devaneios da própria máquina de escrever (episódio #23)

A CENA DO BAR

a cena do bar envolve sons/barulhos de bar (copos de cerveja, música com guitarra acústica aos altifalantes, o cozinheiro a fazer as mãos de megafone tentando confirmar algum pedido, a cacofonia de homens & mulheres rindo-se, o bêbado solitário que tira um pigarro invisível da garganta antes de recolher o próprio boné & sair a nenhures). a fumaça dos cigarros suspende-se na baixa atmosfera do estabelecimento. as pessoas sentadas ao balcão estão vestidas como se fossem figurantes de um filme mudo da década de 1920. certa dama flerta com um sujeito vestido de cowboy — jaqueta esfarrapada feita com pelúcia de ovelha, jeans azul, botas. a dama usa vestido preto, longo, pernas insinuantes que se mostram apenas ligeiramente entre os cortes da roupa quando ela se move no banco giratório. o cowboy levanta o copinho de uísque & sorri para a dama. sabe-se que uma das funcionárias de mesa (madalena em solteiro) começou a fazer o curso para ser hospedeira de bordo (aeronaves comerciais). ela é alta & jovem. dentro do bar está escuro, mas é um escuro que diz pouca coisa. não se tem a certeza se lá fora cai a noite ou se são apenas as nuvens carregadas de tempestade a cobrir a luz do sol. a verdade é que o tempo dentro dos bares nunca passa da mesma maneira, nunca passa.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #3)

há duas máquinas de escrever; o meu cérebro & a máquina de escrever propriamente dita: olivetti. a primeira funciona com neurônios, a segunda com teclas do abecedário. duas máquinas de escrever.

o texto — mesmo aquele escondido atrás da máscara de subjetividade científica — parece, como diria nietzsche, a confissão pessoal de seu autor. memórias involuntárias, inadvertidas, defesa daquilo que se acredita.

nos anos 1930, doutores receitavam chocolate com cocaína às mamãs com dificuldade para cair no sono. sim: cocaína. rápida pesquisa aos arquivos da ciência daquela época & depara-se com uma infinidade de artigos médicos a corroborar esse método disparatado, estudos que indicavam tamanha eficácia.

(artistas de hollywood [bette davis, paul henreid, audrey hepburn, só para citar alguns] que fumavam em cenas específicas para influenciar a opinião pública [vejam como um cigarrinho pode ser charmoso].) 

então o que é verdade/certo agora pode não sê-lo daqui a dez, vinte anos. existe uma cartilha de factos. hoje, acreditamos nisto & naquilo, fazemos pesquisas para isto & àquilo outro. fumamos, cheiramos, bebemos, injetamos remédios que brevemente tornar-se-ão mortíferos.

eis outro exagero a título de reforço: geocentrismo, o planeta terra fixo ao centro do cosmos (& os hereges que arderam na fogueira por discordarem dessa visão). 

«ora, quem é você para julgar o meu abuso de cocaína antes da minha sonequinha?!»

a tecnologia avança, os telescópios ganham lentes maiores & mais nítidas, podemos estudar os confins da cosmologia (cosmic microwave background, big bang [&tc. &tc.]), construímos teorias através dessas observações, descartamos velhas ideias que faziam parte do «cânone irreversível (sic!) do conhecimento universal», newtons aparecem & são parcialmente descartados, einstein surge & mantém-se ao centro do palco desde o início do século vinte — até a(s) próxima(s) verdade(s) absoluta(s) surgir(em).

os períodos de transição, já se sabe, costumam ser os mais conturbados, para não dizer: estranhos, perturbadores. basta olharmos pela janela. esta inovadora sociedade contemporânea constituída de indivíduos que almejam colônias em marte, que operam aceleradores de partículas subatômicas, constroem veículos autônomos, & também de humanos que acreditam que a terra é plana, que o destino de toda a gente é controlado por ventríloquos com poderes sobrenaturais (ventríloquos malévolos, vingativos, que jogam aqueles que não obedecem as regras [?] nas caldeiras [sempre o fogo como método de punição] de um inferno infinito).

