Em Brasília pode-se ficar morto por muito tempo — parte III

Tenciona-lhe deitar-se cedo

Então estou parado diante da placa setenta centímetros de largura por quinze centímetros de altura na qual foram gravados em tipologia serifada nome, data de nascimento e dia da morte do meu pai. Fora um ou outro adereço — fotografias desgastadas pelas intempéries do tempo, um santo de argila decapitado, buquês de flores apodrecendo —, as pedras de todas as sepulturas vizinhas são idênticas. Filas e filas de mármores retangulares que me lembraram as maquetas de antigas cidades soviéticas que vi expostas em alguns museus quando estudei em São Petersburgo.

Sou tomado por uma incontrolável compaixão perante estas réplicas monótonas e penso no que disse Kaspar Hauser: tenho vergonha de tudo o que se repete. Se os valores da sociedade moderna buscam a padronização de nossas ações e de nossos interesses, eis aqui os mesmos princípios adaptados ao modo como lidamos com a memória daqueles com quem não podemos mais contar.

As promessas de liberdade, de plenitude, de sermos indivíduos únicos e heróicos não passam de parvoíces retóricas. Vive-se em constante perigo, a felicidade é passageira, as entranhas econômicas exigem que pensemos da mesma forma. A única maneira de se proteger é no isolamento, recolher-se aos abrigos. Os raios solares querem lhe matar, os asteroides querem lhe matar, os gases poluidores querem lhe matar, os animais selvagens querem lhe matar, os seres humanos querem lhe matar e daí vivermos em caixas desde sempre. Em criança, somos empacotados pela mãe, a casa é uma caixa, a escola, o trabalho, a sala de cinema, tudo caixa, o automóvel, o restaurante — caixas. Sabemos que sem elas estaríamos absolutamente perdidos, apesar de algumas vezes nos sentirmos incomodados com a claustrofobia, mas é o preço que se paga pelo tumultuoso passeio da vida. Até que o ciclo se fecha e nos colocam finalmente na derradeira caixa, como aconteceu com papai, como aconteceu, e ainda acontecerá, com tantos outros, como vai acontecer comigo. 

O corpo do meu pai agora se decompõe, tem a companhia de milhares de falecidos que enquanto vivos também procuraram se diferenciar, achavam-se especiais, também acreditaram que aquilo que acontecia ao redor deles lhes dizia respeito, mas a morte não dá a mínima para essas coisas.   

* * *

Durante boa parte da vida o meu pai guardara consigo apenas um retrato. Era, em verdade, um velho cartão-postal desgastado com uma imagem produzida pelo fotógrafo amador William Mumler.

Li numa brochura especializada em figuras paranormais que, na segunda metade do século dezenove, Mumler ganhara certa notoriedade nos Estados Unidos por supostamente conseguir captar espíritos de conterrâneos mortos. Diz a brochura que bastava ir ao estúdio do sr. Mumler no centro de Boston, Massachusetts, você então descrevia o parente falecido, o fotógrafo manuseava a «câmera mediúnica» e depois aguardava-se com ansiedade que alma do além esvoaçasse nas revelações fotográficas. O facto de ter sido julgado, hostilizado e condenado por fraude não prejudicou a fortuna póstuma de Mumler, que se tornaria referência entre os chamados «adeptos do sobrenatural» — e tudo isso só demonstra como o distanciamento cronológico é capaz de absolver qualquer vileza.

O postal que papai mantinha numa gaveta perto da cama mostra um senhor com vastas costeletas, talvez um chefe de família que perdera a filha num acidente rural, ou quem sabe um marido amoroso cuja esposa fora vencida pela tuberculose. O queixo do homem está encostado no nó da gravata, parece dormir, ou em transe, como se obedecesse às ordens de Mumler para ter paciência, pois não se trata de procedimento simples, este de capturar os mortos.

