devaneios da própria máquina de escrever (episódio #17)

então que de muitas formas escrever é como cozinhar. você sente fome, quer preparar para si algum alimento, você ainda não tem tanta certeza do que quer comer. você vai até à dispensa & escolhe os ingredientes. pode ser que você não possua muita experiência & acaba que o prato não sai do jeito que esperava. falta um pouco de sal? ficou muito mole? passou do ponto? acontece de ser uma comida que você gosta imenso. daí não quer desistir, sabe? você volta, tenta de novo, vários dias, & começa a notar que a coisa ganha certa desenvoltura. acertara na quantidade de sal, muito boa apresentação — a consistência, bem, a consistência ainda deixa a desejar, mas você está no caminho certo. outras pessoas também começam a dizer: nossa, isto aqui, hein, está gostoso pacas… & você, um pouco encabulado, agradece: oh!, que nada, é só um prato. & você continua a empreitada: erra-acerta-acerta-erra-erra-acerta. quando você menos espera, chega a altura em que começa a improvisar. sim. aprendera a receita, pelo menos o suficiente para se sentir confiante & modificar & acrescentar outros ingredientes, dar o próprio estilo ao prato. certa tarde, supomos que seja quinta-feira, faz um calor dos diabos, & você escuta duas/três batidinhas na porta. você abre. é a sua avó que mora para o litoral, estava caminhando por perto, decidira visitá-lo, pois é bem isso que as avós fazem, não é mesmo? por sorte, quis o destino que você estivesse justamente a incrementar o seu prato, sabe, uma dessas agradáveis coincidências. a avó experimenta, faz uhmnnn!, isto é bom, muito bom mesmo, & ainda garante que foi uma das comidas mais saborosas que ela já comera na vida, & olha que ela já comera um monte de coisa na vida. &tc. &tc. &tc.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #6)

imaginem um objeto de metal, retangular, vinte & oito centímetros de largura, trinta de profundidade. altura: oito centímetros. é verde, possui teclas com letras, números & outros símbolos próprios para a construção de textos. 

é a minha olivetti lettera.

conta a narrativa desta família que os pais do meu pai conheceram-se em niterói no início do século vinte, ocasionalmente, enquanto meu avô tentava manobrar a própria charrete & minha avó voltava de uma quitanda. já os pais da minha mãe apaixonaram-se na cidade do rio de janeiro depois de muitas investidas do meu avô, que trabalhava aos correios & anotava bilhetinhos secretos para a minha avó, na altura uma estudante de direito.

charrete, quitanda, carteiro, bilhetinhos românticos de papel: termos que de certeza denotam nostalgia. & o faço de propósito. 

obviamente que todas as odes ao passado possuem manchas estranhas: desigualdades sociais, despreparo para um escopo enorme de doenças, guerras, nepotismos, privações & não só.

gostava, no entanto, de focar no critério tecnológico.

as pessoas tinham essa vida desplugada, sem wi-fi, iam de charrete para todos os sítios, & ainda assim se apaixonavam, & trabalhavam, & sobreviviam. davam conta.

ontem observei com atenção um pai que tirava o telemóvel das mãos do miúdo, & quase tiveram de chamar o serviço social (ou o exército) para conter tamanho berreiro. exageros à parte: o choro do menino parecia uma sirene anunciando ataques nucleares. 

mas era só um telemóvel.

reflito aqui diante da minha olivetti se não estaríamos nos tornando o grupo de humanos mais mimado que já pisara neste planeta. 

sair de casa é para alguns um estorvo incontrolável. não se pode mais entrar numa cafeteria & pedir qualquer coisa sem os ruídos de fundo: «aqui tem wi-fi?; ei, moça/moço, a internet está lenta!; esta cadeira é tão desconfortável, a da minha casa é bem melhor, sabes». 

