Obstáculos

Conversa com a Jessy, à noitinha. O que define um ser humano. Atualmente –> o trabalho, a profissão; perguntam: o que você é? Geraldo é arquiteto, Priscila engenheira, Otávio cabeleireiro. O mercantilismo (principalmente desde a Revolução Industrial) que rotula. Você é aquilo que faz (?), ou talvez (outra hipótese): conjunto de atributos –> uma pessoa encantadora, hostil, esforçada, severa, batalhadora, preguiçosa. Notar, porém: atributos pessoais (via de regra) são adjetivos com conotações positivas — tendem a ser brandos. Suponhamos o Fred; Fred trabalha como contador numa empresa detestável; Fred chega em casa exausto, infeliz (a imagem moderna da insatisfação [passo o dia todo num trabalho odioso!]) — Fred não quer ser definido por aquilo que faz; meu «eu», ele diz, vai muito além; sou muito mais do que isso; não sou um mero contador; em verdade, odeio a contabilidade etc. Agora, ali está Miranda, pinta paisagens –> adora/venera o aspecto calmo e tranquilo que adota ao preparar tela sobre o cavalete, as cores, os pincéis, o Händel a tocar nos auscultadores. Sente-se em casa, confortável (a figura é esta: o lar, o abrigo). A pintura é tudo para si; Miranda confunde-se com os próprios quadros. Diferentemente de Fred: Miranda + atividade = própria definição (ou características previsíveis/plausíveis [criatividade, curiosidade, improvisos, introspectividade, não conformismo {e assim por diante}]) de artista plástico; ao que Miranda se envaidece (sim, sou uma artista, sou [também] os quadros que pinto). Aquilo que fazemos/criamos (fiz isto com as minhas próprias mãos), aquilo que reflete o nosso estado interior (sem misticismo), aquilo que nos faz sentir orgulhosos — eis o que poderia nos definir. Os adjetivos, os rótulos, os atributos vêm/viriam desse tipo de empreitada, naquela altura em que até conseguimos escutar os batimentos do coração.

— P. R. Cunha

Se me permitem fazer referência a experiências pessoais

Parado
Diante da minha biblioteca
Quase aprendo a me calar

A minha biblioteca é um organismo vivo. Quem também cultiva uma sabe do que estou falando. Os livros que possuo dizem mais sobre a minha personalidade do que qualquer voz humana. Biblioteca — coisa curiosa, holograma das próprias aspirações. A seção de história alimenta a memória, não me deixa esquecer. A prateleira de filosofia (com Nietzsche, Adorno, Montaigne, Sêneca, Platão, Benjamin, Horkheimer, Heidegger [e não só]) traduz os pensamentos. Enquanto os romances — de Flaubert a McEwan — tratam das mazelas emotivas. Cabeça, coração, e alma. Há também os livros pelos quais um dia me apaixonei imenso, até pedir o divórcio, colocá-los numa caixa e doá-los. Livros, portanto, que fazem e desfazem, que ensinam sobre a transitoriedade de tudo. Livros de folhas, ao mesmo tempo resistentes e tão fáceis de rasgar.

— P. R. Cunha

Adolf Hitler — uma tragédia anunciada

Durante os intervalos das aulas do curso de filosofia expus para os meus professores algumas hipóteses que explicariam (ou pelo menos tentariam explicar) a ascensão de Hitler ao poder, como ele se tornou possível. O objetivo era apenas comentar brevemente sobre determinados pontos que amiúde norteiam as minhas reflexões a respeito daquilo a que W. G. Sebald chamara de História natural da destruição. No entanto, como da praxe, devo ter me agitado mais do que o necessário, de forma que finalmente tiveram de sugerir que eu escrevesse e publicasse este «artigo». O texto que se segue é o resultado de uma empreitada filosófica que pretende ser sintética e objetiva.

 

I

Teorias conspiratórias à parte, aceita-se que no dia 30 de abril de 1945, ciente da aproximação do Exército Vermelho, Adolf Hitler cometera suicídio no próprio bunker em Berlim. Envenenamento por cianeto e tiro de pistola na cabeça. Meses depois, a Segunda Guerra terminaria e a comunidade internacional ver-se-ia diante de um macabro impasse: o que fazer com as autoridades nazis que sobreviveram?