Mumler signature

Às costas do triste sujeito surge uma figura feminina diáfana; a dama encara de forma despreocupada o obturador e, com as mãos como que flutuando nos ombros do fotografado, tenta consolar o vivente que de certo sofre das dores da saudade. Atrás do cartão já bastante carcomido ficamos a saber o nome do angustiado: Bronson Murray with female spirit (ca. 1862-75) by William Mumler.

Como este estranho postal veio parar no Brasil e se meu pai tinha secretas predisposições místicas são perguntas que não tenho condição de responder; porém, notava-se que papai sentia um genuíno pavor de ser fotografado e que sempre preferiu as linhas do diário quando acreditava necessário registrar as próprias reminiscências.

Fotografia e escrita, portanto, como procedimentos de lembranças fantasmagóricas. Seria mesmo supérfluo mencionar a quantidade de artigos acadêmicos e publicações de caráter crítico-literário que apresentam dados comparativos a investigar qual das duas técnicas, se imagem ou prosa, teve, tem, terá maior sucesso no resgate da memória.

Sabemos que na falta de um imperativo canalizador para, como se diz, transformar em verbo os resquícios da experiência, recorre-se muitas vezes às possibilidades da fotografia. E se um observa os pontos turísticos das grandes metrópoles amontoados de estrangeiros com câmeras de telemóveis apontadas para este ou aquele monumento (ou até para si mesmos), chega-se facilmente à conclusão de que a conveniência imagética vencera a batalha no campo de nossas contínuas tentativas de arquivar cada detalhe deste planeta e dos seres que o habitam.

Por outro lado, uma das defesas dos prosadores, digamos, ortodoxos consiste em descrever nostalgicamente o tempo em que ainda era possível apreciar o tipo contemplativo à escrivaninha — ele toma notas a respeito das minúcias de determinada expedição cujos caminhos não só o levaram aos confins geográficos de algum território desconhecido como também apaziguaram os seus demônios em busca de alívios. Vai, explora, volta, conta o que viu. O fidalgo à procura de si mesmo e que não se esquecera de caprichar nos recursos estilísticos da própria narrativa, já a pensar nos potenciais leitores que de bom-grado poderiam se inclinar sobre o texto deste excêntrico aventureiro.

Em última análise, se, como nos advertem determinadas vertentes da sociologia moderna, o excesso de imagens que hoje tornou-se regra favorece não o ritual sistemático de recordações, mas o esquecimento coletivo, é crucial então refletir sobre o papel dos escritores numa cultura que parece cada vez mais indiferente aos cuidados da memorabilia por escrito. Refletir se haverá espaço, ou melhor, incentivo para a sobrevivência desse espécime introspectivo que pretende fazer-se compreender pela literatura — essa teimosa forma de expressão que, e isso sabemos bem, não se entrega facilmente.

William Mumler

— P. R. Cunha

Caderno de viagem: os fantasmas fugiram de Sintra

Estou no Holiday Inn Lisbon (Continental) a anotar em um papel de carta do hotel os lugares aos quais pretendo ir nos próximos dias e escrevo ao lado de Sintra a palavra INDISPENSÁVEL, caixa alta. Uma brochura mostra o Castelo dos Mouros num dos cumes da serra que abraça a região e fico a pensar nas noites de insônia da minha infância, quando remexia-me sob as cobertas por causa da leitura prematura de Drácula, do Bram Stoker. Trata-se de um castelo imponente ao estilo Game of Thrones e se esperássemos o bastante quem sabe não conseguiríamos observar a sair pelos portões da fortaleza um dândi audacioso e melífluo com golas altas, asas de morcego, dentes avantajados, sobrevoando em meio à neblina com objetivos nefastos.

Então disseram-me que para conhecer melhor Sintra é conversar (e lá ir) com quem melhor conhece Sintra. Tomei meu pequeno-almoço e às oito da manhã encontrei-me com o sr. Jorge, que prometera levar-me ao fantasmagórico distrito de Lisboa.

Coisas estranhas costumam acontecer no alto da serra, disse-me o sr. Jorge enquanto abria a porta do Renault Espace. 

São os fantasmas, ele acrescentara.

Do Holiday Inn até Sintra são 26.4 km — aproximadamente meia hora de viagem com aquilo a que o Google Maps chama de «the usual traffic». Sr. Jorge fez o trajeto em menos de vinte minutos. Não vás fazer xixi nas calças quando lá chegarmos, ele brincou com aquele ar sério e compenetrado que nossos tios bonachões costumam ter enquanto fazem troça.

À medida que o Renault aproximava-se de Sintra o tempo começara a mudar imenso. Em Lisboa o céu era daquele azul clarinho ao qual podemos assistir em Il Decameron, do Pier Paolo Pasolini com a banda sonora do Morricone ao fundo. Às portas da vila, no entanto… nuvens pesadas, neblina, geada. Sintra era outra coisa.

Sintra tem um microclima muito específico, imprevisível, dissera o sr. Jorge.

Se estou num país estrangeiro costumo fazer constantemente um exercício de autocontrole para não me decepcionar. Adoto a postura mais neutra possível: se por um acaso falam que determinado sítio é magnífico, fico já com a pulga atrás da orelha, como se diz, e preparo-me para visitar um sítio legalzinho. Não obstante, se explicam que determinada cidade é terrível, que ali não há nada, vou até lá com o coração aberto, pronto para ser surpreendido positivamente.

Noutros termos, sou uma embarcação de expectativas que vai para-lá-e-para-cá ao sabor dos comentários nativos, a aguardar o juízo final, isto é: pisar no sítio eu mesmo, tirar as minhas próprias conclusões, etcétera.

À moda Lisboa, Sintra — cujo brasão com lua crescente e estrela revela logo as raízes árabes — também possui prédios coloridos a contrastar com telhados cor de laranja, ruas simpáticas com um leve cheiro a açúcar queimado que dão a um pequeno nenhures. Geográfica e arquitetonicamente é sem dúvida um sítio muito promissor àqueles que pretendem vagar de maneira despretensiosa durante o resto dos tempos depois de, como diria Eugénio de Andrade, bater as botas.

No entanto, quando se lá chega sente-se alguma pitada de desilusão. Sintra é a clara evidência do turismo moderno, do texto publicitário construído para atrair gentes de toda a parte, das fotografias livres do excesso humano, livres do barulho das canções techno-pop, da balbúrdia dos telemóveis, dos gritos (em espanhol, italiano, inglês, mandarim, russo e contando) dos transeuntes desesperados à procura da casa de banho.

Parecia-me que Sintra não estava a sair-se muito bem com as almas penadas. Comentei com o sr. Jorge que conseguia imaginar um passado fantasmagórico à vila, mas que do jeito que as coisas estavam agora (sete de dezembro de dois mil e dezoito), não podia sequer considerar um brevíssimo rendez-vous sobrenatural. Os fantasmas, sabemos, não gostam de multidões com câmeras a fazer cliques a cada dois passinhos. Os fantasmas preferem o vazio, pensei, são seres minimalistas.

Se havia mesmo uma população fantasmagórica aqui, insisti eu ao sr. Jorge, receio que há tempos já tenha corrido algures, com muito medo dos animais humanos.

Agora estou sentado à mesa da padaria Piriquita deliciando-me com um travesseiro de Sintra — iguaria a respeito da qual pretendo escrever noutra ocasião. Atrás de mim, um miúdo italiano chora à mamã porque o irmãozinho pegara-lhe a bola com a silhueta do Cristiano Ronaldo estampada; à direita, uma espanhola arrisca-se no portuñol a pedir água fresca com gás; à esquerda, uma croata mostra-se completamente perdida. Chove a cântaros. Um altifalante estridente toca canções natalinas interpretadas por Bing Crosby, Dean Martin, Fred Astaire.

E a impressão é que cheguei à vila de Sintra tarde demais.

— P. R. Cunha