devaneios da própria máquina de escrever (episódio #40)

ela colocou a chávena de café sobre a mesa. respirou fundo. ajeitou-se no sofá & disse: bom…, a imagem que ainda me arranca lágrimas, você quer saber, a imagem que ainda parte o meu coração em pedacinhos é o david a sair de casa com o nosso filho no colo, a abrir a porta do carro para levá-lo até à escola. eu aguardo na calçada, naquele modo «estou-ali-mas-não-estou-ali». com todo o cuidado do mundo o david aperta o nosso filho na cadeirinha vermelha que minha mãe nos dera de natal. ele fecha a porta do carro & olha na minha direção: sorri da forma mais encantadora que se possa imaginar, um sorriso simples, mágico. & eu continuo parada na calçada, sem mover-me um centímetro. certa de que não amava mais o david.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #29)

julián benítez distraíra-se à cafeteria da firma. o céu azulado de uma noite chuvosa misturava-se com o branco da lâmpada fluorescente tubular dando ao recinto um aspecto ligeiramente mais otimista do que um necrotério. quando olhou para o relógio digital, que por superstição ele usava no punho direito, julián benítez sussurrou para si mesmo: droga! daí correu para a própria mesa com divisórias sob medida (um metro & sessenta de largura, um de profundidade, quinze centímetros de altura, cor: bege), pegou a maleta & a chave do fiat que estava jogada ao lado de um livro sobre análise de sistemas. ao caminhar até ao elevador, os sapatos de julián benítez pressionavam a tapeçaria do corredor da firma & faziam um barulho de desenho animado. entrou no automóvel. respirou fundo. deu a partida. não ligou o rádio. durante o trajeto, algumas perguntas que muitos rotulariam como «questionamentos filosóficos» inquietaram o silêncio de julián benítez: qual o propósito do trabalho?, por que as pessoas decidem se casar?, por que se separam? por que elas viajam a lugares estranhos?, por que usamos as roupas que usamos? ele estacionou o fiat na vaga 605 do prédio & acenou com a cabeça ao reconhecer o porteiro do turno da noite. o porteiro bocejou dentro da cabine de vidro enquanto levantava a mão para retribuir o aceno. julián benítez abriu a porta do apartamento sem fazer barulho. tirou os sapatos & colocou-os perto do sofá da sala. na cozinha, bebeu um copo d’água & lavou o resto de louça que estava na pia. antes de ir tomar banho, passou pelo quarto do bebê. o bebê dormia com a barriguinha para cima, as mãozinhas praticamente coladas nas grades do berço. julián benítez ficou a observar o sobe-&-desce da barriguinha do bebê. até que a barriguinha do bebê parou de subir-&-descer. julián benítez esperou que a barriguinha se movesse novamente, mas a barriguinha não se movia, ele se aproximou do berço. a barriguinha ainda não se movia. ele se inclinou de forma abrupta. quando estava prestes a segurar a cabeça do filho, o bebê fez um ruído de bebê & a barriguinha voltou ao sobe-&-desce. julián benítez cambaleou-se até à suíte do casal. abriu a torneira. molhou o rosto. sentia vontade de chorar.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #20)