& mesmo quando tudo funciona direitinho, quando as mensagens do whatsapp percorrem distâncias inimagináveis quase à velocidade da luz, mesmo assim ainda conseguem encontrar defeitos — ou a operadora é gananciosa demais, ou a bateria do telemóvel descarregou (um absurdo ela durar apenas 12h!, sem fio, sem nada), ou é porque o aparelho esquenta demais, ou a tela touchscreen está engordurada demais, ou a companhia humana é enfadonha demais…

termino esta reflexão com uma imagem. ou melhor, com uma espécie de máquina do tempo. ressuscito o meu avô paterno, trago-o (de charrete!) para este brilhante século das comodidades; deixo que ele passe uma tarde aprazível dentro de um shopping mall — mas antes revisto todos os bolsos do vovô, à procura de objetos que, num momento de total desespero/angústia, possam tentá-lo a colocar termo à própria vida.

— p. r. cunha

Quinta das irmãs gêmeas

As chuvas voltaram, aos poucos as sementeiras de frutos diversos mostram-se novamente em condições apresentáveis, enquanto o marrom da relva desidratada despede-se, já se vê o verde despretensioso da horta, as batatas estão em belo estado, os pomares têm boa desenvoltura, está em meio o apanho do tomate, cuja abundância trouxe aos fazendeiros da região um ânimo inédito. As velhas irmãs gêmeas Soraia e Cândida, porém, passam às bermas desses felizes acontecimentos.

Trancadas na quinta que receberam de herança de um tio distante — tipo sério e ranzinza que só botara os olhos nas gêmeas em duas ocasiões: 1) quando elas vieram ao mundo; 2) poucas horas antes da própria morte levá-lo alhures. Que a quinta ficasse sob a supervisão das sobrinhas sempre foi algo suspeitoso, principalmente porque nenhuma delas jamais possuíra qualquer intimidade com os pormenores da terra. No entanto, quis o destino que as irmãs se mudassem à antiga morada do falecido parente, onde ambas decidiram em comum desacordo passar o resto dos seus dias. 

Elas estão na sala principal da sede da quinta. Soraia abre as janelas que não eram abertas desde a primavera passada, o vento invade o interior do aposento como se, sufocado, desse enfim um longo suspiro de alívio. Cândida oscila na poltrona: rique-reque-rique-reque, é o barulho que faz a poltrona. Soraia passa o paninho molhado sobre os móveis. Cândida boceja e resmunga sem vontade de ser ouvida: velha!, passas a vida toda a limpar os móveis, que obstinação estranha. Soraia escuta, escuta cada palavra, continua a limpar os móveis reluzentes e sem se virar para a poltrona comenta: sabes, Cândida, estive cá a pensar numas coisas… talvez eu compre um trator, um trator enorme, com aquelas rodas gigantescas, desproporcionais, pois é, nem preciso de trator, nunca precisei de trator, mas talvez eu compre mesmo um, quero trator, está decidido. Ao virar-se para avaliar a reação da irmã sentada, Soraia percebe que o rique-reque da poltrona cessara. Cândida, por algum motivo, não balançava mais.

— P. R. Cunha

Os netos estão a passar as férias com a avó

Fabrício e Miguel estão a passar as férias com a avó, Rosana. A avó insiste em dizer que não tem um neto predileto: gosta dos dois, do mesmo tanto. Certa madrugada, Miguel vai até à cozinha porque está com imensa sede. Ao acender a luz ele escuta um barulho que vem da sala — Rosana a fumar um cigarro. «Quem está aí?, é o Fabrício?», diz a voz rouca da avó. Miguel expira resignado: não, vovó, é o Miguel. «Ah…», balbucia Rosana. A senhora deseja alguma coisa da cozinha?, o neto pergunta. «Achei que fosse o Fabrício. Aliás, tinha a certeza de que era o Fabrício», insiste a avó.

— P. R. Cunha

O dia em que a Terra parou (parcialmente)

Ontem os servidores de Facebook e Instagram escangalharam. A pane afetou inúmeras contas em diversos países. Houve quem achasse que o mundo fosse acabar. Bom, pelo menos para aqueles que se agarram com mãos firmes nas bóias das redes sociais, foi uma espécie de ensaio geral do apocalipse.

Ironicamente, a vulnerabilidade dos produtos oferecidos pelo senhor Zuckerberg veio à tona pouco depois de o Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida — ISPA — divulgar dados de uma investigação portuguesa sobre a solitude online. O instituto lisboeta acredita que quem passa muito tempo conectado à Internet se sente mais só.

O sentimento de solidão entre os jovens mantém-se, diz o estudo, mesmo quando o tempo que passam online não interfere (tanto [grifo meu]) com o tempo que passam a falar com amigos fora da Internet, frente a frente. Em causa, o ISPA acrescenta ainda, pode estar a falta de riqueza sensorial das conversas mediadas pelos aplicativos eletrônicos.

Com a inoperância parcial de Facebook e Instagram, muitos tiveram de recorrer aos caracteres do Twitter para compartilhar a própria fúria, o desespero, o tédio, o abandono — a solidão¹. Tinham perdido, mesmo que momentaneamente, as plataformas (os palcos de areia da pós-modernidade, como diria Jean Serroy) para se sentirem conectados. Perderam o norte.

Aqueles que respiraram fundo e preferiram aproveitar o caos para dar uma voltinha algures — e notaram que lá fora é onde tudo realmente acontece —, aqueles que depois de alguns minutos de inquietação perceberam que não é assim tão mal conversar com a vovó sobre «os velhos tempos», brincar com o Rex no jardim, ligar para um conhecido de longa data, marcar um café com o conhecido de longa data, de repente até refletir se é realmente necessário ter tantas redes sociais, aqueles que, por fim, esqueceram-se da coisa toda, esses podem ficar sossegadinhos: conseguirão sobreviver caso a sociedade como a conhecemos seja obrigada a se desconectar da Internet².

Ontem, foram apenas algumas horas de abstinência. Mas o suficiente para perceber que muitos não ficarão assim tão sossegadinhos quando a coisa for realmente séria³.

— P. R. Cunha


¹Os próprios técnicos de Facebook e Instagram tiveram de se pronunciar formalmente no Twitter.

²Penso, «grosso modo», nas erupções solares — que podem destruir satélites, danificar a infraestrutura energética e causar um apagão sem prazo de validade.

³A Bárbara Reis de Público, por exemplo, fartara-se do Facebook e escrevera um Coffee break muito pertinente a respeito. Pode-se lê-lo aqui.

As vozes de uma família que já não existe + contexto da fazenda literária (intimidade[s])

Ao folhear um velho álbum com retratos dos meus familiares, escreve Batista, verifico que muitos foram figuras distintas: médicos, administradores, arquitetos, políticos, advogados. A grande maioria morrera cedo demais, como se diz vulgarmente. Aqueles que pregavam o comedimento, morreram de alcoolismo; os que pediam paciência e prudência, morreram numa autoestrada, excesso de velocidade; aqueles que diziam: não fume, isto vai lhe matar!, morreram de cancro de pulmão porque fumavam quatro maços de cigarro por dia. Em criança, continua Batista, em criança não nos damos conta dessas contradições. Os adultos eram os meus heróis. Acontece que também crescemos, amadurecemos, lemos um bocadinho, e aos poucos a coisa toda começa a nos dar nos nervos, percebemos que aqueles a quem escutávamos com tamanha devoção em busca de ensinamentos eram tão humanos e tão falhados como qualquer outro. Um deles chegou mesmo a cometer o suicídio.


Brasília, 27 de novembro, 8h44

A chuva, a neblina, as nuvens cinzas que vêm ter comigo à janela, insônias, o chuveiro que parou de funcionar. Arrumar a mala, comprar caderninho de anotações para a viagem. Portugal, Lisboa, Aveiro. O cabelo a crescer demasiadamente, a «atmosfera intelectual», artificialidade. O violão sem a corda dó. Ir ao centro. O café literário. O café forte. A soneca vespertina. O pão com manteiga. Os livros. A calma. O desaparecer. À noite.

Processed with RNI Films. Preset 'Fuji FP 100C'

— P. R. Cunha

New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha