Teoria do holofote (apontamentos desconexos)

Os reencontros de turma são sempre organizados pelos alunos mais bem-sucedidos.

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Capitalismo-mágico faz crer que as commodities consumidas pela sociedade simplesmente surgem, aparecem, materializam-se, como num sonho, contos de fada.

Ir ao supermercado, ao shopping mall e deparar-se com quantidades vertiginosas de produtos coloridos; ou, num contexto mais imediatista, comprar pela internet, no infinito abstrato acessado com um simples movimento do mouse, e a mercadoria chega à porta de casa.

Passe de mágica.

Fácil de esquecer que, a despeito do acelerado desenvolvimento robótico, as coisas ainda são majoritariamente produzidas por pessoas (isto é: dependem da supervisão e do esforço de seres humanos).

Se outros humanos não produzem, não embalam, não transportam, não fiscalizam, não entregam, de aí a magia perde todo o sentido.

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Um vírus que realmente causasse pânico/histeria/desespero — não um vírus biológico, mas virtual. Visto que a fuga da «realidade» é feita através da janela computadorizada, os pixels ganham novas dimensões. A falta de conexão com a internet, colapso do sistema streaming (Netflix, YouTube & associados), redes sociais em espera; difícil de prever como essa abstinência afetaria o psicológico de certos usuários.

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Estádio de futebol repleto de torcedores feitos de papelão — Pinocchios com rostos (fotografias) de torcedores de verdade. O barulho da torcida viria de altifalantes estrategicamente posicionados às laterais do campo. Ecos, gravações e reverberações garantiriam a atmosfera grotesca do espetáculo. 

— P. R. Cunha

Running

Helena veste o casaco, o casaco é vermelho, grená, tipo a cor da camisa de futebol da Associazione Sportiva Roma, Helena não assiste ao futebol, de forma que essa comparação cromática não faz muito sentido, a não ser que ela passasse na frente de uma vitrina especializada & lá estivesse exposta a camisa da Associazione Sportiva Roma num daqueles manequins sem face que assustam as crianças propensas a ideias mais fantasiosas, «veja, é a mesma cor do meu casaco», dir-se-ia, no entanto, & isto é importante, teria de ser a camisola estilo home, uniforme principal, pois o segundo modelo é branco, e aí mesmo que a comparação não iria fazer sentido para a Helena, que achara o tom do casaco vermelho-grená agradável, & agora veste-o para sair às ruas vazias da própria cidade à laia de praticar o running com o Sérgio, ex-namorado da irmã da Helena, ao que esta prática desportiva não deixa de ter também uma pitadinha de desconforto, de inadequação, de travessura, de ousadia, a ver se a modernidade está mesmo preparada para uma guinada dessas (pensamento dela), etc., ainda mais se levarmos em consideração que Sérgio/irmã da Helena só oficializaram o término do relacionamento na tarde anterior, aproximadamente às 16h32, pouco antes da consulta oftalmológica da Helena, cujo grau (miopia & astigmatismo) aumentara menos do que se esperava, o que não vem ao caso, pois agora ela & Sérgio correm na berma da outrora movimentada avenida central da cidade, o clima deleitoso, o vento refrescante do início da noite, o suor que começa a escorrer pelas têmporas, o Sérgio que de quando em vez olha para o rosto da Helena, mas Helena está compenetrada na berma da avenida, então Sérgio desvia o olhar, & Helena que olha para o rosto do Sérgio, que está compenetrado na berma da avenida, no hidrante amarelo pelo qual ambos passam a uma boa velocidade, no exato momento em que Helena sente umas cócegas estranhas na região da cintura, algo que lhe pinica deveras, & ela começa a se coçar, tenta ser discreta, mas ninguém consegue praticar o running/coçar-se/ser discreto, & quando ela coloca a mão dentro da roupa, percebe que não retirara a etiqueta com o preço do casaco, etiqueta grande, do tamanho de uma carta de baralho, com a palavra «LIQUIDAÇÃO» destacada com marca-texto amarelo, & Sérgio, constrangido pelo próprio voyeurismo, limita-se a sorrir sem mostrar os dentes.

— P. R. Cunha