Arquiteto literário: modos de usar

Vê o caso dos contos. Como nasce uma narrativa breve, curta? (Penso nos contos porque embriões de [quase] todas as formas literárias [como diziam os antigos: o romance é lá um conto cujo final fora constantemente adiado pelo autor].) Então, repito, como nasce um conto? Estás a caminhar num país estrangeiro e escutas qualquer coisa exótica. De aí vêm cenas inusitadas à tua cabeça; trechos, recortes. Se colocas esses fragmentos numa folha de papel terás quem sabe uma promissora antologia de contos. Obviamente, quererás adicionar um ou outro adereço com viés fantasioso — o «gostava que tivesse sido assim». És também um arquiteto quando escreves o conto, percebes? Os parágrafos são as paredes da tua morada. Ainda dentro da analogia arquitetônica: o teu estilo tornar-se-á o paisagismo, a decoração interior. Há casas mais bonitas, outras mais feias. O leitor olha e reconhece. Isto é certinho.

— P. R. Cunha

O tipo que escreve e o tipo que trabalha com aceleradores de partículas: afinidades

Para o Rodrigo dMart

Acho curioso que alguns familiares ainda se surpreendam quando descobrem que escrevo ficção — mesmo depois de oito anos dedicando-me (quase a tempo inteiro) às fazendas literárias. Arregalam os olhos como se de súbito eu me transformasse num alienígena inescrupuloso com ambições apocalípticas. Via de regra, preciso de adotar posturas complacentes (i.e. discreto balançar de cabeça, utilizar termos vagos tais como: sim, sim, compreendo; pois não; percebo; sei bem como é; posso imaginar etcétera) enquanto comentam que toda a gente que conheceram e que porventura mexia com esse troço literário morrera cedo demais — ou suicídio, ou abuso de drogas (alcoolismo, primordialmente), ou solidão —, e que não conseguem imaginar por que cargas de água alguém com bons discernimentos haveria de se dedicar a tarefas (e aqui transcrevo ipsis verbis) «tão absurdas, destrutivas, que não levam a nada», por quê?

À primeira vista, o CERN (anacrônimo de Conseil Européenne pour la Recherche Nucléaire) aparenta ser apenas um gigantesco e entediante túnel circular onde partículas estranhas colidem umas com as outras, sem propósito. Pelo menos é essa a imagem que muitos críticos utilizam quando questionam os apoios financeiros ao maior laboratório de física de partículas do mundo. Um bando de nerds a brincar de videojogo nas profundezas da fronteira Franco-Suíça, gastando dinheiro público com experiências cujo teor nem os próprios humanos que ali trabalham conseguem decifrar. 

Acontece que a ciência de partículas não é uma trilha com caminhos pré-determinados, estáticos. Um experimento leva a outros experimentos por vezes imprevisíveis, uma descoberta leva a novas descobertas. De forma que, ao tentar compreender a intricada origem do universo, os cientistas do CERN estão a desenvolver também incontáveis tecnologias que serão utilizadas em áreas como a computação e a medicina. A World Wide Web, à guisa de exemplo, foi lá inventada; além de diversos dispositivos utilizados para diagnosticar doenças, aperfeiçoamento da implementação do magnetismo, desenvolvimento de técnicas para se praticar engenharias… e não só.

Guardadas as devidas proporções, fazer literatura é como trabalhar no CERN. Lidamos com imprevisibilidades, desafios, com resultados fascinantes capazes de gerar incríveis efeitos colaterais. Tentamos descobrir como as coisas difíceis operam, como responder perguntas intricadas — somos desbravadores. Sim, é verdade, muitos morrem ao meio do caminho, ou perdem os botões, ou terminam sozinhos na cave de um sanatório. Mas os riscos valem a pena quando o que produzimos mostra-se capaz de mudar a vida de tantas pessoas. E é por isso que nos entregamos a tarefas tão absurdas, destrutivas, que (só parecem) não levar a nada.

— P. R. Cunha

Um gosto culto em literatura

Suponhamos que João, autodidacta, tem aquilo a que se chama «um gosto culto em literatura». João admira muitíssimo determinado livro — à laia de exemplo, vamos dizer que o livro é Relatório do interior, do Paul Auster. Quando começa a perceber que tantos outros também admiram um bocado o livro do Paul Auster, João perde o interesse. (Ou quando milhares de pessoas têm gosto parecido, e o sujeito sente-se menos único, menos especial, ele não é mais o transgressor [outsider] que gosta dos livros do Paul Auster, às escondias; ele agora faz parte de um grupo, clã, mar de gente. Tudo é copiado/copiável. O livro chega ao destinatário, destinatário não pensa [reflecte] a respeito do trabalho do autor do livro. Uma abordagem plausível seria: estou a ler a obra de certo autor, de um ser humano que dedicara tempo, anos, esforços para escrevê-la, talvez a empreitada tenha lhe custado uma perna, um casamento [ver também: amigos & familiares negligenciados porque fazendas literárias], valorizo tamanha coragem. Mas não pensa. Lê. Mastiga. Cospe. Até que o conjunto livro-autor é finalmente esquecido numa prateleira ao canto da sala de jantar e a vida meio que continua.)*

— P. R. Cunha


*Isto é claramente uma generalização arbitrária; se és lá um bom leitor (leitor educado, leitor atencioso, leitor-escritor), não te sintas atingido por palavras tão levianas.