I. era uma vez uma família.
II. essa família morava numa selva, mas não numa selva qualquer.
III. a selva tinha muitos animais, bípedes.
IV. as árvores eram feitas de pedra, de tijolo, de aço, de vidro.
V. a selva em questão, você já deve ter adivinhado, é uma cidade.
VI. na cidade as pessoas tendem a deixar as outras pessoas em paz.
VII. mesmo que essas pessoas se conheçam.
VIII. deixam as outras pessoas em paz & esperam que elas também sejam deixadas em paz.
IX. então, era uma vez esta família.
X. pai, mãe, dois filhos.
XI. os pais quase se separaram no ano passado.
XII. os pais às vezes não se separam porque pensam nos filhos.
XIII. um dos filhos é inteligente.
XIV. o outro filho, bem, o outro filho não é assim tão inteligente.
XV. os pais sabem direitinho que um filho é inteligente e que o outro filho não é assim tão inteligente.
XVI. desde cedo os filhos são preparados para exercerem atividades de acordo com a própria capacidade intelectual.
XVII. por algum motivo, o filho menos inteligente parece mais feliz do que o filho mais inteligente.
XVIII. por dentro ou por fora, é sempre outro jazz.
XIX. apesar dos comentários, nenhum dos dois filhos está a passar por conflitos psicológicos nem nada.
XX. vivem a vida de filhos enquanto os pais vivem a vida de pais.
XXI. nenhum dos dois — nem o filho inteligente, nem o filho menos inteligente — terá neuroses por conta das brigas dos pais.
XXII. a tentativa de suicídio da mãe depois que o pai ameaçou: vou-me embora, quero o divórcio, não deixará marcas no caráter dos filhos.
XXIII. o pai agora costuma voltar do trabalho com odores alcoólicos.
XXIV. a mãe tentou atrair a atenção de um amigo do pai, como forma de vingança.
XXV. o pai jamais suspeitara.
XXVI. um dos filhos, não se sabe qual, já vira o pai com a amiga da mãe, mas pode ser coisa da cabeça dele.
XXVII. esse tipo de situação, sabemos, ocorre em qualquer família moderna.
XXVIII. certo dia pai-&-mãe precisaram de algo muito pesado.
XXIX. & como era feriado, decidiram escolher um dos filhos para sair & buscar a coisa pesada.
XXX. não queriam estragar as mãos do filho inteligente, de forma que escolheram o filho menos inteligente para ir buscar a coisa pesada.
XXXI. disseram: filho, vai buscar a coisa pesada lá fora na selva.
XXXII. o filho menos inteligente saiu para a selva, foi buscar a coisa pesada.
XXXIII. quando estava no bosque, ou seja, nas ruas, o filho menos inteligente pensou com os próprios botões:
XXXIV. que diabos!, como vou saber onde fica a coisa pesada?
XXXV. os pais não deram nenhum endereço.
XXXVI. o filho menos inteligente decidira então caminhar a esmo.
XXXVII. as pessoas da selva fitavam o filho menos inteligente & diziam coisas que as pessoas da selva costumam dizer:
XXXVIII. idiota, olha por onde anda, imbecil, babaca, escroto.
XXXIX. o filho menos inteligente respondia que tinha uma tarefa importante a cumprir, que precisava de buscar algo muito pesado para os pais.
XL. os pais começaram a olhar para o relógio.
XLI. havia muita fumaça lá fora na selva.
XLII. o filho menos inteligente tossia & tossia & ainda não fazia a ideia de onde estava a coisa pesada.
XLIII. as pessoas na selva se metem em toda a sorte de dificuldades.
XLIV. um velho apareceu e disse: eu sei onde está a coisa pesada que você tanto procura.
XLV. o filho menos inteligente ficou esperando a resposta do velho.
XLVI. o velho parecia um pouco atabalhoado, não batia bem da cabeça.
XLVII. vai por ali, o velho apontou aleatoriamente.
XLVIII. o filho menos inteligente agradecera & foi por ali.
XLIX. quando chegou ali percebeu que não havia nada, nenhuma coisa pesada.
L. por vezes chegamos ali & não há nada, nem coisa leve, nem coisa pesada.
LI. o contato com o vazio é perturbador.
LII. o filho menos inteligente por ser menos inteligente não conseguia perceber nada da situação.
LIII. os pais estavam muito aborrecidos com aquela demora toda.
LIV. o filho menos inteligente parecia perdido.
LV. começava a escurecer.
LVI. as árvores de pedra da selva oferecem um aspecto frio, taciturno.
LVII. o filho menos inteligente pensa seriamente em desistir.
LVIII. até que de facto desiste.
LIX. voltou para casa.
LX. abriu a porta, era de madrugada, ninguém o esperava, todos dormiam.
LXI. no dia seguinte, durante o pequeno-almoço, os pais disseram:
LXII. deveríamos ter enviado o filho inteligente para buscar a nossa coisa pesada, enviamos o filho menos inteligente, estamos arrependidos, mas agora não há nada a fazer.
LXIII. o filho menos inteligente segurou a faca com firmeza, apontou-a na direção do pai.
LXIV. & com palavras muito sofisticadas, parecia até um príncipe, pediu para que o pai lhe passasse a geleia de damasco.

— p. r. cunha

Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha