devaneios da própria máquina de escrever (episódio #22)

a revigorante liberdade de se escrever qualquer coisa à maquina numa manhã parcialmente nublada depois de gladiar-se com pensamentos intranquilos. cortinas abertas. ampla — a janela. café com baileys (o suficiente para ser tachado de alcoólatra pela parcela mais puritana da população) &tc.

querer-se-ia dizer: chegará a altura em que não teremos mais vocabulário (e.g. palavras adequadas que não se percam em metafísicas paradoxais) para designar as nossas eras. […] modernidade, pós-modernidade. certo, & agora? o que vem depois do pós? super-pré-modernismo — com uma escola arquitetônica cujo mentor seria uma mistura andrógina de oscar niemeyer com le corbusier? idade dos robôs, & daí a coisa toda meio que se reiniciaria («reboot», à guisa de descontração linguística). robôs que sonham com discussões filosóficas a respeito do tempo em que vivem & publicam os próprios apontamentos num sítio web com diagramação, como se diz, «clean». não é estranho? muito estranho.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #21)

considerações sobre nietzsche — providencialismo. 

nietzsche não matou deus, apenas anunciou o funeral. se possível, evite atirar no mensageiro. achava-se que o divino seria substituído pela música. mas não foi. richard wagner era (pausa dramática) «demasiado humano». quem não gosta de um clichezinho filosófico é mulher do padre (assim falou a sabedoria do povo). basta abrir as janelas para se perceber que lá fora ainda procuram um substituto (sic) à altura. oh, deus…

[os espaços vazios, como escrevera certa admiradora de palavras cruzadas, estão aí para serem preenchidos.] 

algumas pessoas adoram sorvete de morango, outras adoram sorvete de chocolate. o problema é quando a pessoa que adora sorvete de chocolate joga o sorvete de morango de alguém no chão & diz: o seu sorvete é terrível!, inadmissível você adorar sorvete de morango.

a ideia do eterno retorno — muito já se falou sobre isso também. nietzsche levanta um tridente demoníaco, & ri de forma perturbadora (estou a descrever uma caricatura do século 19) enquanto garante que o animal humano viverá sempre a mesma vida, morte após morte, um looping eterno de mimese.

pois trate de abaixar o tridente do bigodudo. nietzsche é bom personagem.

veja só.

suponhamos que alguém diga que você viverá a mesma vida durante toda a eternidade. sim: você morreria, nasceria, morreria, nasceria. mesma vida. a ideia pode/deve assustá-lo imenso se você não faz nada além de encher a pança com «papas fritas con queso» & assiste ao programa do fausto silva todos os domingos (àquelas tardes azuladas que metem medo). mas suponhamos que você tenha tido uma vida bem digna, movimentada, aprendeu muitas coisas, viajou, conheceu gente à beça, apaixonou-se, você foi um artista respeitado, excelente modelo de paternidade &tc. agora você está no leito de morte & diz para consigo: que formidável existência a minha, poderia vivê-la novamente de muito bom grado. 

pimba!, moribundo. acertou na mosca. nietzsche orgulhar-se-ia de si.

viva de uma forma plena, divirta-se, ame, crie, busque novos conhecimentos, novas experiências, escreva, cante, pule, brinque, dance, construa a própria trajetória de um jeito que a suposição «eterno retorno, viver a mesma vida para sempre» não lhe assuste (tanto assim).

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #16)

certa noite, ernesto carrión, o famoso — ou melhor —, o relativamente bem-sucedido documentarista radiofônico estava deitado no sofá assistindo à televisão quando um besouro amarelo entrou pela janela da sala do apartamento atolado de papéis avulsos, cheiro persistente de toalha úmida, o carpete ao centro que, pelos vistos, não recebia as carícias do aspirador de pó há meses. os besouros percebem o brilho azulado da televisão, a luz laranja que vem das luminárias dos apartamentos & confundem essas claridades com a lua ou com o sol ou com qualquer outra coisa que deveria guiá-los para algum sítio seguro. mas lá está o besouro amarelo. voa feito um piloto bêbado pelo teto da sala & aterra no livro cujas páginas ernesto carrión folheava distraidamente. o encontro entre humano & besouro é curto, inusitado. ernesto curva a ponta do dedo indicador até apoiar a unha sobre a cabeça do polegar & levanta o besouro amarelo para os ares. o inseto tenta se estabilizar, mas cai torto, virado, com as asas voltadas para o chão. ernesto fecha o livro. fica observando as patinhas do besouro amarelo que se mexem de forma aleatória, como se tentassem agarrar um móbile musical para crianças. alguém na televisão comenta sobre a alta taxa de obesidade nos países desenvolvidos. ernesto vai até à cozinha. pega uma garrafa de cerveja no frigorífico. volta para a sala. o besouro amarelo continua de cabeça para baixo, parado, balançando as patinhas, sem propósito nenhum. ernesto carrión entorna um longo gole de cerveja & sabe que não demorará muito para começar a fazer comparações filosóficas entre a própria vida e aquele balançar despropositado do besouro amarelo.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #4)

depois de aceitar a dura realidade, isto é: que a minha máquina de escrever não é benquista em parte alguma (tentei restaurantes, bibliotecas, toda a sorte de cafeterias, até um bar etílico & só recebi reprimendas): «muito elegante a máquina, companheiro, mas não podemos deixá-lo entrar aqui com esse aparato bélico» &tc. &tc. &tc.

olivetti, metralhadora verbal.

então que estou agora sentado ao jardim da casa de mamã, perto da minha horta. leio os jornais, toc-tac-tac-toc na olivetti & lembro-me cá do george orwell — acho que quando lemos toda a obra de determinado escritor meio que ganhamos o direito de tratá-lo, como se diz, sem papas na língua (de aí justifica-se o uso do artigo definido masculino singular): o george, que numa altura escrevera que qualquer pessoa com mais de trinta anos que analisasse o próprio passado acharia ali imensos defeitos dos quais não se orgulharia.

estava a criticar aqueles que apontavam o dedo para os «outros defeituosos», a desmascarar aqueles que se viam como juízes sociais, que garantiam ter vivido sem percalços, incólumes, que se davam o direito de decidir além do bem & do mal.

essa beatitude tão almejada pelas narrativas religiosas, dizia o george, mas tão antagônica aos modos do ser humano. não à toa, o george foi um dos mais ativos críticos do revisionismo histórico que se alastrava pelo século passado & cujas consequências mais devastadoras ele não pôde perceber, pois morreu aos quarenta & seis anos em janeiro de 1950.

enaltecer as conquistas, as medalhas adquiridas, os diplomas pregados na parede do escritório, o relógio de ouro, o automóvel importado, o telemóvel com seis câmeras, o bilhete de primeira classe; desconsiderar os fracassos, as dores, as perdas, o coração partido, as falhas de caráter, a ira, a fúria, os termos inapropriados, as mentiras, os abusos, a finitude…

biografias paradoxais editadas de acordo com as circunstâncias. o george aconselhava-nos a pensar nisso ao sermos julgados — & principalmente antes de julgarmos vivalma.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #3)

há duas máquinas de escrever; o meu cérebro & a máquina de escrever propriamente dita: olivetti. a primeira funciona com neurônios, a segunda com teclas do abecedário. duas máquinas de escrever.

o texto — mesmo aquele escondido atrás da máscara de subjetividade científica — parece, como diria nietzsche, a confissão pessoal de seu autor. memórias involuntárias, inadvertidas, defesa daquilo que se acredita.

nos anos 1930, doutores receitavam chocolate com cocaína às mamãs com dificuldade para cair no sono. sim: cocaína. rápida pesquisa aos arquivos da ciência daquela época & depara-se com uma infinidade de artigos médicos a corroborar esse método disparatado, estudos que indicavam tamanha eficácia.

(artistas de hollywood [bette davis, paul henreid, audrey hepburn, só para citar alguns] que fumavam em cenas específicas para influenciar a opinião pública [vejam como um cigarrinho pode ser charmoso].) 

então o que é verdade/certo agora pode não sê-lo daqui a dez, vinte anos. existe uma cartilha de factos. hoje, acreditamos nisto & naquilo, fazemos pesquisas para isto & àquilo outro. fumamos, cheiramos, bebemos, injetamos remédios que brevemente tornar-se-ão mortíferos.

eis outro exagero a título de reforço: geocentrismo, o planeta terra fixo ao centro do cosmos (& os hereges que arderam na fogueira por discordarem dessa visão). 

«ora, quem é você para julgar o meu abuso de cocaína antes da minha sonequinha?!»

a tecnologia avança, os telescópios ganham lentes maiores & mais nítidas, podemos estudar os confins da cosmologia (cosmic microwave background, big bang [&tc. &tc.]), construímos teorias através dessas observações, descartamos velhas ideias que faziam parte do «cânone irreversível (sic!) do conhecimento universal», newtons aparecem & são parcialmente descartados, einstein surge & mantém-se ao centro do palco desde o início do século vinte — até a(s) próxima(s) verdade(s) absoluta(s) surgir(em).

os períodos de transição, já se sabe, costumam ser os mais conturbados, para não dizer: estranhos, perturbadores. basta olharmos pela janela. esta inovadora sociedade contemporânea constituída de indivíduos que almejam colônias em marte, que operam aceleradores de partículas subatômicas, constroem veículos autônomos, & também de humanos que acreditam que a terra é plana, que o destino de toda a gente é controlado por ventríloquos com poderes sobrenaturais (ventríloquos malévolos, vingativos, que jogam aqueles que não obedecem as regras [?] nas caldeiras [sempre o fogo como método de punição] de um inferno infinito).

— p. r. cunha

A arte de não perder os botões durante uma viagem aeronáutica

Quem já se predispôs a sair do próprio microcosmos regional para uma jornada algures entende que Mark Twain estava certo quando dissera que «a viagem é fatal para o preconceito, a intolerância e a estreiteza do espírito». Mas, à guisa de não se cair em abismos românticos, talvez fosse interessante contextualizar determinadas citações com natureza de deslocamento. Twain, por exemplo, escrevera sobre viajar no século XIX — numa época em que se alguém cogitasse a possibilidade de entrar numa cápsula pressurizada com asas de aço que voa na direção dos céus, esse alguém de certeza seria enjaulado em hospício.

No livro A arte de viajar o filósofo Alain de Botton aborrece-se com determinada agência de viagem que não colocara na brochura publicitária tudo de terrível que também havia num «resort paradisíaco com vistas para o oceano Atlântico». As fotografias são incríveis, os relatos impecáveis; vende-se um produto, ou melhor, uma ilusão de que nada, absolutamente nada, pode dar errado. O público que lê a brochura, cansado imenso da rotina que se repete dia após dia, deixa-se encantar pelos artifícios da imagem de um coqueiro solitário a criar sombra na superfície de uma areia branca como as nuvens. Corre-se para fazer as reservas, o coração enche-se de expectativa. Até chegar a altura de realmente pisar no resort paradisíaco e perceber que a praia outrora vazia está agora abarrotada de turistas com gosmas amarelas de protetor contra raios UVB, o coqueiro da brochura fora cortado para abrir espaço a um loja da United Colors of Benetton, os atendentes da cafeteria nem sequer se preocupam em dar os protocolares bons-dias.

A viagem como forma de se encontrar, sim, mas também de se sentir um produto, uma mercadoria, um objeto descartável. A dicotomia: sonho e consumo. Consumir e ser consumido. Escrevi isso jogado nas cadeiras desconfortáveis do aeroporto internacional de Santiago (Comodoro Arturo Merino Benítez), cujo pátio com uma boa quantidade de aeronaves era a única prova convincente de que aquilo não se tratava de uma rodoviária.

As décadas de 1950-1960 ainda são consideradas os anos dourados da viagem aérea. Cabines luxuosas, cadeiras largas como camas de hotel, espumantes, refeições preparadas por renomados chefes de cozinha, talheres de metal. Mas não se pode esquecer também (novamente a questão do contexto) que esses supérfluos eram a única maneira de atrair passageiros. Além de serem menos seguras do que os modelos atuais, as aeronaves da época tinham pouca autonomia de voo, faziam um barulho ensurdecedor, e as passagens podiam custar o preço de um automóvel.

No entanto, não deixa de ser um bocado desapontador notar que a história da aviação tivera um início tão atraente no quesito conforto apenas para perder-se às demandas de um mercado saturado de passageiros apressados. 

É evidente que não se pode descartar a conveniência de uma aeronave. Mas seria razoável pensar em soluções menos animalescas. Acontece que se o viajante não tiver os recursos necessários para um bilhete de «classe», terá de se espremer na caixa de sardinha com outros trezentos passageiros irascíveis.

O tratamento desumano, aliás, começa bem antes de a aeromoça com voz robótica pedir fasten your seat belts. O discurso contemporâneo de globalização só parece valer mesmo quando as trocas envolvem commodities relevantes. Ir a um país que não tenha acordos diplomáticos com a nossa própria nação é uma epopeia burocrática que deixaria Homero sem palavras. Em verdade, mesmo que sejam governos com boas relações, o processo de deslocamento mostra-se tão penoso que a viagem perde muito daquela promissora inocência inicial.

A longa espera para o check-in, as máquinas que nem sempre funcionam adequadamente, despachar bagagem, pagar um preço adicional pela bagagem, verificar se a mala de mão está dentro dos padrões exigidos pelo papa, passar pelo aparelho de raio-X, ser revistado como se o passageiro fosse o chefe da máfia russa, ou um dos capangas aposentados de Saddam Hussein — senhor, não é permitido levar água (?!) dentro da aeronave —, tirar os sapatos a ver se não há dinamite nuclear escondida, os banheiros dos aeroportos são sujos, há restaurantes perto de mais das áreas de embarque, as filas, filas para todos os lados, e toda a gente irritada, atrasada, pessoas à beira de um colapso nervoso etc.

Sem cair nas supracitadas armadilhas românticas, trocaria tudo isso por uma boa e velha viagem de comboio, mesmo que essa escolha signifique lentidão. Porque a velocidade da viagem aérea esconde-se atrás de um itinerário que leva muito mais tempo do que «as horinhas de voo» podem sugerir: verificar os itens da mala, chegar com bastante antecedência ao aeroporto, esperar a chamada para o embarque, as filas (mais filas), lidar com atrasos, overbookings, conexões, alfândegas e não só.

Aterra-se ao destino como se tivesse saído das trincheiras de uma batalha invencível, com a frase de Ralph Waldo Emerson à cabeça: que viajar é mesmo um paraíso de loucos.

— P. R. Cunha

Turma de filosofia

Para Aguarela de Viagens

7h42 da manhã. Max entra na sala de aula. Com passos inquietos dirige-se ao quadro de ardósia e coloca sobre a mesa a própria maleta marrom que poderia ter pertencido a um qualquer espião búlgaro durante a Guerra Fria. Sem dizer bons-dias aos alunos e com os olhos fixos num horizonte invisível, o professor parafraseia Irvin D. Yalom: porque não podemos viver congelados pelo medo, criamos subterfúgios para amenizar o terror da morte. 

Os alunos permanecem em silêncio. Max continua:

Um curioso exercício filosófico consiste em nomear ao menos cinco pessoas que viveram durante o século XVI. Obviamente, o propósito da empreitada perderá todo o sentido se algum espertinho utilizar-se dos recursos Google e que tais relacionados. 

Vamos… Cinco nomes de pessoas que viveram no século XVI, assim, de cabeça.

A ironia, continua Max, é que estamos a viver na era das tecnologias midiáticas, numa altura em que raramente ficamos alguns minutos sem receber notícias de alguém ou de alguma coisa, e, mesmo assim, muitos não conseguem se lembrar de cinco, apenas cinco dos milhares de humanos que viveram há cerca de quinhentos anos.

É de se pensar nisto, diz Max, será que as pessoas de 2500 lembrar-se-ão de nós? Ou, num tom menos egotista, mais abrangente (aqui Max adota certa postura teatral, distante, está a desempenhar o papel dramático que tanto lhe apetece): qual será o legado desta época de abundâncias, de quantidades, dos planos de saúde, mas também de negligências memoráveis?

Um aluno tosse, outra aluna leva o dedo em riste aos lábios e faz shhhh!

Talvez até lá, prossegue Max, seres humanos e robôs tenham se fundido, transformaram-se num organismo inclassificável. Ciborgue que não dá a mínima para as instabilidades cronológicas e psicológicas do ultrapassado e emotivo Homo sapiens. O próprio interesse em fazer perguntas perderia um bocadinho o sentido, pois as respostas, se levarmos o Elon Musk a sério, estariam embutidas na programação da «placa-mãe» (Max faz as aspas aéreas), o famigerado cérebro de silício atualizável.

— P. R. Cunha