Após ardilosas negociações — principalmente para conter os ânimos de diplomatas russos que exigiam medidas drásticas a fim de vingar a morte de mais de 20 milhões de soldados e civis soviéticos (de longe a nação que mais sofrera baixas durante os combates) —, os Aliados chegaram ao histórico consenso: organizariam uma série de encontros jurídicos para decidir as punições adequadas àqueles que durante anos comandaram a burocracia nazista.

Que começassem os Julgamentos de Nuremberg.

Um dos proeminentes membros do partido nazi que na altura estavam a ser julgados pelo Tribunal Militar Internacional foi Albert Speer, arquiteto-chefe do III Reich e depois nomeado ministro do Armamento. Ao dizer as últimas palavras antes de a sentença ser anunciada, Speer questionou-se de forma um tanto cínica como uma nação tão avançada, culta e sofisticada como a Alemanha pôde cair nas armadilhas diabólicas de Adolf Hitler.

 

II

Vinte e seis anos antes de Nuremberg, a derrota na Primeira Guerra Mundial transformara a Alemanha numa panela de pressão imprevisível. Os termos impostos pelos vencedores no Tratado de Versalhes mostraram-se duríssimos para os interesses políticos e sociais alemães. É possível, inclusive, conjecturar se justamente o fato de a Alemanha ser uma nação culta, civilizada e sofisticada não teria acentuado ainda mais o revanchismo daqueles que, como Hitler, participaram do conflito e sentiram-se absolutamente humilhados com a forma que foram tratados depois.

Poder-se-ia observar também que essas características culturais que começavam a traçar os esboços do nacionalismo paranoico à moda Mussolini em Itália eram (e são) construções artificiais, mutáveis, narrativas criadas para manter certa coerência e justificar a arbitrariedade de fronteiras imaginárias. Vale lembrar que o Estado moderno como é conhecido atualmente só começou a surgir na segunda metade do século XV e passaria ainda por inúmeras transformações durante os séculos seguintes. Não seria exagero dizer que o orgulho ferido dos alemães depois de novembro de 1918 era, em muitos aspectos, baseado em ficções — literatura.

O problema de se misturar conto de fadas com política é que a fantasia pode se mostrar instável quando as condições reais não forem assim tão favoráveis. Num contexto de sobrevivência natural, o muro de papel construído com identidades arbitrárias (hinos, bandeiras, leis, mitos formadores) é o primeiro a ruir, expondo as entranhas de uma sociedade que se sentirá perdida sem o amparo da bússola cultural. Foi o que aconteceu com a Alemanha no século XX; duas vezes.

 

III

A tradição alemã, e aqui cito Karl Jaspers, demonstra que o povo germânico foi educado, durante longos períodos, a ser obediente, a ter uma índole dinástica, a ser indiferente e irresponsável diante da realidade política. A Alemanha seria um país que se acostumara com a autoridade, onde as pessoas, via de regra, fazem aquilo que lhes ordenam sem criar confusão.

Gustave Gilbert, que trabalhou como psicólogo dos prisioneiros durante o Julgamento de Nuremberg, escrevera ainda que os alemão sempre obedeceram aos pais, aos professores, aos clérigos, aos superiores. Desenvolveram-se para não questionar figuras de liderança.

Quando nas décadas de 1920 e 1930 a panela política enfim explode, os alemães se deparam com um Estado tampão chamado República de Weimar, quebrado economicamente, sem qualquer perspectiva de melhora — um povo à procura de bodes expiatórios para explicar como um país tão avançado, culto e sofisticado como aquele pôde cair naquele abismo surreal.

 

IV

Em 23 de março de 1933, a República de Weimar é dissolvida e os alemães exigem um novo líder, um salvador à moda antiga, alguém para acertar as contas. É crucial ressaltar isto: por mais carismático e persuasivo que Hitler fosse, ele só foi possível porque os alemães queriam, precisavam de um herói. E, assim como Napoleão, Hitler aproveitou-se do caos instaurado, compreendeu o que as massas desejavam ouvir. Ofereceu-lhes o plano perfeito, a realidade que aspiravam.

