Excertos de possibilidades

De um texto a escrever: como o crossfit modificou a minha forma de lidar com a escrita — desafiar-se constantemente, saúde de corpo & cérebro (vide escritores japoneses [Mishima, Murakami, Tanizaki, Kawabata, Miwa]), não subestimar os próprios limites &, o mais importante, continuidade, rotina, manter a máquina trabalhando (em física: momentum).

Lembrar-me de assistir:

Letter to Jane (Godard/Gorin, 1972);
Persona (Bergman, 1966).

Andrei Tarkovski & a obsessão pelo processo criativo. Nos anos 1970, três versões diferentes de Сталкер (Stalker). Contato de toda a equipe de filmagem com materiais altamente tóxicos de usinas/fábricas desativadas em Tallinn. Longas exposições. Possível causa das mortes de Alexandr Kaidanovsky (o Stalker), Anatoli Solonitsin (o Escritor) & do próprio Tarkovski: contaminação industrial.

Esta minha estranha necessidade de também explicar, seguidas vezes, o que faço, o que estou a fazer, a relevância — certo desconforto diante da pergunta: por que diabos escreves literatura? & a minha atitude defensiva & explosiva ao dar as explicações mais esdrúxulas possíveis.

Dois sonhos que se repetem frequentemente. #1: estou a afundar num pântano & escuto uma voz andrógina: «A cura para um velho amor não é um novo amor, mas novas dores, novas decepções». A voz mete imenso medo. Acordo pouco antes de ser engolido pelo pântano. #2: estou deitado numa cama & há uma arma automática apontada à minha cabeça. É preciso dormir assim, com a arma a poder disparar a qualquer momento.

— P. R. Cunha

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha