devaneios da própria máquina de escrever (episódio #39)

martin & a namorada decidiram ir nadar no lago. ela ficou de ligar para uma amiga & martin convidou o ignacio, que conta anedotas de um jeito tosco & teatral o que sempre arranca boas gargalhadas de toda a gente. encontrar-se-iam à orla por volta das 10h. algumas nuvens se amotinavam no céu matutino & a impressão era de que a tempestade desabaria a qualquer momento. o trajeto até ao lago, no entanto, é absolutamente tranquilo. fernanda estava ao volante — martin ainda não aprendeu a dirigir. ele abrira toda a janela do passageiro & por vezes colocava a cabeça para fora & sentia a brisa enquanto contava o número de vacas que pastavam despreocupadas. martin sentiu inveja do sossego das vacas. numa altura, precisaram de parar o carro no estacionamento de terra improvisado & seguir o resto do caminho a pé. fernanda ficava a levantar o próprio telemóvel bem alto a ver se encontrava sinal. a amiga dela respondera pelo whatsapp que não podia ir ao lago hoje, alguma coisa a respeito de um almoço com os pais. martin sentiu a primeira gota de chuva cair no ombro. ele andava na frente para abrir espaço entre as matas. quando chegaram à orla deserta, fernanda estendeu a toalha & martin colocou a mochila em cima de uma rocha ao lado. ela se afastou para analisar a superfície verde do lago. martin aproximou-se & segurou-a pela cintura. fernanda encostou a cabeça no tórax dele & percebeu que uma espécie de pé estava a boiar não muito longe de onde eles estavam. «merda, martin, diz que aquilo ali não é o que estou pensando», ela apontou para o corpo de bruços. não parecia real, não mesmo. parecia um objeto sintético, um daqueles robôs que recebem pele artificial para simular a aparência humana. martin riu-se contidamente: «deve ser coisa do ignacio». daí ele gritou & bateu palmas: «haha!, pronto, ignacio, essa foi boa, muita boa, agora chega de tretas», mas nada de ignacio. o corpo pálido, adiposo, continuava a boiar: jeans, camisa social branca, sapato desportivo nike desamarrado. fernanda pegou uma pedra da orla & jogou-a no cadáver. a pedra foi amortecida pela epiderme hipotônica & fez um barulho como se tivesse atingido um saco de batatas. «chega mais perto dele, martin», ela pediu. martin notou um rótulo de coca-cola grudado no braço esquerdo & percebeu também que havia um ferimento, ou melhor, uma grande abertura no dorso do cadáver, mas nenhuma mosca, nenhum cheiro. parecia um banhista distraído, talvez um pouco bêbado, que resolvera tirar uma pestana onde não devia. martin endireitou-se & fez uma varredura-trezentos-&-sessenta-graus no local. uma parte dele ainda tinha esperança de ver ignacio saindo de trás de alguma árvore, com aquele sorriso debochado & senil: é tudo brincadeira, seus idiotas. mas essa possibilidade se mostrava cada vez menos razoável. martin chegou ainda mais perto do cadáver & começou a dar uns chutes, bem de leve. depois, com força, sacudiu o morto, que desvirou-se na água feito um boneco de pano encharcado. fernanda soltou um rangido de susto & cobriu a boca com as mãos, não podia acreditar no que estava acontecendo. o rosto do homem lembrava uma gelatina derretida, o nariz torto, os globos oculares deslocados, a pele avermelhada. martin pediu para ela correr, pegar o telemóvel, ligar para a polícia. a chuva agora começara a cair com força. fernanda tentava desesperadamente levantar o aparelho para o céu, à procura de sinal, qualquer sinal.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #36)

a mãe está a dirigir o citröen. ela segura o aro do volante com imensa força, como se quisesse estrangular o automóvel. ao lado dela, a filha finalmente conseguira dormir um pouco, tem a cabeça largada no encosto do banco. a rodovia está deserta, um caminho reto & infinito para o sudeste. o sol tenta se esconder atrás de algumas montanhas descampadas & começa a produzir aquele ambíguo cenário ao crepúsculo. os pores-do-sol podem significar muitas coisas, a depender do humor de quem os observa. os noivos que resolvem se casar ao entardecer buscam uma atmosfera romântica; mas numa ocasião melancólica, os últimos raios solares parecem querer intensificar o sofrimento humano. a mãe inclina levemente a cabeça na direção do banco do passageiro, observa o sono agitado da filha, depois torna as atenções para a estrada & segura o volante com ainda mais força. a filha não merece sentir tudo isto, não tão jovem. o automóvel se aproxima de um posto de abastecimento. a mãe averigua o mostrador de gasolina no painel, que está um pouco abaixo da metade. na semana passada, o namorado da filha sofrera um acidente fatal não muito longe dali. o rapaz estava a participar de uma competição amadora de ciclismo quando uma furgoneta desgovernada o atingiu. a mãe enxuga as lágrimas, procura conter as próprias emoções, sabe que precisa de ser forte se pretende continuar a servir de boia salva-vidas para a filha. no dia anterior, a filha descera para o pequeno-almoço com uma disposição diferente, parecia até esboçar um tímido sorriso. a mãe de início mostrara-se muito esperançosa com aquela atitude. a filha sentou-se à mesa & em silêncio ficou a olhar pela janela. a mãe perguntou se a filha queria algo, ovos mexidos, café, leite, torradas… a filha balançou a cabeça negativamente & apontou para a janela. sabes, mamã — a filha respirou fundo antes de continuar —, estou a perceber que o alex na verdade ainda está aqui com a gente. a mãe largara a frigideira na pia, olhou pela janela & percebeu que a filha estava a apontar para a árvore do jardim. os galhos da árvore balançavam & faziam um som grave. a filha levantou-se para aproximar a mãe da janela & disse-lhe baixinho ao ouvido: escuta, mamã, escuta, é ou não é o som da voz do alex?

— p. r. cunha

Carta aos leitores

(PENSAMENTO INTRODUTÓRIO: se tu tomas o café enquanto escreves é bom saberes que eventualmente o café cairá na superfície da tua mesa, causando grande transtorno.)

Damas e cavalheiros,

Há momentos na vida do animal humano em que tudo parece acontecer/surgir no mesmo período, mesma época, mesmo mês, mesmo dia. Mas não falo isto com aquele já tradicional azedume do funcionário contemporâneo (vide estereótipo) que reclama do excesso de afazeres da firma, da casa, da sociedade, de tudo, sente-se claustrofóbico, inútil, desesperançoso. Consigo compreender com cada vez mais clareza que o facto de eu ter passado por, como se diz, poucas-e-boas na última década ajudou-me a consolidar a casquinha que me isola das feridas da procrastinação. Os Cure têm uma música que resume bem a coisa toda; chama-se Sleep when I’m dead. Organizo o próprio cronograma com parcimônia e procuro cumprir a próxima tarefa depois de ter terminado a atividade anterior.

Um passo de cada vez, diria um antigo.

Hoje tentarei responder aos leitores que me enviaram mensagens nas páginas deste blogue e também àqueles que preferiram a comodidade dos emails. Infelizmente, é com certo pesar que vos digo que o número de cartas de papel que recebi neste ínterim foi zero.

Eis:

Coitada da Flávia, é culpa da Flávia… mas pensemos também naquele que precisa de responder que «não há Flávias por aqui». Sobre virar o pobre do besouro amarelo e o orientar para a janela: não posso fazê-lo, pois são personagens (e besouros) de celulose. A coisa toda ganharia ares de origami. Em vida real, porém, teria virado o besouro amarelo, com certeza. Outra: falam connosco como se tivéssemos culpa. As pessoas retratadas nos textos de ficção: tudo de mentirinha, não (necessariamente) condizem com a realidade do autor. Sim, nada é para sempre. Era uma fábula em 64 trechos, na verdade. Estou a caminhar algures, inclusive pelas vias do suspense. O menino também aprecia a geleia de morango, plausível. Obrigado por gostares (sabes que estou a falar contigo). Pode parecer travessura de minha parte, mas acho que o Superman das bancas de jornais tem um bocado a ver com o Übermensch de Also sprach Zarathustra — ambos possivelmente impossíveis. Não há mais botões de curtir nas páginas do blogue. Mas parece que não consigo retirar essa funções da plataforma WordPress (página interna dos utilizadores, por exemplo). Então, tecnicamente, a estrelinha das curtidas ainda existe. Também acharia muito giro transformar os devaneios em banda desenhada. Quem sabe? Ainda sobre os likes: a vossa leitura me interessa imenso, são as estrelinhas que me parecem um bocadinho supérfluas, não acham? Respeito/cultivo/encorajo a diversidade de modos na chamada blogosfera (o que quer que isto signifique), apenas calhou de a minha natureza criar certa aversão às trocas: lê o meu textinho que daí leio o teu textinho. É capaz de funcionar para outras pessoas, a mim, pelo menos, não funciona. Também prefiro o «show, don’t tell», é bem o segredo da empreitada, aliás. Há muitas distrações, aqui, ali, acolá, distrações para todos os lados. Não saberia lhe dizer o que significa «receber notificação no email de resposta ao comentário». Eu sempre desativo todas essas mensagens automatizadas. Nadamos em mares profundos, pois não. Alguns se afogam. A tua descrição de pós-modernidade pareceu-me um bocado moderna — principalmente a parte do «ninguém se importa, nada importa». Apesar de achar que era assim também em tempos remotos, o que muda é a quantidade de meios para compartilhar certas nulidades (reverberação, eco, amplificadores sociais etc. etc.). A máquina de escrever nunca está estressada; o piloto da máquina de escrever, bom, talvez, às vezes. Pedantismo à parte, gosto de compartilhar perguntas importantes para épocas importantes. A simples dicotomia sim/não: é tudo o que se precisa dizer em determinadas alturas.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #28)

[máquina de escrever / laboratório de ficção / barulho metálico das hélices do ventilador — {rrrriiiiiimmm} ruído branco / coisas mundanas &tc. {para p. p., uma certa homenagem em língua portuguesa}]

você se sente ameaçado? você gosta de assistir ao nascer do sol? você já passou férias nas caraíbas? o seu pai já lhe perguntou se você prefere o papai ou a mamãe? você oferece trocados para um mendigo por pena ou por culpa? ao pequeno-almoço você toma café puro? você por um acaso tem intolerância à lactose? qual a sua opinião a respeito do novo gerente da techmotors? a função telefone do seu aparelho celular funciona de maneira apropriada? você controla as suas emoções? você dirige o automóvel com destreza? quantas garrafas de cerveja você tomou nas últimas vinte & quatro horas? o sexo para si ainda é prazeroso? você conseguiria dormir numa caverna australiana? os farelos de biscoito lhe irritam? você declarou o imposto de renda este ano? você já disse eu te amo sem amar a pessoa a quem você disse eu te amo? você tem medo da morte? você gostaria que o rio de janeiro voltasse a ser a capital federal? você come animais mortos ou consome produtos orgânicos das companhias que são contra as pessoas que comem animais mortos? o suposto fim dos livros de papel lhe incomoda? flamengo ou botafogo? você também acredita que ter ensino superior é apenas um detalhe supervalorizado? uma dama solitária a andar numa rua solitária corre algum tipo de perigo? você se considera «carbonfree»? numa competição de quem come mais hambúrgueres, quantos hambúrgueres você conseguiria comer? a quantidade de estrelas no céu lhe tira o sono? você cita autores que nunca leu? você, hipoteticamente falando, mataria o seu professor de sociologia? você sabe que velocidade o foguete precisa de alcançar para livrar-se da força gravitacional da terra? você está satisfeito com a sua renda mensal/anual? você saberia diferenciar uma mentira-branca de uma mentira-de-outra-cor-qualquer? você cria um patológico complexo de inferioridade quando perto de pessoas muito altas? os cachorros & os lobos têm a mesma raiz evolutiva? messi ou cristiano ronaldo? pelé ou diego armando maradona? você voaria de asa delta sem instrutor de asa delta? se você desmontasse o seu telemóvel, você conseguiria montá-lo novamente? o rádio é uma mídia antiquada? a atual configuração jurídica lhe parece justa? a morte de membros do povo assurinis do xingu (brasil) lhe incomoda? se lhe incomoda, você saberia dizer o nome de algum membro do povo assurinis do xingu que morreu, sei lá, nos últimos cinco anos? se não lhe incomoda, você saberia dizer por quê? numa luta de boxe com regras devidamente adaptadas, quem venceria: james joyce ou oswald de andrade? você é contra toda a forma de corrupção mas imprime o projeto de ciências do filho utilizando as folhas da empresa onde trabalha? numa escala de um a dez, que nota você daria para a carreira de rubens barrichello? na argentina tudo termina em tango? eu deveria lhe deixar em paz? as minhas perguntas lhe incomodam? se você possuísse uma arma de fogo, você atiraria na minha cabeça ou no meu coração? você é feliz?

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #27)

levo a máquina de escrever para o apartamento da minha namorada. ela abre a porta & diz: que troço é este? eu digo: olivetti lettera 82, máquina de escrever. ela ri-se, faz aquela cara engraçada que as mulheres sensatas costumam fazer quando lidam com homens insensatos em apuros. nesta altura um só pode agradecer «aos caprichos do universo» por ter encontrado alguém que se depara com o seu perfil mais desengonçado & mesmo assim permanece, não foge algures, nem lhe manda para o olho da rua. trinta & quatro anos de planeta terra me mostram que muito provavelmente esse seja o tipo mais honesto de amor. a astronauta que se arrisca ao lado escuro da lua, àquelas profundezas cósmicas, mas não se assusta, pois sabe que na outra face há luz, compreende que não é só de sombras que vive um aluado &tc.

[quartinho de estudos, a ler wylie sypher / um estilo nasce devagar, depois de muitos esforços, falsos inícios & erros.] concordo quando wylie sypher diz que a história da arte é uma interpretação que não pode ser final, um assunto fechado. certo clube do livro formado por cinco leitoras é mais que o suficiente para percebermos que a mesma obra será lida com várias, digamos, lentes. leitora X achará o texto distópico; leitora Y insistirá na versão romance à moda antiga; uma outra leitora discordará de X/Y/Z/W & dirá que não é nada disso: a narrativa era um sonho hedonista com influências estoicas. pensemos naquele velho adágio que diz que «a partir do momento em que mostramos nossas criaturas ao público, elas deixam de ser só-nossas»; passam a navegar oceanos subjetivos cujas ondas imprevisíveis não deveriam tirar o sono do marujo criador. pensemos também nos pais que dizem: crio meus filhos para o mundo. mas dizem-no com o coração intranquilo, pois têm medo de serem abandonados. sugere-se portanto que o artesão apenas observe (à uma distância segura) o afastamento da jangada. isto é: não se intrometa. permita que os outros desvendem livremente os códigos da embarcação. pois um dos maiores prazeres de qualquer obra de arte talvez seja o livre diálogo entre remetentes & destinatários, diálogo em que todos participam, imaginam, perdem, ganham, acertam, equivocam-se. é chegar ao ponto final da jornada & gratificar-se: sou um ser humano melhor, modifiquei-me.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #26)

estou com esta frase que não me sai da cabeça: ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. não me lembro quem disse isso. ou melhor: quem escreveu. porque, como se sabe, a minha interação com a chamada (abre aspas) realidade exterior (fecha aspas) é basicamente pautada pelos livros, palavras impressas. daí eu penso com os meus botões: kafka escreveria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? absolutamente. mcewan, também. swift, defoe, joyce, proust… é coisa que todos eles escreveriam. mas sinto cá uma culpa indecorosa. [«indecorosa» talvez seja a palavra mais sofisticada que vocês irão ouvir da minha boca. a verdade é que depois de um tempo a gente meio que aprende muitas palavras sofisticadas & o desafio é segurar a língua para não utilizá-las.] mas estava a explicar a respeito da culpa indecorosa, que vem do facto de eu apenas citar os estrangeiros: musil, kierkegaard, mann, handke, auster, essa gente. incomodar-me-ia ser visto pelos meus conterrâneos como um desses mimados-classe-média-que-leram-algumas-coisinhas-algumas-dezenas-de-livros-&-agora-se-metem-a-citar-os-gringos-apenas-os-gringos-nada-mais-que-os-gringos-pois-sentem-que-não-pertencem-ao-contexto-latino-americano &tc. &tc. &tc. acontece que também aqui, regionalmente (brasil & não só), pretendo fazer boa figura. então editamo-nos. acrescentamos nomes locais à laia de aprovação. é terrível. haroldo de campos diria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? diria. sérgio porto? sim. lima barreto? sim. borges, alan pauls, neruda, ricardo piglia, sabato, guillermo rosales (nuestros/mis hermanos), todos escreveriam que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. o meu cachorro está neste exato momento a pular feito um maluco porque uns pássaros atrevidos querem comer a ração dele. por incrível que pareça, o cão se mostra mais sereno hoje. é que ontem ele tentou morder o filho do vizinho. o vizinho veio reclamar & eu disse: o seu filho fica a jogar pedras no meu cachorro & você espera que o meu cachorro faça o quê? acontece que é o terceiro filho de vizinho que o meu cachorro (um boxer caramelo absolutamente inofensivo quando ninguém joga pedras nele) tentou morder. o prefeito da rua recebeu as devidas reclamações & passou aqui para falar comigo. ele saiu do próprio hyundai reluzente, ajeitou os cabelos (automóvel & cabelos com coloração idêntica), o prefeito teve de bater palmas, pois a campainha não está funcionando. conversamos ali mesmo, à entrada. ele acredita que a melhor solução é castrar o animal. eu disse a ele que de forma alguma, essa medida está fora de cogitação, ninguém mexe nas bolas do meu canino, & perguntei ainda como ele se sentiria se tentassem tirar as bolas dele (dele = prefeito da rua), se o colocassem numa maca de ferro gelada & abaixassem as calças dele (prefeito da rua) & mostrassem um bisturi afiado & arrancassem fora as bolas dele (prefeito da rua). o prefeito da rua disse ai!, que isso seria terrível, sente dor no saco escrotal só de imaginar. pois é, então ninguém mexe nas bolas do meu cachorro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #17)

