O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.