Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha

«And one more for the road», a solitude etílica

Na última sexta-feira cheguei ao fundo do poço — isto se levarmos em conta os parâmetros de dignidade do Stanislaw Ponte Preta. Quer dizer: fui ao bar sozinho.

A verdade é que poucas coisas na vida são mais românticas/literárias/idealizadas do que ir algures para tomar um trago com a própria solidão.

(O porteiro do meu prédio, ao me ver sair, espantou-se com o fato cinza e com o chapéu: estás parecido com o Frank Sinatra, ele disse. Não precisaria lembrar aos leitores que estamos em pleno século vinte e um. Então este rapaz que vos escreve, que mal chegara aos trinta e poucos, sai para encher a cara com trajes à moda gângster siciliano. Excêntrico…)

Minha ideia, além de, naturalmente, entornar os copinhos, era quem sabe arrumar um canto para rabiscar qualquer coisa sobre a glamourização da escrita. O tipo que pensa: só escrevo quando conseguir uma boa escrivaninha, só escrevo quando a temperatura estiver amena, após o chá, se vistas para o oceano, quando comprar um computador melhor, ao som do jazz, se cadeira com almofadinhas, ao jardim, ou quando o silêncio for absoluto, ou depois de fazer meu jogging, ou com a caneta-fonte de dois mil dinheiros. As exigências que se acumulam do lado de fora. Enquanto a página permanece vazia.

Estava, portanto, num bar e havia pedido uma dose de uísque, e fiz o sinal de dois com os dedos, como faziam os alternativos dos 1960. Dois cubos de gelo, eu disse para a atendente. Ela tinha um dragão estranho tatuado no pescoço — só dava para ver a cabeça e a língua a cuspir fogo.

The Cranberries no sistema de som.

Quando me virei para pegar o copo sobre o balcão, percebi que um amigo acabara de se sentar a uma mesa à esquerda. Não fui falar com ele. A ideia era beber meu uísque em paz, com a minha roupa de Frank Sinatra, com o meu bloquinho de notas, com os meus pensamentos sobre a glamourização da escrita, com o meu fracasso. Mas de vez em quando olhava de soslaio para o conhecido: tinha a cabeça apoiada no braço, comportava-se como se estivesse à espera de alguém.

Alguém que nunca chegou.

— P. R. Cunha