Relacionamento de longo prazo

Por não possuir televisão os livros se tornaram minhas fontes primordiais de informações e entretenimentos. Pois, sim, eu cá misturo lazer e trabalho sem qualquer tipo de pudor. Leio para aprender, leio para me distrair, leio para lembrar, leio para esquecer. Mas talvez isso não seja justo com as brochuras, já que os livros ficam sobrecarregados diante das demandas deste bípede insaciável que vos escreve. Por vezes cansamos da cara um do outro, saturados. Daí fico um bom tempo sem pegar num livro, e como não sei fazer muita coisa nesta vida além de ler, os meus dias se tornam tão vazios quanto um desfiladeiro lunar (estou a pensar na bacia do Polo Sul-Aitken, no lado obscuro da Lua, uma enorme cratera com aproximadamente 13 quilômetros de profundidade). Até que aos pouquinhos os livros e eu acertamos as contas, sentimos as saudades, assinamos os acordos de cessar-fogo, perdoamo-nos, prometemos ter mais prudência desta vez… e o ciclo recomeça.

— P. R. Cunha

 

PRCUNHAbibliotecalivros
Neblinas da minha biblioteca (Brasília, 12 de maio)

 

Estranha humanidade

Fotografia em que um homem levemente curvado está a dar o que comer a um cachorro. A foto retrata a intimidade entre dono e o próprio animal canino. O pastor alemão mostra-se sentado, submisso, mas muito à vontade com aquele que lhe oferece petiscos. É uma cena, de muitas formas, tocante. Até que o observador se recorda de que o homem fotografado é ninguém menos do que Adolf Hitler e a situação se torna um bocado constrangedora. Como diria Paul Strand (e aqui parafraseio, à guisa de resumo): as anomalias quando observadas em papel fotográfico revelam uma estranha humanidade.

— P. R. Cunha


Hitler and Blondie

Um «livro por vir»

O fotógrafo aponta a própria câmera para determinado sítio & captura (prende/encarcera/enquadra) a cena. Uma imagem colorida mostrará as tonalidades dos elementos fotografados: a praça central, Poeta sentado em banco de madeira (pintado de verde por funcionários da prefeitura) a segurar caneta azul, bloquinho de notas com capa vermelha — estão ali!, podemos ver. Certa agressividade no ato de fotografar: gostava que a caneta fosse preta, e que o banco não tivesse sido pintado; mas foi pintado, e a caneta (quer queira quer não [assim nos mostra a cena revelada]) é azul, a capa do bloquinho é vermelha &tc.

Tênue mudança de perspectiva: pode-se analisar o enquadramento de acordo com o ponto de vista de Poeta — que também captura cena, uma cena parecida com a do fotógrafo, mas invertida, noutra direção, como um espelho consciencioso. Acontece que Poeta possui outros filtros além do mero reconhecimento dos fótons de luz (o aspecto técnico/mecânico do aparato fotográfico). O olho de Poeta é também influenciado pelo «coração» (figura medieval/romântica: os sentimentos vêm do coração [quando, em verdade {sabemos}, são consequências químicas monitoradas pelas atividades cerebrais]). A imagem capturada por Poeta (a poética, dir-se-ia) saíra propositadamente distorcida (de acordo com o contexto, com as circunstâncias & não só). Cores mais taciturnas se Poeta em luto; atmosfera calorosa se a paixão arrebata os alicerces emocionais do sujeito.

Portanto, melhor dos mundos: um Fotógrafo-Poeta (ou Poeta-Fotógrafo) que se livrasse das tornozeleiras do senso comum, que trabalhasse com pixels & palavras — metafotografia/metapoesia/metamorfose.

— P. R. Cunha

Lentes de contato: Niterói ontem e amanhã

1.

Há um ano anotei neste blogue que Niterói nunca seria a minha cidade. Niterói é-e-sempre-será o sítio dos meus pais. Trata-se, no entanto, da localização geográfica em que mais permaneci depois de Brasília — o meu berço de cimento. Niterói é aquela prima com quem passamos tempo de mais ao ponto de quase podermos chamá-la de irmã. 

Nos últimos outonos, venho até aqui para ajudar/cuidar/resolver miudezas diversas da minha avó Eva, mãe de papai. Mas nunca saio de Niterói com as mãos abanando, como se diz. Meu primeiro livro a solo, Paraquedas – um ensaio filosófico, nasceu durante minhas incontáveis perambulagens niteroienses*, encorpou-se na Rua Mariz e Barros, a primeira parte fôra praticamente toda escrita no «Icaraí Café», que é onde estou sentado agora, a escrever estas linhas descompromissadas.

Trata-se de um café absurdo, café dentro de shopping mall, mas — por algum motivo que foge das minhas capacidades interpretativas — este lugarejo traz-me as inspirações mais interessantes de sempre. Alguns dirão que é o excesso de cafeína, o açúcar. Não é (só) isso. É outra coisa. Talvez um sentimento nostálgico, e bobo, e romantizado, uma ilusão, expectativa de que aqueles bons tempos da meninice possam de alguma forma retornar. Ou aquela impressão de desconectividade que por vezes sentimos quando assistimos aos filmes do David Lynch. Uma experiência metafísica (não à Kardec, mas à Borges & Bioy), como se aqui eu conseguisse finalmente escutar os sussurros fantasmagóricos dos meus antepassados.

É por isto que volto constantemente a este café: porque se não me sento aqui para ler, rabiscar as minhas anotações e ter os delírios da praxe, é como se minha visita a Niterói nunca tivesse acontecido.

2.

Caminhar de facto em Niterói: o andarilho se depara com uma cidade acolhedora, simpática, moradores sorridentes e prestativos, pessoas que se cumprimentam enquanto passeiam nenhures sobre a calçada com pedrinhas portuguesas.

Ler/ouvir/ver notícias a respeito de Niterói: um pode se perguntar se não errara de endereço — é aqui a Terceira Guerra Mundial? Não lhe apetece sair de casa e levar um tiro de bazuca no coração.

O retrato de Niterói a variar de acordo com a lente que o sujeito escolher.

As notícias podem por vezes deixar mudo o receptor, paralisá-lo — mas há tempos que os noticiários não retratam realidade alguma (vide interesses políticos e comerciais, publicidade grotesca, egotismos diversos, sensacionalismos etc. etc. etc.).

Sair e ver com os próprios olhos — um adágio atual, necessário. Noutros termos: não enxergar o mundo através das lentes dos outros.

— P. R. Cunha


*Sempre com o Lippolis (Viagem aos confins da cidade) dentro da sacola com a silhueta do MAC de Niterói estampada.

Só mais um rostinho bonito (e indefeso) no capcioso universo literário

Dizem que todas as profissões criam para si um conjunto de maneirismos — uma espécie de manual de etiqueta informal que ao fim e ao cabo acaba definindo um bocadinho esta ou aquela área de atuação. Penso nos uniformes de guerra, nas perucas dos juízes, no jaleco branco a mostrar que fulano é médico e confiável, nas patentes aeronáuticas, penso na indumentária alternativa dos que trabalham com publicidade, nos homens e mulheres hightech que praticam o jogging pela manhã e depois levam os próprios animais (cães, gatos, porquinhos da Índia) à sede de empresas com edifícios «amistosamente ecológicos» tais como Google, Facebook, Microsoft. São esteriótipos. E como acontece muitas vezes com as imposições arbitrárias, os esteriótipos têm também qualquer coisa de cafona, de surreal. Nunca compreendi, por exemplo, os porquês de os políticos brasileiros vestirem terno e gravata. O Brasil é um país tropical com temperaturas diabolicamente infernais. Uma terra a arder e mesmo assim os gajos se metem em fatos de algodão, ficam tão ensopados e fedorentos quanto um gambá silvestre depois de fugir do Leopardus spp. — popularmente conhecido como gato-do-mato. No entanto, é provável que no quesito «brega casual» nenhuma cafonice consiga superar a dos chamados (pseudo-)intelectuais. Christopher Hitchens dizia que não conseguia ler o livro de autores que tirassem retratos com a mão no queixo, a fazer poses de: mamã, estou na orelha de um livro, o meu livro, sou mesmo muito importante, passo os weekends a ler Tolstói, analisando os pormenores do formalismo búlgaro. Ou mesmo a postura de pessoa fragilizada pelas mazelas do mundo, a citar Bertrand Russell fora do contexto. O desabafo vem a calhar, porque dia desses um jornalista solicitou-me fotografia à guisa de ilustração — ele escrevera uma nota a respeito de Paraquedas. Acontece que depois ficou deveras aborrecido com a imagem que eu lhe enviara (uma foto descontraída em que estou perto da piscina, com t-shirt branca e tênis de beisebol). Não tem nenhuma mais bonitinha?, ele me perguntou. Pedi que definisse o adjetivo com mais esmero. A resposta: sei lá, uma com a mão no queixo, essas fotos que vocês (sic!) costumam mandar para a imprensa.

— P. R. Cunha


headshot

Crasso exemplo de autor-fragilizado-pelas-intempéries-do-mundo-com-a-mão-no-queixo (a mídia parece adorar esse tipo de pose) ©BWC Photos

Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte III

Tenciona-lhe deitar-se cedo

Então estou parado diante da placa setenta centímetros de largura por quinze centímetros de altura na qual foram gravados em tipologia serifada nome, data de nascimento e dia da morte do meu pai. Fora um ou outro adereço — fotografias desgastadas pelas intempéries do tempo, um santo de argila decapitado, buquês de flores apodrecendo —, as pedras de todas as sepulturas vizinhas são idênticas. Filas e filas de mármores retangulares que me lembraram as maquetas de antigas cidades soviéticas que vi expostas em alguns museus quando estudei em São Petersburgo.

Sou tomado por uma incontrolável compaixão perante estas réplicas monótonas e penso no que disse Kaspar Hauser: tenho vergonha de tudo o que se repete. Se os valores da sociedade moderna buscam a padronização de nossas ações e de nossos interesses, eis aqui os mesmos princípios adaptados ao modo como lidamos com a memória daqueles com quem não podemos mais contar.

As promessas de liberdade, de plenitude, de sermos indivíduos únicos e heróicos não passam de parvoíces retóricas. Vive-se em constante perigo, a felicidade é passageira, as entranhas econômicas exigem que pensemos da mesma forma. A única maneira de se proteger é no isolamento, recolher-se aos abrigos. Os raios solares querem lhe matar, os asteroides querem lhe matar, os gases poluidores querem lhe matar, os animais selvagens querem lhe matar, os seres humanos querem lhe matar e daí vivermos em caixas desde sempre. Em criança, somos empacotados pela mãe, a casa é uma caixa, a escola, o trabalho, a sala de cinema, tudo caixa, o automóvel, o restaurante — caixas. Sabemos que sem elas estaríamos absolutamente perdidos, apesar de algumas vezes nos sentirmos incomodados com a claustrofobia, mas é o preço que se paga pelo tumultuoso passeio da vida. Até que o ciclo se fecha e nos colocam finalmente na derradeira caixa, como aconteceu com papai, como aconteceu, e ainda acontecerá, com tantos outros, como vai acontecer comigo. 

O corpo do meu pai agora se decompõe, tem a companhia de milhares de falecidos que enquanto vivos também procuraram se diferenciar, achavam-se especiais, também acreditaram que aquilo que acontecia ao redor deles lhes dizia respeito, mas a morte não dá a mínima para essas coisas.   

* * *

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler.

Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O facto de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza.

O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler.

Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências.

Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória.

Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até para si mesmos), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam.

Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro.

Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler

— P. R. Cunha