Quarta nota #1 — hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do fantasmagórico

§ Escrever porque não se deve nada a ninguém — em caso de erro (conceito vago quando ficções), admitir o fracasso, procurar novos caminhos etc.

§ Houve um assassinato na floresta. Os dois maiores suspeitos do crime eram o Coelho e o Besouro. A família, os amigos e o advogado do Coelho, obviamente, defendiam o Coelho; enquanto a família, os amigos e o advogado do Besouro, naturalmente, defendiam o Besouro. No tribunal, a juíza Borboleta não conseguira controlar tamanha gritaria — na qual nenhum dos lados ouvia o outro. [As relações animais são tumultuosas em vários aspectos.]

§ Escritores, peritos no controle da mente. E fábulas dizem muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo ao «brincar» com a simbologia coletiva.

§ Vinte partidas contra o computador (Rating: 1300), com onze vitórias para a máquina, oito vitórias para o homem — id est eu —, e um stalemate/impasse/empate. O xadrez ainda me ensina o que fazer quando não há mais nada a ser feito.

§ As livrarias brasileiras estão a fechar as portas exponencialmente e não vejo administradores públicos muito preocupados com isso. Viver no Brasil em 2018 — um pesadelo de olhos abertos (o mau-olhado daquele olho do mal).

§ «Prazer em jogar com o macabro e o terrificante», diria o Calvino.

§ Aquecimento global, florestas devastadas, oceanos apodrecendo, fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia, androides/humanoides, inteligências artificiais, machine learning, reengenharia da vida… — tantos desafios ardilosos e ainda vemos por aí primatas a matar os outros por causa da cor e do número de uma camiseta. 

— P. R. Cunha

E se a Mamã e o Papá reprovarem os meus escritos — café com Friedrich Nietzsche

No aforismo nº 192 de Humano, demasiado humano Nietzsche defende que o melhor autor é aquele que tem vergonha de se tornar escritor. Ou mesmo aquele que só o diz em última instância, quando não resta nada a dizer sobre si. Assim, bom narrador seria um indivíduo que transmite-se com segurança e coerência nos atos/pensamentos dos personagens. Longe de ser postura covarde, é bem um sinal de respeito aos leitores. O escritor está simplesmente a mostrar que o que ele escreve é muito mais importante do que aquilo que ele faz quando não está a escrever. 

Raramente se tem tanto interesse pela vida de um advogado, ou de um médico, ou de um engenheiro — apenas contamos com os seus serviços, pagamos, e seguimos adiante. Mas com os escritores parece haver fetiche incontrolável: perguntam como, por que, quando, onde. E alguns voyeurs estão sempre a confundir ficção com opinião. 

Um escritor com medo não cria bons antagonistas, pois, como se diz, pisa sempre em ovos. Teme a opinião pública, não confia no discernimento dos leitores — o que vão achar de mim?, etc. De aí lermos os melhores vilões através das penas de escritores que nunca (ou quase nunca) deram a mínima para o que os outros achavam das próprias narrativas (estou a pensar majoritariamente em Melville, Stendhal, Beckett, Pynchon, Ionesco, Pirandello, Sciascia, Krúdy, Pinter, Bernhard). 

Em suma, escritor que se senta à escrivaninha e começa a matutar «será que mamã aprovaria o que estou a escrever» já se perdera antes mesmo da primeira palavrinha. Ler um escritor como se ele mesmo fosse um material de ficção. Ou, como também defendia o Nietzsche, tratar o escritor como um mero porta-voz de acontecimentos, sejam eles verdadeiros ou imaginativos.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte II) – livro do caos / viagens

Escrever livro é como se preparar para uma longa viagem a um país estrangeiro sobre o qual pouco sabemos — porque, em verdade, busca-se apenas conhecer algo mais de si mesmo. A jornada é um pretexto. Quando o Escritor não está a trabalhar em algum manuscrito, sente-se prostrado, observa a lenta aproximação do vazio, mostra-se incapaz de se concentrar em algum propósito. Precisa de traduzir esse estado melancólico em alguma nova forma de escrita, fugir do momento-Roland-Barthes, aquele instante em que tudo parece terminado, o mundo silencioso em que dorme um sono leve, o Escritor.

Dissidência em relação ao Brasil, aos amigos, à realidade.