— p. r. cunha

Excertos de possibilidades

De um texto a escrever: como o crossfit modificou a minha forma de lidar com a escrita — desafiar-se constantemente, saúde de corpo & cérebro (vide escritores japoneses [Mishima, Murakami, Tanizaki, Kawabata, Miwa]), não subestimar os próprios limites &, o mais importante, continuidade, rotina, manter a máquina trabalhando (em física: momentum).

Lembrar-me de assistir:

Letter to Jane (Godard/Gorin, 1972);
Persona (Bergman, 1966).

Andrei Tarkovski & a obsessão pelo processo criativo. Nos anos 1970, três versões diferentes de Сталкер (Stalker). Contato de toda a equipe de filmagem com materiais altamente tóxicos de usinas/fábricas desativadas em Tallinn. Longas exposições. Possível causa das mortes de Alexandr Kaidanovsky (o Stalker), Anatoli Solonitsin (o Escritor) & do próprio Tarkovski: contaminação industrial.

Esta minha estranha necessidade de também explicar, seguidas vezes, o que faço, o que estou a fazer, a relevância — certo desconforto diante da pergunta: por que diabos escreves literatura? & a minha atitude defensiva & explosiva ao dar as explicações mais esdrúxulas possíveis.

Dois sonhos que se repetem frequentemente. #1: estou a afundar num pântano & escuto uma voz andrógina: «A cura para um velho amor não é um novo amor, mas novas dores, novas decepções». A voz mete imenso medo. Acordo pouco antes de ser engolido pelo pântano. #2: estou deitado numa cama & há uma arma automática apontada à minha cabeça. É preciso dormir assim, com a arma a poder disparar a qualquer momento.

— P. R. Cunha

Lourenço — notas para um personagem invisível

O Lourenço nos ameaça com suas sátiras, palavras mordazes, estranha aparência, queixumes, frases desconcertantes, dores, esclarecimentos que (muitas vezes) não queremos esclarecer, longas divagações — e outros pormenores inamistosos.

As coisas mais necessárias na vida do Lourenço são: o papel, a caneta, a água, a máquina de escrever (de preferência uma Underwood [com alfabeto cirílico]), o gim, a vodca, os filmes do Tarkovski, os filmes do Kubrick (vide Barry Lyndon) os livros do Pynchon, teatro (aos sábados), o pão de centeio, a uva, a indumentária discreta, os beijos de uma certa donzela.

Coisas prejudiciais ao Lourenço: calor, esquecimento, fúria, ansiedade, levantar sem ter vontade de levantar, fogo, chorar de mais, poluição sonora, poluição visual, café frio, melancolia (quando prolongada), poluição atmosférica, bebida fermentada, aglomerado de seres humanos, ganhar livros do Paulo Coelho (e/ou do Augusto Cury).

Profissões já exercidas pelo Lourenço (artes, ofícios & ciências): jardineiro, eletricista, escritor, motorista de autocarro, bartender, dramaturgo, assistente técnico de telecomputadores, maquinista, telefonista, cozinheiro, copista, datilógrafo (durante uma semana), construtor, jornalista, massagista, professor de geografia, torneiro mecânico.

Parentes do Lourenço: noiva, pai, primo, prima, irmão, mãe, tia, avô, avó, sobrinha, sogra, nora, genro, sogro, irmã, cunhado, tio.

Epítetos do Lourenço (lista à parte): zangado, leitor, fofoqueiro, bandido, zarolho, fornicador, imprudente, letrista, poeta-brigão, malvado, desgostoso, tagarela, sorumbático, irrisório, sarcástico, desolado, ferido, ambulante, mesquinho, trambiqueiro, traquinas, aflito, desamparado, prevenido, trocista.

— P. R. Cunha