime possa ser um canto confortável para almas menos irascíveis etc.

— P. R. Cunha

A fuga

Durante mais de quarenta e cinco anos o sr. Fukushima montou réplicas em miniatura de automóveis clássicos. Quase todos os dias, por volta das 17h, ele descia ao porão onde havia improvisado para si um ateliê de dimensões consideráveis. O sr. Fukushima dizia que quando estava no próprio ateliê a montar os carrinhos era como se de súbito ele fosse transportado para algum outro universo, algum tecido-espaço-tempo em que as leis de física não operavam da mesma maneira. Até que certa tarde de outono, quando as folhas das árvores começavam a cair na relva do jardim, um dos netos do sr. Fukushima desceu ao porão para fazer-lhe visita e deparou-se com quantidade absurda de réplicas em miniatura de automóveis clássicos. O neto, que tinha acabado de frequentar o curso de marketing numa renomada universidade da região, sugeriu ao avô que começasse a vender aqueles brinquedos que, fora o tamanho, em tudo se assemelhavam aos carros de verdade. E, como era de se esperar, os carrinhos do sr. Fukushima foram mesmo um grande sucesso comercial. Mas desde então o sr. Fukushima não desce mais ao próprio ateliê para montar as réplicas. A fuga, segundo ele, perdera completamente o sentido.

— P. R. Cunha