Urso introspectivo e poema sobre a origem dos anéis de Saturno

Havia uma vez um Urso Polar que levava consigo uma caixa — dentro da qual guardava tudo o que aprendia no decorrer da longa existência. Em juventude, Urso Polar orgulhoso abria e mostrava a caixa para todos os animais. Entretanto, ao perceber que ninguém além d’ele mesmo se entusiasmava com o conteúdo da caixa, Urso Polar passou a escondê-la cuidadosamente. Isso lhe causava uma sensação de angústia, de distanciamento.

[Veritas]
A lua que ousara um dia
se aproximar do gigante melancólico
desintegrou-se
para oferecer-lhe anéis de pedra —
de gelo.

— P. R. Cunha

Quarta nota #1 — hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do fantasmagórico

§ Escrever porque não se deve nada a ninguém — em caso de erro (conceito vago quando ficções), admitir o fracasso, procurar novos caminhos etc.

§ Houve um assassinato na floresta. Os dois maiores suspeitos do crime eram o Coelho e o Besouro. A família, os amigos e o advogado do Coelho, obviamente, defendiam o Coelho; enquanto a família, os amigos e o advogado do Besouro, naturalmente, defendiam o Besouro. No tribunal, a juíza Borboleta não conseguira controlar tamanha gritaria — na qual nenhum dos lados ouvia o outro. [As relações animais são tumultuosas em vários aspectos.]

§ Escritores, peritos no controle da mente. E fábulas dizem muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo ao «brincar» com a simbologia coletiva.

§ Vinte partidas contra o computador (Rating: 1300), com onze vitórias para a máquina, oito vitórias para o homem — id est eu —, e um stalemate/impasse/empate. O xadrez ainda me ensina o que fazer quando não há mais nada a ser feito.

§ As livrarias brasileiras estão a fechar as portas exponencialmente e não vejo administradores públicos muito preocupados com isso. Viver no Brasil em 2018 — um pesadelo de olhos abertos (o mau-olhado daquele olho do mal).

§ «Prazer em jogar com o macabro e o terrificante», diria o Calvino.

§ Aquecimento global, florestas devastadas, oceanos apodrecendo, fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia, androides/humanoides, inteligências artificiais, machine learning, reengenharia da vida… — tantos desafios ardilosos e ainda vemos por aí primatas a matar os outros por causa da cor e do número de uma camiseta. 

— P. R. Cunha

As oscilações do coração de uma borboleta

Na selva vive uma Borboleta. Todos os dias ela passa horas ao espelho ajeitando cuidadosamente as asas. Enquanto tenta escolher as cores adequadas, a Borboleta repete consigo mesma: preciso de estar aprumada para achar o meu príncipe encantado etc. A Onça, que não mora longe, telefona à tardinha para saber se tudo bem com a Borboleta. Elas então conversam muito e numa altura a Onça sugere o seguinte: tu estás sempre ao espelho, saia um bocadinho, a selva é vasta. A Borboleta, um pouco fora de si, responde que não pode, impossível, precisa de arrumar as asas, ficar bonita para o caso de encontrar o príncipe encantado, nunca se sabe. Essa Borboleta, que deve dormir sozinha novamente esta noite, completará oitenta e seis anos depois de amanhã.*

— P. R. Cunha


*Tudo isto é inteiramente verdade.