então que de muitas formas escrever é como cozinhar. você sente fome, quer preparar para si algum alimento, você ainda não tem tanta certeza do que quer comer. você vai até à dispensa & escolhe os ingredientes. pode ser que você não possua muita experiência & acaba que o prato não sai do jeito que esperava. falta um pouco de sal? ficou muito mole? passou do ponto? acontece de ser uma comida que você gosta imenso. daí não quer desistir, sabe? você volta, tenta de novo, vários dias, & começa a notar que a coisa ganha certa desenvoltura. acertara na quantidade de sal, muito boa apresentação — a consistência, bem, a consistência ainda deixa a desejar, mas você está no caminho certo. outras pessoas também começam a dizer: nossa, isto aqui, hein, está gostoso pacas… & você, um pouco encabulado, agradece: oh!, que nada, é só um prato. & você continua a empreitada: erra-acerta-acerta-erra-erra-acerta. quando você menos espera, chega a altura em que começa a improvisar. sim. aprendera a receita, pelo menos o suficiente para se sentir confiante & modificar & acrescentar outros ingredientes, dar o próprio estilo ao prato. certa tarde, supomos que seja quinta-feira, faz um calor dos diabos, & você escuta duas/três batidinhas na porta. você abre. é a sua avó que mora para o litoral, estava caminhando por perto, decidira visitá-lo, pois é bem isso que as avós fazem, não é mesmo? por sorte, quis o destino que você estivesse justamente a incrementar o seu prato, sabe, uma dessas agradáveis coincidências. a avó experimenta, faz uhmnnn!, isto é bom, muito bom mesmo, & ainda garante que foi uma das comidas mais saborosas que ela já comera na vida, & olha que ela já comera um monte de coisa na vida. &tc. &tc. &tc.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #13)

curiosa atividade, a do escritor. paradoxal, dir-se-ia. de longe, é apenas um ser humano sentado, imóvel, escrevendo. porém, se pudéssemos observar o que se passa ali dentro, veríamos tempestades, terramotos, balbúrdias — uma série infindável de cataclismos.

ao fim do dia, escritor diz: céus, estou exausto. & ninguém parece compreendê-lo: mas, ora, passaste o tempo todo sentado!

o problema é quando as ideias não vêm. de aí sim o escritor se torna mesmo «apenas um animal à deriva». nada faz sentido. & por estar parado (i.e.: sentado), a inércia se mostra ainda mais agressiva. de forma que por vezes é razoável dar uma boa chacoalhada nos modos. sair da zona de conforto. se não fizê-lo por conta própria, lá estará a fisiologia a meter-se na valsa. 

surge doença (febre), uma saudade há muito esquecida, pavores, o medo da morte, da finitude. como se alguma alma impiedosa amarrasse bomba-relógio às costas do escritor & dissesse: tempo! tic-tac-tic-tac…

vai, escreve!

repito: se bem-dosado, esse fluxo de endorfina pode fazer verdadeiros milagres literários.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #11)

algumas pessoas descobrem que eu escrevo, & pensam que eu devo ler imenso, & de aí me pedem sugestões de leitura. acanhado, mas de boa vontade, dou-lhes sugestões de leitura. passa um tempo & não escuto mais nada dessas pessoas. até que a gente meio que se esbarra ocasionalmente num restaurante, num bar, ou na festa da prima-de-algum-conhecido-em-comum, & então eu pergunto: fulano/fulana, o que achara das minhas sugestões?, leu?, & fulano/fulana diz que leu, & que não achou grande coisa. é de partir o coração.

— p. r. cunha

uma forma literária de dizer-vos «até breve» porque à fazenda de um livro que consome-me imenso tempo

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quando sentes a fisgada ácida do ansiolítico a tocar-te a ponta da tua língua sabes direitinho que tudo ficará bem precisas do ansiolítico para sobreviver porque possuis as neuroses os pavores estás rodeado de máquinas basicamente máquinas de sumo e de sandes e de bebidas açucaradas e de chocolates tipo m&m’s e skittles e máquinas de café com chávenas assinadas por algum artista hipster que vive para os himalaias as cápsulas de café com tampa de alumínio a agulha da máquina de café nespresso que perfura essa tampa de alumínio e a nespresso começa a atritar a grasnar a rosnar e a cuspir o café tudo muito techno erótico uma nespresso cor de laranja com as superfícies laterais removíveis ao passo que o dono da nespresso pode lá alterar as superfícies laterais de acordo com o próprio humor e a nespresso da sala de espera do psiquiatra tem a cor de laranja talvez para animar um tanto a digamos assim diretamente sem pudores a clientela cor de laranja para animar a clientela e podes perceber que a terapiacromovisual dá resultados pelo menos se levares em conta a dama que se dirige à nespresso com postura de pessoa normal e por isso mesmo sem parecer absolutamente com uma pessoa normal vai até à nespresso beberica o café com muito apreço como se fosse a lady di princesa de gales com aquele dedinho perturbador dedinho voltado para cima dedinho erguido beberica o café nespresso cápsulas com sabores exóticos e sentes vontade dizer ei lady di aqui somos todos doidinhos não precisa de fazer pose tome o café que nem doida quer enganar a quem máquinas de toda a sorte como tu estavas a falar máquinas de guloseimas máquinas de morte mas também máquinas de literatura como as que serão instaladas em canary wharf londres com histórias curtas que podem ser lidas entre as estações do metropolitano e tratar deste assunto causa-te um certo entusiamo é irresistível o passageiro dirige-se às máquinas de literatura produzidas pela francesa short édition escolhe entre uma trinca de opções que são estas histórias que podem ser lidas em um minuto ou histórias que podem ser lidas em três minutos ou histórias que podem ser lidas em cinco minutos a depender do trajeto percorrido pelo supracitado passageiro pressiona uns botões e voilà sai um papel simpático com contos de nomes consagrados das letras britânicas como virginia woolf charles dickens lewis carroll e nomes mais contemporâneos como anthony horowitz que anda de metropolitano todos os dias e vê toda a gente com o olhar colado às apps aos jogos aos tweets às fotografias no instagram de pessoas que se retratam felizes mas por dentro são terrivelmente solitárias e que a ideia das máquinas de literatura é usar o tempo que se passa dentro do metropolitano em algo que seja entretido e que pode sair em formatos miúdos como a própria literatura e agora para seres franco connosco dizes que estás a sentir uma branda melancolia pois não consegues imaginar uma máquina dessas chegando ao brasil talvez nem nos próximos duzentos anos mas quando tu sentes a fisgadinha do ansiolítico nada importa perguntas o que é arte e perguntas isto porque pintaste um quadro rigorosamente despropositado e ninguém gostara da coisa até que compraste uma moldura e colocaras a pintura dentro do compartimento da moldura e de súbito começaram a elogiar o teu trabalho como ocorrera no caso de mark wallinger que selecionara um cavalo que participou em competições e simplesmente nomeou-o desta forma uma verdadeira obra de arte nomear o cavalo dar a conhecer a sua existência sem mais e o cavalo torna-se uma obra de arte da mesma maneira que a tua pintura sobre colagem de jornais velhos tornara-se um bocado mais arte depois de colocada dentro do compartimento da moldura pois muitos estão acostumados a ir a museus e às galerias famosas e é bem desse jeitinho ou seja dentro de molduras que eles apreciam ou melhor que eles consomem arte o lixo que vira arte se dentro do compartimento da moldura ou se uma galeria de arte diz isto é arte então toda a gente acredita porque afinal é papel da galeria de arte indicar o que é arte e o que não é arte do contrário falaríamos todos um incompreensível idioleto que nada mais é do que a variação de uma língua única a um indivíduo e se quiseres ser ousado podes também adotar neologismos tipo arteoleto artolecto artlecto ou coisa assim mas é hora de prestares atenção ao psiquiatra à ida ao psiquiatra que envolve escutar o barulho do ar condicionado aparelho que faz um barulho mais ou menos assim trrrrrrruuuuuuummmmmmmm envolve esperar à sala de espera esperar mais do que imaginastes suponhamos que tu tenhas uma consulta marcada para as quinze horas então é melhor teres paciência porque serás atendido às 16h não necessariamente em ponto e ficarás sentadinho no sofá de espera e quem sabe tens contigo um livro ou um pedacinho de papel e começas a anotar freneticamente uma caralhada de pensamentos avulsos e anota isto logo anota isto para não esqueceres e tu anotas tudo barulho do ar condicionado trummmsmmsmsmsmmss o outro paciente que espera contigo à sala de espera um homem à volta de 45 idades talvez mais digamos cinquenta e tal homem com cinquenta e tal anos que não aceita a idade que tem e veste-se à moda jovem abandonado por mamã com camisa desabotoada calças de ganga estrategicamente rasgadas nos lugares certos por mãos habilidosas made in taiwan adidas branco com cadarços brancos meias brancas cano soquete também conhecidas como meias invisíveis passa uma série netflix na televisão da sala de espera do psiquiatra uma série sobre pescadores ariscos anota tudo isto anota antes que esqueças truuuuummmmmmss faz o ar condicionado e o psiquiatra abre a porta e chama o teu nome e tu entras ao consultório do psiquiatra e ele cordialmente pede para que tu te sentas e tu sentas direitinho com as mãos guardadas sobre os joelhos e tu não consegues evitar tu olhas para o banco ao lado do teu e a almofada do banco tem ainda o formato da bunda do paciente anterior e aquilo constitui para ti um verdadeiro motivo de risota e começas então a duvidar da tua maturidade se tens mesmo a maturidade para ires falar ao psiquiatra falar que sentes isto sentes aquilo mas fazes tudo para ter contigo o teu ansiolítico de forma que não dás as risadas e sentes a boa expectativa ao estilo oba sairei daqui com a minha receita medicamentosa mais um mês sob controle sem causar danos e ou magoar as pessoas que amo tanto controladinho receita medicamentosa ires à farmácia ires à drogaria ao mercado das drogas lícitas das drogas socialmente permitidas das drogas cujos conteúdos não irão colocar-te dentro de cárceres nem nada dessa natureza drogas que até mesmo as autoridades da lei compram sem serem incomodadas ires à drogaria portanto e comprares o ansiolítico 28 pílulas do ansiolítico que te mantêm à superfície por vinte e oito dias e tu sentes a vontade de perguntar ao teu psiquiatra se ele poderia ser bondoso e receitar de repente como quem não quer nada receitar-te umas tantas cartelas com 52 pílulas 544 pílulas mil pílulas edição deluxe do ansiolítico ao passo que tu terias não 28 dias de superfície mas sim mil dias de superfície mil dias sob controle aproximadamente três anos de bons comportamentos fisgada do ansiolítico na língua na ponta da língua para seres sempre mais exato ponta da língua como um ritual o ritual do ansiolítico consiste em deixá-lo na ponta da língua o máximo de tempo que conseguires justamente para prolongares a fisgada depois bebes a água de maneira normal como sempre fizeste quantidade certa de água à guisa de evitares que a pílula fique presa no meio da tua garganta causando-te preocupações desnecessárias pois podes imaginar como seria morrer engasgado com um comprimido de ansiolítico no meio da garganta assim ó e apontas o dedo para a garganta chegas mesmo a colocar o dedo dentro da garganta sentindo um refluxo enjoativo como se fosses vomitar a sério então tu sais do psiquiatra com a receita habitual à caixa da praxe 28 pílulas e sentes uma fome terrível de forma que agora estás numa praça de alimentação de um shopping mall à espera de um alimento levemente nutritivo e notas que uma funcionária sai da loja de vender móveis dirige-se ao corredor das toaletes dos aposentos sanitários das casas de banho enquanto ela olha fixamente para o relógio de pulso e agora ficas a refletir no que estaria a pensar a funcionária da loja de vender móveis num encontro num amante na filha com problemas na escola ou no horário de chegada do voo da avó que vem de longe e sempre que vem de longe a vovó reclama da falta de espaço destes assentos modernosos das aeronaves modernosas e via de regra a vovó entra numa espiral nostálgica a dizer que nos meus tempos ela diz nos meus tempos as companhias aéreas ofereciam verdadeiras refeições e os talheres eram de metal e as taças eram de vidro de verdade e as hospedeiras de bordo davam os devidos bons-dias e os hospedeiros de bordo davam as devidas boas-noites e que as velhas d’aquele tempo não morriam de tromboembolia pulmonar porque os assentos eram espaçados mas os assentos atuais ela diz são verdadeiros assassinos tão grudados tão absolutamente colados uns nos outros que a impressão diz a vovó para a neta no caso a funcionária da loja que vende móveis a impressão diz a vovó é que as viagens aéreas tornaram-se tão irritantes quanto as viagens rodoviárias talvez ainda mais irritantes porque a pessoa que compra um bilhete de avião acha que está a pagar pelo conforto mas não está a pagar por conforto nenhum diz a vovó talvez até esteja a pagar pela própria morte tromboembólica e que os aviões não seriam outra coisa senão autocarros alados mas são tantas as possibilidades que tu perdes o interesse pela funcionária da loja de vender móveis deixas que ela possa ir sossegadinha à casa de banho e ficas a esperar o teu alimento acontece que tens uma curiosidade insaciável dentro desta tua cabeça estranha e ficas a olhar agora para a moça da mesa ao lado que não tira os olhos do telemóvel nem quando o garçom lhe traz a sande de guacamole e ela meio que come toda inclinada com uma das mãos segurando a sande de guacamole e a outra mão segurando o telemóvel e reclama consigo mesma quando uns bocadinhos de guacamole caem em cima do ecrã do telemóvel e o garçom se ri todo como se dissesse bem feito de aí chega a tua refeição comes a tua refeição utilizando métodos mindfulness total atenção à refeição tomas o sumo de amora e logo estarás preso num engarrafamento muitos carros que quase não saem do mesmo sítio e brasília doesn’t give a goddamn fuck e colocas umas músicas do tempo em que moraste em são petersburgo aproveitas que o trânsito não anda abres a app do spotify e estás escutando o álbum guns tonight da banda superfamily e sentes saudades da rússia sentes saudades dos teus 24 anos quando a mamã e o papá achavam que tu serias enorme mas agora estás preso num engarrafamento e o motorista à direita tira pêlo do nariz uma meleca do nariz e a motorista da esquerda manuseia o próprio telemóvel chorando e tu aumentas o volume e te apetece fechar os olhos apenas escutar superfamily quando chegas a casa vais direto para o banho um merecido banho e de súbito começas a rir parece um louco rindo sem parar enquanto analisas o frasco do shampoo que a tua namorada comprara e não queres fazer má propaganda do shampoo porque a tua namorada tem uns cabelos maravilhosos e acreditas que o shampoo seja um dos responsáveis pelos cabelos maravilhosos da tua namorada mas não consegues manter a seriedade diante do excesso de adjetivos disparatados que a embalagem do shampoo elseve óleo extraordinário da l’oréal paris oferece a começar pelo micro-óleos de flores preciosas o que seriam 1) micro-óleos e 2) flores preciosas e logo abaixo inovação leveza infinita suavidade infinita brilho excepcional vitalidade deslumbrante ao leres estas piadas começas a imaginar uns cabelos com suavidade e leveza infinitas começas a imaginar o fim do cosmos o fim do universo o fim de tudo e mesmo assim uns cabelos que continuam com suavidade e leveza infinitas e agora tu queres ajudar os publicitários de l’oréal tu queres definir a palavra infinito isto elseve-oleo-extraordinario-loreal-paris-kit-D_NQ_NP_677505-MLB25036260328_092016-Fé que não tem nem pode ter limites ou fronteiras no tempo ou no espaço em extensão ou magnitude ilimitado infindável desmesurável e por mais que os cabelos da tua namorada sejam realmente magníficos por mais que sejam cabelos muito muito muito bonitos eles estão longe de terem essas características infinitas e ainda bem porque do contrário acharias o cabelo dela e de outras gentes que utilizassem o shampoo elseve da l’oréal paris algo muito assustador de qualquer forma decides arriscar e passas o shampoo elseve da l’oréal paris no teu próprio couro cabeludo para veres o que acontece sentes uma suavidade porém nada de suavidade infinita e também uma leveza mas não é uma leveza infinita um brilho talvez mas bem longe de excepcional e tudo o que queres e ficar sentadinho ao computador com as tuas neuroses com as tuas manias de grandeza obsessões queres registrar os acontecimentos do teu dia e depois quem sabe dar continuidade à leitura do yukio mishima antes de dormires.

— p. r. cunha