Portanto, à medida que Hitler e o partido nazi começaram a destruir todas as instituições democráticas com o pretexto de «recolocar a Alemanha no protagonismo que ela sempre mereceu», muitos alemães (e aqui encontra-se certo cabimento nas generalizações tradicionais) acharam perfeitamente normal acreditar e apoiar de forma irrestrita os mandamentos que o Führer pregava.

 

V

Outro fator foi preponderante não só para o estabelecimento da ideologia nazi, como também para a manutenção de Hitler no poder por mais de uma década. Curiosamente, um dos primeiros a denunciá-lo foi o próprio Speer, durante o Julgamento de Nuremberg: a manipulação estratégica das comunicações modernas. 

Com a popularização do rádio, por exemplo, o líder não precisava mais de enviar ordens que demoravam dias para chegar até aos subordinados, que teriam então de repassar a mensagem sem a força e o carisma necessários. Hitler falava diretamente com o eleitorado, entrava na intimidade dos lares alemães, conversava com pais, filhos, avós, tios de uma forma até então inimaginável.

Hoje em dia muitos já se acostumaram com a onipresença das mídias, com as mensagens instantâneas, informações a um clique de distância, mas na década de 1930 escutar a voz de alguém que não estava na mesma sala, ou sequer na mesma cidade, era ainda qualquer coisa de fantástico. O rádio e os filmes produzidos pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels tornaram Hitler ainda mais místico, mágico, venerável: uma entidade sobrenatural. 

O palco estava armado para que o Führer saciasse a vontade do povo que o idolatrava.

 

VI

Alemanha com raízes belicosas, pormenores geográficos que geravam necessidade de se manter militarmente forte a todo o instante, a vontade de se ter um líder para proteger as fronteiras dos invasores (um pouco como aconteceu/acontece com a Rússia), crises econômicas, propaganda falsa e paranoica, a tentativa de se encontrar um substituto divino diante da impotência religiosa, a busca por soluções precipitadas, ilusórias. Uma nação ressentida, diplomaticamente humilhada, um desastre anunciado.

Procurei apresentar o panorama instável que preparou o caminho de Hitler ao poder. A discussão, porém, é uma colcha de retalhos que não dá qualquer sinal de encolhimento. Melhor que seja assim. O nazismo e as peculiaridades do contexto no qual ele estava inserido não podem ser esquecidos; principalmente se levarmos em conta a conjuntura política contemporânea.

— P. R. Cunha


Referências bibliográficas

BESSEL, Richard. Alemanha, 1945, São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FEST, Joachim. Conversas com Albert Speer, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

GELLATELY, Robert. Apoiando Hitler, Rio de Janeiro: Record, 2011.
JASPERS, Karl. A questão da culpa, São Paulo: Todavia, 2018.
REES, Laurence. O carisma de Adolf Hitler, São Paulo: Leya Casa da Palavra, 2013.

RYBACK, Timothy W. A biblioteca esquecida de Hitler, São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


Valsas filosóficas

Escrevo isto com uma caneta Pentel Wow! 1.0 mm, BK440, verde.

Sempre quando sai de casa, algo ruim (estranho desconforto) acontece. Quando volta, porém, as coisas se estabelecem novamente, se acalmam — a velha imagem do retorno.

Haiku com aparência aleatória, ato mínimo de enunciação que diz: escrevo hoje, agora, escrevo aqui, presente.

luz de mesa
folha de ideias
dúvida no coração

O processo é este: átomo —> matéria, do mínimo, do fragmentado (é Barthes) ao contínuo.

Uma barata quando se desespera começa a balançar as patas para todas as direções: uma forma de desespero.

Wittgenstein e Heidegger (mas também Cassirer & Jaspers [de forma branda, à moda «não queremos bater no peito pateticamente para ofender o outro»]) disseram que filosofar é estar a dois passos do desfiladeiro. Aponto, então, as atenções do meu observatório para o mais vertiginoso de todos os precipícios: o vale da minha consciência, dos meus pensamentos — que raras vezes me dão sossego, que me despertam tarde da noite e me colocam a escrever tudo o que se passa quando a força reflexiva destrói os diques que procuram proteger, sem lograr êxito, a tranquilidade do meu cérebro.