A morte é algo que acontece alhures, até acontecer consigo, dentro da própria casa. A morte, como toda a gente sabe, não pede licença. A morte não bate à porta, prefere arrombá-la. A morte é uma estrela enorme, pesada, supergigante. A morte não se deixa ver, tocar, ouvir, nem respirar. A morte tem algo de invisível. A morte acaba.

É sobre as próprias ansiedades que o Escritor está a falar, sobre a ansiedade moderna, ansiedade de todos nós, pois não. 

Escrever serve, portanto, para resgatar. O Escritor constrói outros universos porque luta contra a própria finitude, pretende afastar-se desse fim. É um cabo de guerra do qual sabe não poder sair vencedor, mas esforça-se para adiar a derrota. Que pelo menos o depois da escrita seja diferente do antes da escrita etcétera.

E o que ocorre quando a garantia de segurança é retirada do menino, a garantia do «tudo está sob controle»? Quando os fatos reais começam a demonstrar que as regalias infantis foram apenas miragens, ilusões passageiras? Quando um acidente automobilístico destrói todas as pretensões de grandeza do menino? A existência não é mais um lugar confortável.

Disponibilidade para as catástrofes, uma vida boa que nunca chega.

Escritor aparentemente (só aparentemente) fazendo-se de bobo.

— P. R. Cunha

Por um sábado sem benzina no Brasil (voltar a escrever [quase] todos os dias)

Parque — ao som das gaivotas.

Podem estar à vontade, meus fidalgos. Um vosso humilde servidor com ar cortês e gentil, olhando pela janela, diz que cá neste electro-sítio há quanto se quer. Noutros termos: julgo-me feliz, senhoras & senhoras. O João Maurício Brás falara sem receio que quando um escritor se torna muito estudado — até que ponto devemos/podemos confundir vida-e-obra, ficção-e-realidade, o que-é-o-quê? — deixa com frequência de ser vivido. A análise, portanto, possui algo de esquartejamento e artificialismo. Se simplesmente escrevemos que determinado personagem encontra-se num café e leva a chávena aos lábios, poucos perguntariam se esse personagem seria ou não o próprio autor. Ato corriqueiro: ir ao café, tomar o café, etcétera. Mas daí acrescentamos que sentimentos de amor fazem com que o personagem leve a chávena aos lábios, ele está à espera de alguém, e, como se sabe, para um enamorado toda a demora é um sacrifício. N’um abrir e fechar de olhos, fantasia se transforma em biografia: ora!, quem o autor está a esperar?, que amor é esse que o aflige? Digo-vos que a viagem é de longe, e com boa fome tudo sabe bem. Mas os fidalgos muitas vezes se enganam. Acontece de a caneta-livre ser o maior tesouro que um romancista pode possuir, quando é rijo o braço e esforçado o coração. A tinta, porém, também falha. De forma que — não raro sem saber — observamos as linhas do escritor dançarem sobre o pedaço de papel a pedir perdão, se a mágoa e a vida o tornaram um bocadinho injusto. Ele não fez por mal.

— P. R. Cunha

«Nova antologia de contos brasilienses», duas breves narrativas de P. R. Cunha

W3 Sul

Um fotógrafo brasiliense que durante mais de trinta anos batalhou pela vida, como se diz, fotografando acidentes automobilísticos foi atropelado por um ônibus na avenida W3 Sul. Para não perder a lucrativa oportunidade, o fotógrafo, ainda gemendo de dores, tirou do bolso da calça o próprio telemóvel e apontara a câmera para si. Ao que parece, o Correio Braziliense e o Jornal de Brasília pagaram, respectivamente, R$ 45 e R$ 50 pela selfie.

Sem pudores

Três sobreviventes de uma catástrofe aeronáutica viram-se obrigados a consumir a carne de outros passageiros mortos — do contrário teriam morrido à fome. Aquando da chegada do resgate disseram que, de início, enquanto mastigavam a carne humana, precisaram de fazer um esforço descomunal a fim de imaginar o gosto da carne bovina, mas logo aperceberam-se de que não havia muita diferença entre os dois tipos de carne; praticamente o mesmo sabor. Meses depois, durante entrevista a um canal televisivo, os três sobreviventes confessaram sem pudores que, agora, ao consumirem carne bovina, concentravam-se para lembrar do gosto da carne humana.

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