New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha

Escritores aluados

Os norte-americanos chamam de astronauta aquele ser humano que tenta escapar da gravidade terrestre. Os russos preferem cosmonauta. Em 1957, os soviéticos lançaram Sputnik, primeiro satélite artificial da história. Em 1961, Yuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço — dentro da claustrofóbica Vostok (espaçonave com pouco mais de quatro metros de comprimento e dois metros e meio de diâmetro [basicamente do tamanho de uma casinha de cachorro moderna]). De aí o Kennedy ajeitou o topete numa tarde de ventos em Houston, Texas, mostrou que não estava para brincadeiras e disse, ou melhor, garantiu que os Estados Unidos logo realizariam uma alunagem e, o mais importante, trariam os astronautas de volta para casa sãos e salvos. Em 1969, Neil Armstrong e Edwin ‘Buzz’ Aldrin pisaram na Lua e toda a gente extasiou-se. Feitos inacreditáveis, sem dúvida. Mas a mim a cereja do bolo da chamada Guerra nas Estelas foi o caso da caneta lunática. Não é preciso nenhuma ciência de foguete para saber que as canetas comuns simplesmente não funcionam num cenário sem gravidade. Conta a lenda que a Nasa teria investido milhões e milhões em mecanismos que permitissem a utilização da famigerada tinta dentro dos módulos espaciais. Enquanto isso, os soviéticos optaram por alternativa um bocadinho mais em conta: карандаш (karandash), ou o bom e velho lápis*.

— P. R. Cunha


*Eventualmente a Fisher Pen Company de fato desenvolveria uma caneta com fluídos específicos que permitem escrever em ambientes sem gravidade. O nome da geringonça não poderia ser mais intuitivo: space pen.