Fragmentos de um romance inacabável (parte V) – você nasce sozinho, você morre sozinho

Você nasce sozinho. Você morre sozinho. É basicamente isso. No meio há esse recheio agridoce a que rotulamos «vida», com tipologia gótica. Um estranho no mundo, um exilado na própria família, um inimigo de si mesmo: Escritor.

Há três irmãos, todos criados sob o mesmo teto, como se diz, mesma escola, mesmas viagens, mesma alimentação, mesmas oportunidades. Mas lá atrás, bem no início, se estivermos realmente atentos, perceberemos pequenas perturbações, ruídos ínfimos, comportamentos imprevisíveis; um mínimo distúrbio, o suficiente para gerar tempestades enquanto todos esperavam um belo dia soalheiro. Há três irmãos, os mesmos pais — e, no entanto, tão diferentes, tão incompatíveis, tão parecidos.

Comportamentos extremamente irregulares, às vezes ódio, às vezes amor, noutras um desprendimento glaciar. Não importava quão próximos e similares eram esses irmãos, uma mínima diferença, um pequeno acidente de percurso, e um deles (ou todos eles) a sair para um caminho distinto, totalmente inesperado. De aí, qualquer tipo de predição tornar-se-á impossível. A sorte, ao que parece, está lançada.

Dúvida de Poincaré: quais são os comportamentos possíveis de um sistema de três corpos que interagem entre si através de uma força gravitacional?

Acha-se o leitor diante de uma multiplicidade de acontecimentos individuais, microcosmos narrativos, se preferir, cenas que por vezes são ou desprovidas de ligações claras, ou vinculadas por relações imaginárias muito instáveis. Está a construir o edifício com o Escritor, sente que participa ativamente do processo da leitura, sente que está a ser desafiado, nunca lera nada parecido etcétera.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte IV) – exilado de si mesmo

Agora você tem ataques de ansiedade, você tem pesadelos. O medo de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, intranquilidade, senso/certeza da própria finitude, desesperança, falta de propósito, incapacidade de desfrutar aquilo que antes lhe dava um bocado de prazer, resignação: tudo acaba, tudo está a acabar, não há mais volta. Ir ao cinema é um tormento, ler as notícias é um tormento, observar as pessoas levando-se à vida é um tormento, acordar todos os dias e perguntar-se: por quê? São esses os tipos de ameaças & incertezas & dores.

Quando não perguntam ao Escritor sobre a morte, ele sabe o que a morte é. Quando lhe perguntam…, já não sabe mais.

Qual, afinal, a natureza deste mundo em que vivo, indaga-se o Escritor, no que acredito, no que deixei de acreditar nesses últimos anos? Livrar-me da televisão, livrar-me do telemóvel, escutar mais Peter Broderick & Machinefabriek (Session III [Angelige Noatern]), ir ao parque (fins de semana), reler Gonçalo M. Tavares, parar de imitar o Enrique Vila-Matas — encontrar a própria voz? — Todo um vocabulário diferente.

Escritor independente de grupos ou escolas, Escritor difícil de classificar, Escritor amante de música, desde sempre leitor voraz, Escritor interessado por canetas, papéis, mesas, Escritor perdido entre aqueles que se encontra, que se entendem, todos parecem se entender, e o Escritor, não, o Escritor não entende.

Escritor de espaços vazios.

Fosse tocando bateria, desenhando figuras abstratas numa folha de papel 160 g/m² (210mm x 297mm) textura de favo de mel ideal para grafite, carvão, etcétera, devorando Melville, Oswald de Andrade, Foster Wallace em leituras alucinadas, fosse como fosse, fazia tudo com a obsessão cega e urgente de uma criança. 

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte III) – hipermodernismos

A vida começa então a acontecer quando o Escritor se compromete a escrever o livro. Ele se torna um aspirador de ideias. E a própria vida é nada mais do que um repositório de situações as quais o Escritor deve remanejar para colocá-las no romance. Quando o Escritor está escrevendo, ele está a viver. Ele quer que o livro dure para a vida inteira. É o seu propósito.

Em criança o Escritor debruçava-se sobre a janela do quarto dos pais e observava um andarilho que sempre fazia caminhadas depois do almoço. A certeza daqueles passeios acalmava o coração do jovem Escritor. Uma rotina estabelecida: almoçar, quarto dos pais, janela, caminhadas do andarilho. Mas um dia o andarilho não apareceu, o andarilho foi descansar, explica a mãe ao menino, o andarilho está morto. Receio de mudanças e assim por diante.

As tragédias do presente abastecem os temores do amanhã. Conviver com a imprevisibilidade. Antes, controlava-se tudo; hoje — nada se controla. Admissão de impotência: eu, diz o Escritor consigo mesmo, eu nunca poderei saber o suficiente para ser capaz de prever o que quer que seja, muito menos controlar o que quer que seja. Passageiro, és um reles passageiro de um comboio que vai descarrilhar a qualquer momento. Ver hipermodernismos. 

A necessidade, porém, do Escritor de se ter uma previsão a respeito do futuro, profundo desejo de controlar, ou melhor, domesticar esse futuro. E grande relutância: não, não aceito os altos níveis de imprevisibilidade, não foi assim que fui criado etcétera.

Mas antes ele tem de saber se o leitor o quer. E quando olhamos com maior atenção, damo-nos conta que o Escritor segura um copinho de uísque na mão esquerda.

— P. R. Cunha