Adjetivos literários

Como todas as atividades que nutrem certo apreço pelas ahm-hamn (limpa-se pigarro invisível da garganta) faculdades encefálicas, a de escritor mostra-se envolvida em brumas de fetichismo e — désolé pour mon français — glamour.

O poeta está a ser retratado pelo fotógrafo. O fotógrafo pede: faça qualquer pose de poeta. O poeta levanta levemente a cabeça, olhos ao infinito, como um marujo que há muito não via terra firme. 

A vestimenta do poeta é alinhada, tons mais escuros à guisa de harmonizar com certas inclinações do espírito.

Já o prosador (romancista, se preferir) geralmente leva um cigarro na boca, faz cara de poucos amigos, finge datilografar uma máquina de escrever, mesmo que nunca se utilize dessa máquina de escrever — trabalha no próprio computador, com o próprio editor de texto etc.

Se for uma fotografia de plano aberto, é capaz de vermos ao fundo uma chávena de café, ou uma caneca de cerveja que vai ao meio, ou, se calhar, ambos.

Noir

A ilustração é análoga quando se trata de uma dama das letras.

A senhorita geralmente possui semblante assustado, de quem entende — e aceita — os azedumes da vida reclusa. O sorriso parece sugerir qualquer desculpa por estar ocupada demais com as exigências literárias.

A dama das letras, não importa a idade, será sempre charmosa, sedutora, inteligente, perspicaz, venenosa, manipuladora, descontraída, de um talento ímpar.

Atributos repletos de nostalgia; peculiaridades que outrora eram levadas em alta conta. Mas, como sabemos, tudo se modifica vertiginosamente.

— P. R. Cunha

3×4 de Susan Sontag

O fato de que tantos discordaram de inúmeros pontos apresentados em On photography (Sobre fotografia, Companhia das Letras [tradução de Rubens Figueiredo]) e ainda assim consideraram essa coletânea de ensaios uma das mais importantes obras do pensamento fotográfico apenas reforça a sagacidade de Susan Sontag.

Vale lembrar que os textos reunidos foram todos publicados durante os anos 1970, época de incertezas e ressacas sociais em que a busca de imagens perfeitas (de si e do mundo) consolidava-se a cada edição de Look, Seventeen, Life, Cosmopolitan etc. Longe de se entregar ao entusiasmo fotográfico em voga, Sontag rebela-se, decide tocar nas feridas, expor a artificialidade contemporânea. Mesmo que tivesse de se apresentar como uma juíza rabugenta e estraga-prazeres.

A verdade é que se o leitor procura odes à fotografia, comentários lenientes sobre o ato fotogênico, Sontag de certeza irá desapontá-lo. A cada tímido elogio a este ou àquele fotógrafo, ela faz chover uma tempestade de críticas que, encaradas com olhos deste novo milênio, demonstram como a escritora novaiorquina estava muito à frente daqueles tempos de muros e guerras frias. Nem os grandes como Cartier-Bresson, Robert Frank e Diane Arbus saem incólumes.

Sontag de diversas maneiras previu a chegada das redes sociais, principalmente a onipresença do Instagram, o fetiche da coleção de experiências — cujo excesso transforma a realidade em meras dicotomias (aquilo que merece ou não ser fotografado/compartilhado). On photography, inclusive, parece vítima dessas sombrias previsões. Em uma sociedade sedenta de imediatismos, novidades, inovações, um livro escrito há quase cinquenta anos é pré-história, irrelevante. 

Grande pena, porque nossos globos oculares teriam muito a ganhar se os atuais acumuladores de imagens percebessem Susan Sontag.

— P. R. Cunha


EPSON scanner image

Jill Krementz fotografa Susan Sontag — novembro de 1974