devaneios da própria máquina de escrever (episódio #8)

(espécie de epílogo aos devaneios anteriores [#7])

poucos ofícios se alimentam tanto da procrastinação quanto a escrita. a falta de ideia que se transforma em mote para o escritor, pois lá está ele metendo-se a anotar justamente sobre ausências. metalinguagem, o espelho do sujeito que se volta para a prática em si, aos verbos, à fazenda gramatical. alguém entra na sala do escritor & se depara com uma figura ligeiramente curvada à mesa. o escritor diz: «escrevo sobre a não-escrita, escrevo a respeito de não ter nada para escrever», & o certo alguém acha isso curioso, magnífico, edificante. mas se acompanhasse um ensaio de ballet & escutasse a bailarina dizer que está a praticar a não-dança/dança-negativa/ausência de ballet, de certeza que tomaria a moça por louca. ou um pintor que garanta: estou a pintar um não-quadro. ora, esse aí desafia as teorias de física, perdera as estribeiras.

(…)

mui breve anatomia da escrita: escrever é edificante, horripilante, traz paz, traz guerra, escrever é bonito, é feio, pode esclarecer, pode obscurecer, é poético, é sintético, ruídos, silêncios, verborrágico, antropofágico, bibliofágico, escrever destrói, escrever constrói, é céu, é noite, nuvens, tempestades, tardes soalheiras, escrever afina & desafina, amplia & reduz, micro/macro, é um pugilista em constante treinamento, escrever acalma para desassossegar, é fogo-&-neve, paradoxo contraditório: escrever é vício.

— p. r. cunha

O tipo que escreve e o tipo que trabalha com aceleradores de partículas: afinidades

Para o Rodrigo dMart

Acho curioso que alguns familiares ainda se surpreendam quando descobrem que escrevo ficção — mesmo depois de oito anos dedicando-me (quase a tempo inteiro) às fazendas literárias. Arregalam os olhos como se de súbito eu me transformasse num alienígena inescrupuloso com ambições apocalípticas. Via de regra, preciso de adotar posturas complacentes (i.e. discreto balançar de cabeça, utilizar termos vagos tais como: sim, sim, compreendo; pois não; percebo; sei bem como é; posso imaginar etcétera) enquanto comentam que toda a gente que conheceram e que porventura mexia com esse troço literário morrera cedo demais — ou suicídio, ou abuso de drogas (alcoolismo, primordialmente), ou solidão —, e que não conseguem imaginar por que cargas de água alguém com bons discernimentos haveria de se dedicar a tarefas (e aqui transcrevo ipsis verbis) «tão absurdas, destrutivas, que não levam a nada», por quê?

À primeira vista, o CERN (anacrônimo de Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) aparenta ser apenas um gigantesco e entediante túnel circular onde partículas estranhas colidem umas com as outras, sem propósito. Pelo menos é essa a imagem que muitos críticos utilizam quando questionam os apoios financeiros ao maior laboratório de física de partículas do mundo. Um bando de nerds a brincar de videojogo nas profundezas da fronteira Franco-Suíça, gastando dinheiro público com experiências cujo teor nem os próprios humanos que ali trabalham conseguem decifrar. 

Acontece que a ciência de partículas não é uma trilha com caminhos pré-determinados, estáticos. Um experimento leva a outros experimentos por vezes imprevisíveis, uma descoberta leva a novas descobertas. De forma que, ao tentar compreender a intricada origem do universo, os cientistas do CERN estão a desenvolver também incontáveis tecnologias que serão utilizadas em áreas como a computação e a medicina. A World Wide Web, à guisa de exemplo, foi lá inventada; além de diversos dispositivos utilizados para diagnosticar doenças, aperfeiçoamento da implementação do magnetismo, desenvolvimento de técnicas para se praticar engenharias… e não só.

Guardadas as devidas proporções, fazer literatura é como trabalhar no CERN. Lidamos com imprevisibilidades, desafios, com resultados fascinantes capazes de gerar incríveis efeitos colaterais. Tentamos descobrir como as coisas difíceis operam, como responder perguntas intricadas — somos desbravadores. Sim, é verdade, muitos morrem ao meio do caminho, ou perdem os botões, ou terminam sozinhos na cave de um sanatório. Mas os riscos valem a pena quando o que produzimos mostra-se capaz de mudar a vida de tantas pessoas. E é por isso que nos entregamos a tarefas tão absurdas, destrutivas, que (só parecem) não levar a nada.

— P. R. Cunha