Filosofar: olhar ao redor, tentar compreender o absurdo de existir. Não é necessário recriar as correntes da praxe. Pode-se utilizar (adaptar[?]) o vasto banco de dados. Neste caso, especificamente: dançar a valsa fúnebre do século vinte, com todos os tons contraditórios, ora otimistas, ora a cantar barbáries.

De forma que estas hipóteses que vos apresento agora são tão minhas como de qualquer outro que porventura tenha chegado às mesmas conclusões; ou mesmo que tenha se aproximado delas, porém com outras terminologias. Estas coisas acontecem.

Por que cargas d’água eu existo? Começo com esta clássica pergunta.

Exemplo de realidade (nada muito aprofundado, como se verá): marco um encontro com Alguém, este Alguém comparece ao encontro — corroborando a ideia de que nós dois havíamos nos comunicado (por telemóvel, digamos), marcado o encontro (num determinado espaço, num determinado tempo). Ambos estamos ali, ao passo que a nossa conversa (marcação do encontro) só pode ter acontecido (naquilo a que chamamos de «realidade»), do contrário, não estaríamos ali.

A pergunta que se segue: se um de nós dois (eu ou Alguém) deixasse de existir, o que aconteceria?

Enquanto eu existo, tudo existe. Se eu deixo de existir, tudo também deixa de existir. Pois a realidade (como eu a vejo) é mediada pela minha consciência de existir. Eu-vejo, eu-sinto, eu-represento etc. etc.

Suponhamos que o Alguém deixasse de existir — morresse, portanto. Havíamos, como se sabe, marcado um encontro. Eu compareço ao encontro (eu-existo), o Alguém não. Alguém está morto. O encontro continua a valer, porque eu ainda estou aqui. Alguém não vai.

Se Alguém deixa de existir, eu, no entanto, continuo a existir. O outro (grosseiramente falando) não é fundamental para a minha realidade/existência, apenas modifica (posso ficar triste quando Alguém morrer, mas isto não altera o facto de eu-estar-vivo-agora).

Vejamos, entretanto, o que aconteceria se eu morresse. Se eu morro, a luz se apaga (eis aqui uma tosca justificativa ao haiku introdutório). Se eu morro, não há encontro. Pois a mediação da minha consciência foi desligada. Alguém pode até aparecer — mas eu-não-estou-lá. O mediador foi-se embora.

Repito à guisa de reforço: eu existo, tudo existe. Minha consciência morre/cessa, nada mais existe. Nem mesmo o universo em expansão, as estrelas, a Bulgária, a costureira que mora no apartamento 502. Isto vale mesmo para qualquer indivíduo que se meta em filosofias (i.e. apuros) desta natureza.

— P. R. Cunha

Tintas biográficas

Inverno, Rio de Janeiro, clínica psiquiátrica (sanatório) / Não estou a gostar do meu estado de espírito — escreve García Aspe para a irmã —, sinto um vazio, algo assim. Há dias que não come, apenas trancado, ou melhor, enclausurado dentro de um quarto sombrio, com pequena janela que não dá para sítio algum. Tomar notas todas as manhãs, continua García Aspe, tornou-se de certeza uma obsessão difícil de controlar. Um dos funcionários da clínica percebera a genialidade do paciente e arranjara para o sr. Aspe uma pequena mesa à qual o filósofo dedica os escassos momentos de lucidez para pôr no papel, como se diz, o doloroso processo do próprio pensamento. García Aspe gosta de citar Albert Camus sem, no entanto, cair nas armadilhas da erudição. Pensa que o excesso de leitura, em mãos erradas, só faz alimentar o egotismo do sujeito, que sai por aí afora a contar vantagem só porque leu um ou outro livrinho existencialista. O suicídio, diz García Aspe, um gesto como este prepara-se, tal como acontece com uma grande obra, no silêncio do coração. Ele pede para a irmã que lhe envie mais livros, para, segundo ele mesmo, distrair-se desses pensamentos autodestrutivos. O suicídio à base de metonímias, porque ainda tabu. A irmã responde que alguma coisa está para chegar. O irmão enche-se das melhores expectativas. Camus questionava, anota García Aspe, sobre os motivos que provocariam uma crise incontrolável e que levariam à chamada morte com as próprias mãos. Há imensas causas para o suicídio. Mas era preciso saber se, nesse próprio dia, um amigo do desesperado não lhe falou num tom indiferente — é ele o culpado. Alguém bate à porta e diz que segura uma encomenda importante para o sr. García Aspe. Ele abre o pacote e se depara com a obra do finlandês Arto Paasilinna: Um aprazível suicídio em grupo. O paciente não sairá do quarto nos próximos três meses porque muitíssimo compenetrado, não lhe apetece largar a prosa de Paasilinna. O tom irônico e por vezes bonachão do romance de facto arrefece as tragédias internas de García Aspe, que não encerra a própria vida de maneira precoce; muito pelo contrário.

— P. R. Cunha

Outros efeitos colaterais (porque «Tractatus logico-philosophicus» [L.W.])

A história do pensamento moderno mostra que para compreender filosoficamente o mundo em que se vive é preciso antes retirar-se dele, ir alhures.

Wittgenstein isolado num fiorde norueguês a filosofar a respeito dos primórdios do século vinte, aquele que se tornaria o Século da Morte. O próprio Heidegger a sobreviver longe, numa cabana dentro da Floresta Negra (adequada nomenclatura), porque a tarefa de se refletir sobre a vida humana é mesmo qualquer coisa extenuante. Walter Benjamin sem casa, sem pátria, sem quase ninguém, perde a própria sanidade em nome da filosofia.

Esse movimento de ir-se para fora, da busca pela solidão, e assim — espera-se — os pensamentos poderiam ser traduzidos com palavras inteligíveis àqueles que ficaram, que não podem ou não têm coragem de encarar o retiro indecoroso. 

Amiúde, os filósofos-eremitas encontram mesmo respostas significativas, aproximam-se, ou melhor, creem se aproximar das «verdades», e é tudo tão luminoso que a claridade acaba por deixá-los um bocado desassossegados. Quando precisam de voltar à convivência com toda a gente (penso ainda em Wittgenstein, lastimavelmente solitário), carregam na bagagem reflexões tão perturbadoras, tão inquietantes que já não dão conta.

A empreitada, diga-se, precisa de ser feita de livre e espontânea vontade. Ir até ao fundo do poço dos próprios pensamentos, para as camadas mais sombrias, até às águas repletas de lodo, inadequadas ao consumo humano.

Sim, voltam como um soldado que retorna do campo de batalha: alucinados e traumatizados; sem nenhuma paz interior, nenhuma alegria de existir. Não necessariamente arrependidos, porém (repito) com um grave sentimento de inadequação. Enxergam agora o mundo de uma maneira muito singular, abriram as cortinas, têm muito o que dizer. Mas quase ninguém para ouvi-los, compreendê-los.

O exílio transformara-os numa espécie alienígena. E o fardo, pelos vistos, é ter ainda de continuar a viver entre terráqueos.

— P. R. Cunha


35._Portrait_of_Wittgenstein

Retrato de Wittgenstein em 1929 — sobre as dificuldades de se retornar de nenhures.

Jazz atmosférico para leituras noturnas – uma reflexão

Os arquitetos costumam dizer que edifícios magníficos (juízo deles) precisam de sete anos para ficar prontos.

Escolha do terreno, contratação de pessoal especializado, pendências burocráticas diversas… até às devidas finalizações da obra.

Sete anos, por aí.

Frank Gehry, arquiteto que já recebera um Prêmio Pritzker e responsável pelos projetos de Museu Guggenheim Bilbao, Hotel Marqués de Riscal, Walt Disney Concert Hall (entre outros), garante que esse processo moroso rende-lhe atitudes contemplativas, faz com que ele valorize cada etapa do empreendimento, cada segundo dedicado aos desenhos, à construção em si.

Etc.

Estou há quase dez anos — mais tempo, portanto, do que se levaria para construir um magnífico edifício — a decifrar os enigmas do Tractatus logico-philosophicus. Ambígua conclusão sobre o autor deste livro: a filosofia de Wittgenstein é uma espécie de física quântica à moda Richard Feynman.

Noutros termos:

Quem diz que compreende Wittgenstein, então não compreendeu Wittgenstein.

— P. R. Cunha