Os dois lados da pequena Bete

Elisabete tem oito anos. Os amigos chamam-na de Bete. Em cima de uma bicicleta, Bete mostra-se destemida. Há uma floresta perto da escola dela, um local repleto de pinheiros, animais de toda a sorte e penhascos de arenito. Por ser sombria e isolada, muitas crianças da escola evitam a floresta, mas Bete entra ali com a própria bicicleta e não se importa de pedalar perto dos cervos, dos texugos e das lebres. O que pouca gente sabe é que Bete também é um bocadinho medrosa. Bete tem medo da velha estátua de bronze do fundador da cidade, Bete tem medo do gato laranja da senhora Francis, Bete tem medo de raios e trovões, Bete tem medo da sombra que os galhos fazem na parede do quarto antes dela dormir, Bete tem medo de os pais se separarem. Ela procura guardar todas essas inquietações dentro de si mesma. São os dois lados da pequena Bete, que ontem fora diagnosticada disléxica por um médico chamado Erling.

— P. R. Cunha

Instafobia (a experiência de um antissocial nos limites do Instagram)

Estive em Niterói em maio e tirei uma porção de fotografias. Eu andava para cima e para baixo com a minha Canon T2i (cujo apelido é «Sei Shōnagon» [singela homenagem à autora de O livro do travesseiro]) e numa altura a recepcionista da pousada onde eu me hospedei, moça muito bonita por sinal, pediu-me para, como se diz, dar uma espiadinha nas fotos. Você não pode guardá-las consigo, ela falou, crie conta no Instagram, mostre-as para o mundo. 

Quem me conhece há mais de duas semanas sabe que tenho forte queda por damas de excelente figura que emitem delicadas opiniões a respeito das minhas fotografias. Ao passo que criei a bendita conta no Instagram. E como também não sei me divertir, comecei a escrever uma espécie de relatório informal (sic) a fim de problematizar as experiências como usuário da maior rede de compartilhamentos de imagens do mundo. Este sou eu, senhoras & senhoras.

Desde o início, estava ciente de que a empreitada só funcionaria se eu utilizasse a conta como portfólio — a saber: P. R.-fotógrafo-somente-atrás-das-câmeras-e-eis-aqui-as-minhas-fotos. Quase como se fosse uma continuidade da postura que costumo adotar neste blogue; só que em vez de palavras, escreveria à moda pixel. 

Bom. Toda essa lenga-lenga de distanciamento racional é muito bonita na teoria, mas na prática deslizei (diversas vezes) nas bananas da vaidade e publiquei retratos desta minha jovem face — mesmo que apenas em «Stories» e com a nobre finalidade (i.e.: desculpa esfarrapada) de divulgar projetos musicais.

Minhas primeiras publicações foram um verdadeiro, como é mesmo a palavra… fracasso. Cinco, sete, no máximo nove curtidas — ou likes, se preferir. A verdade é que nem a sempre encorajadora mamã estava a dar muita atenção para as minhas tentativas de socializar na rede web. Meu filho, ela disse, você não tem paciência para essas coisas, e aposto esta casa como daqui a um mês você já vai ter desativado a conta.

Pois vejam como a vida é irônica… passaram-se dois meses, a conta sobrevive, e se eu tivesse feito um contrato formal com mamã (assinaturas reconhecidas em cartório, advogados, testemunhas etc.) hoje teria uma casa para chamar de minha. Não o fiz, paciência.

No meu despretensioso «Dossiê Instagram» — a nomenclatura é temporária — dou especial atenção ao modus operandi dos seres humanos que ali compartilham, conversam, gostam, odeiam, ignoram, paqueram, ironizam, aparecem, desaparecem, seguem, deixam de seguir. E antes que alguém me acuse de charlatanismo, esclareço que, em certa medida, tive/tenho/terei um pouquinho de cada perfil analisado. Então é isto: selecionei alguns excertos da pesquisa e gostava de anexá-los à guisa de recreio.

Minhas calorosas saudações,

— P. R. Cunha*


[ANEXO: DOSSIÊ INSTAGRAM / EXCERTOS]

O perfil artista frustrado
Aquele ser humano que publica fotos estranhas, mas que prefere acreditar que são fotos incríveis, surreais; comporta-se como se fosse um fotógrafo incompreendido, um fotógrafo do futuro, à espera do verdadeiro reconhecimento que lhe convém. Amiúde, comenta com os amigos que «os usuários do Instagram não sabem apreciar arte, e é por isso que só recebe duas curtidas a cada postagem», esquecendo-se, inclusive, de perguntar por que diabos nem os próprios amigos estariam «apreciando» esse amontoado de esquisitices.

O perfil caça-likes
Este ser humano vai curtir a foto de toda a gente, inclusive as fotos abstratas (na falta de melhor termo) dos artistas frustrados (ver perfil anterior). E tudo isso em troca de corações. Parece claro que o cúmulo dessa prática é a famigerada hashtag «likeforlikes» — e que tais relacionados.

O perfil à espreita
Basicamente, aquele usuário que monitora todos os seguidores, e quer saber quem está curtindo as suas fotos, e quem começou a segui-lo, e quem deixou de segui-lo, e se alguém deixou de segui-lo ele bloqueia esse alguém, e passa dias, semanas, um bocado injuriado a questionar-se por que esse alguém deixara de segui-lo, e assim por diante.

O perfil voyeur
Há aos montes. Este introspectivo ser humano raramente compartilha alguma coisa e por vezes só sabemos da sua existência quando vemos o rosto dele nos registros das «Stories». Ingênua variante voyeurística: o usuário que aprecia a fotografia alheia, acompanha francamente as publicações dos colegas, mas de fato não tem muito tempo (ou paciência) para atualizar a própria conta.

O perfil crítico-fotográfico/só-que-não
Se minha opinião valesse para alguma coisa, diria que este é o perfil mais odioso desde que o mundo é mundo. Trata-se daquele ser humano que se acha entendedor das belas fotografias, garante ter muito conteúdo, uma reputação a zelar, não pode se expor curtindo «qualquer coisinha por aí» (palavras dele), só vai curtir a foto alheia se a imagem for nível-National-Geographic para cima. Consigo claramente vê-lo esparramado num sofá com terríveis almofadas verdes, a empanturrar-se com toda a sorte de salgadinhos industrializados (Ruffles, primordialmente), a dar o scroll down e o scroll up com aquela patética fisionomia de desdém, a dizer: esta foto não merece o meu apreço, esta outra foto é ruim, que fotógrafo medíocre. (Desnecessário ressaltar que o perfil crítico-fotográfico/só-que-não jamais curtiria uma publicação do perfil artista frustrado).


*Numa rara demonstração de coragem, humildade e resiliência, o autor deste blogue compartilha aqui o endereço da própria conta no Instagram: @pierre_cunha