Jazz atmosférico para leituras noturnas – uma reflexão

Os arquitetos costumam dizer que edifícios magníficos (juízo deles) precisam de sete anos para ficar prontos.

Escolha do terreno, contratação de pessoal especializado, pendências burocráticas diversas… até às devidas finalizações da obra.

Sete anos, por aí.

Frank Gehry, arquiteto que já recebera um Prêmio Pritzker e responsável pelos projetos de Museu Guggenheim Bilbao, Hotel Marqués de Riscal, Walt Disney Concert Hall (entre outros), garante que esse processo moroso rende-lhe atitudes contemplativas, faz com que ele valorize cada etapa do empreendimento, cada segundo dedicado aos desenhos, à construção em si.

Etc.

Estou há quase dez anos — mais tempo, portanto, do que se levaria para construir um magnífico edifício — a decifrar os enigmas do Tractatus logico-philosophicus. Ambígua conclusão sobre o autor deste livro: a filosofia de Wittgenstein é uma espécie de física quântica à moda Richard Feynman.

Noutros termos:

Quem diz que compreende Wittgenstein, então não compreendeu Wittgenstein.

— P. R. Cunha

Silêncio falado

Para a Irina M.

Londres, 18 de abril de 1930. 20h45. Boa parte dos britânicos prepara-se para escutar o boletim noturno da BBC. Famílias inteiras estão reunidas ao redor do rádio enquanto uma voz granulada, grave, porém amistosa, anuncia: «Boa noite. Hoje é uma ótima sexta-feira, não temos notícias». Então a BBC simplesmente preferiu tocar concertos de música clássica. O dia sem notícias. Parece que há 88 anos não era vergonhoso admitir isto, que o mundo por vezes não tem mesmo nada a dizer. E o vazio podia ser preenchido com o tilintar de um piano, com as cordas de um violoncelo, com o sopro de um oboé.

O vazio. Costumo guardar meus livros mais antigos dentro de um baú. Trata-se de uma lustrosa caixa de madeira com 32 centímetros de altura, 42 de comprimento e 50 de largura. Hoje de manhãzinha decidi remover todas essas relíquias a fim de averiguar se as traças alimentavam-se dos meus velhos companheiros de letras. Olhei para o baú e pensei: agora este baú está vazio. Mas, em verdade, o baú nunca esteve vazio — há sempre vestígios de poeira, vapor d’água, moléculas de ar, fótons, eléctrons, partículas elementares. Apenas não conseguimos enxergá-los. 

O vazio absoluto, portanto, não existe; assim como um dia em que nada acontece. Mas, ao fim e ao cabo, pode-se filtrar a poeira, eliminar o máximo de ruído externo. E talvez, quem sabe, consigamos qualquer coisa parecida com os «Quatro Minutos e Trinta e Três Segundos» do sr. John Cage: aquele silêncio permeado pelos movimentos do próprio compositor, o discreto metrônomo de fundo, e um comedido aplauso, se estivermos em público. 

— P. R. Cunha