Quarta Nota #8 — Gordon Banks, morte das estrelas (defesa impossível)

O autor deste blogue volta com as notas descompromissadas que deixam a senhora Cassandra (do apartamento 323) com ganas de desbravar o mundo, a despeito dos seus noventa e quatro anos.


Cansado de embriagar-se
verbalmente —
largara o romance
para se entregar
à poesia.

§ Todas as noites o Roberto queixa-se com a esposa: detesto a metalurgia, a metalurgia me causa um verdadeiro asco; e todos os dias o Roberto sai para ir trabalhar com metalurgia. Pode-se dizer o mesmo dos casais que se odeiam, que se desprezam prolongadamente, mas não se separam: talvez porque tenham medo de morrer sozinhos.

§ As bobagens que dizemos para preencher os demorados silêncios.

§ Etc.

§ O que um escritor de ficção diz é bem diferente daquilo que um escritor de ficção escreve. A fórmula é a seguinte:

Vida pessoal do escritor ≠ Vida literária do escritor

§ O Sol — observável ao céu — é uma gigantesca bomba nuclear que, quer-queira-quer-não, irá explodir. Cessa a fusão hidrogênionúmeroatômico1/hélionúmeroatômico2, o interior do Sol perde a batalha contra a gravidade e o núcleo entra em colapso. A jornada é um bocado mais complexa do que isso, mas não precisamos de esmiuçar os pormenores aqui. O importante é saber que as estrelas também possuem ciclos. Elas nascem, vivem e morrem.

§ (Trajetória comum de diversos escritores de ficção: nascer, ler muitos livros, perder-se no mundo dessas narrativas livrescas, eventualmente criar os próprios universos — lidar com a finitude alheia, muitas vezes esquecendo-se da própria finitude. Porém, as páginas dos escritores de ficção também se acabam.)

§ «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», é Wittgenstein.

§ Noutras ocasiões, os grandes morrem discretamente, a dormir. Depois de anos a lutar com um cancro no fígado, Gordon Banks, o maior guarda-redes de sempre, faleceu ontem à noite durante o sono. Autor da chamada «defesa impossível» (Carlos Alberto avança desde o próprio campo, dá um primoroso passe à três dedos para Jairzinho, que ganha do defensor inglês, corre até à linha de fundo, cruza para Pelé, Pelé sobe majestosamente para cabecear a bola, um cabeceio enciclopédico, perfeito, para baixo, indefensável — não fosse Banks), o guarda-redes costumava brincar que seria lembrado por estragar um belíssimo tento do Rei do Futebol.

§ Mostraram-me os vencedores dos Grammy e percebi que não conhecia vivalma (Kacey Musgraves?). Lembrei de uma conversa que tive com vovô ao final dos 1990. Ele disse: meu gosto musical morreu de ataque fulminante, e está enterrado no Desert Memorial Park. Vovô estava a falar do Frank Sinatra.

§ A minha hipótese é que numa certa altura (o período pode/deve variar de ser humano para ser humano) perdemos um pouco o interesse, a vontade de adaptarmo-nos às novas tendências. Preferimos continuar com o Frank Sinatra, com o Gordon Banks, com o Thomas Bernhard, com o Johnny Cash, com a Susan Sontag, com o Perec, com a Lispector, com a Cecília Meireles, com a Nina Simone — até ao fim dos nossos dias. 

§ (À guisa de P. S.) Mas a verdade é que ainda estou para conhecer cargo político mais poético do que o da senhora Ana Paula Vitorino: ministra do Mar. E ontem conversei com o músico Flávio Silva sobre os porquês de nunca estarmos satisfeitos — plenamente satisfeitos (e.g. Fulano estipula objetivos [ter casa, família, automóvel para locomover-se], e quando atinge/conquista tais objetivos parece querer pular em novas bacias de inquietações). É que nosso cérebro primata evoluíra para lidar com as intempéries da floresta, ambiente pouco amistoso àqueles que ficam parados (presa fácil), e toda a gente que já comera demais e depois dissera: ufa!, que almoço incrível, estou satisfeito, sabe que a satisfação gera inércia, apetece-nos deitar. Corroborei essas conclusões enquanto voltava para casa escutando The promise, do Sturgill Simpson.

— P. R. Cunha

«And one more for the road», a solitude etílica

Na última sexta-feira cheguei ao fundo do poço — isto se levarmos em conta os parâmetros de dignidade do Stanislaw Ponte Preta. Quer dizer: fui ao bar sozinho.

A verdade é que poucas coisas na vida são mais românticas/literárias/idealizadas do que ir algures para tomar um trago com a própria solidão.

(O porteiro do meu prédio, ao me ver sair, espantou-se com o fato cinza e com o chapéu: estás parecido com o Frank Sinatra, ele disse. Não precisaria lembrar aos leitores que estamos em pleno século vinte e um. Então este rapaz que vos escreve, que mal chegara aos trinta e poucos, sai para encher a cara com trajes à moda gângster siciliano. Excêntrico…)

Minha ideia, além de, naturalmente, entornar os copinhos, era quem sabe arrumar um canto para rabiscar qualquer coisa sobre a glamourização da escrita. O tipo que pensa: só escrevo quando conseguir uma boa escrivaninha, só escrevo quando a temperatura estiver amena, após o chá, se vistas para o oceano, quando comprar um computador melhor, ao som do jazz, se cadeira com almofadinhas, ao jardim, ou quando o silêncio for absoluto, ou depois de fazer meu jogging, ou com a caneta-fonte de dois mil dinheiros. As exigências que se acumulam do lado de fora. Enquanto a página permanece vazia.

Estava, portanto, num bar e havia pedido uma dose de uísque, e fiz o sinal de dois com os dedos, como faziam os alternativos dos 1960. Dois cubos de gelo, eu disse para a atendente. Ela tinha um dragão estranho tatuado no pescoço — só dava para ver a cabeça e a língua a cuspir fogo.

The Cranberries no sistema de som.

Quando me virei para pegar o copo sobre o balcão, percebi que um amigo acabara de se sentar a uma mesa à esquerda. Não fui falar com ele. A ideia era beber meu uísque em paz, com a minha roupa de Frank Sinatra, com o meu bloquinho de notas, com os meus pensamentos sobre a glamourização da escrita, com o meu fracasso. Mas de vez em quando olhava de soslaio para o conhecido: tinha a cabeça apoiada no braço, comportava-se como se estivesse à espera de alguém.

Alguém que nunca chegou.

— P. R. Cunha