Ilhéus

O apego de certos escritores pelo mar, admiração que por vezes raia o doentio, incontrolável desejo de perder-se na vasta superfície oceânica em busca de um sítio onde consigam acertar as contas com as próprias desilusões, querem se sentir em paz. 

Escritores que numa altura dedicaram esta ou aquela obra a determinados marinheiros de longo curso — tipos maioritariamente insondáveis — cujos corpos jazem algures no fundo do oceano. 

Escritores em busca de uma ilha.*

Virginia Woolf, Jorge Amado, Stevenson, Melville, Kipling, Camões, Conrad, Vinícius de Moraes, Joyce, Walcott…

Novalis, depois de caminhar pelos territórios britânicos em meados do século dezoito, escrevera: não só a Inglaterra, mas também o inglês é uma ilha. E também os poetas, os românticos, os solitários que dão-se bem com a solitude: todos ilhas.

Quando estou a passar por apuros, como se diz, quando percebo-me a lidar com situações irreversíveis, e vejo-me assombrado pela realidade, e simplesmente não dou conta, e a chuva cai em finas gotas que espetam a pele como agulhas, e uma sensação de esmagadora asfixia invade as minhas entranhas, procuro da mesma forma o conforto do exilado náutico.

Como se meus pensamentos fossem amparados pelas ondas, de súbito visualizo-me sentado à escrivaninha — o meu refúgio, ilha de madeira com livros a fazer as vezes de árvores, árvores que possuem literaturas em suas folhas, dezenas, centenas, milhares de folhas retangulares oferecendo sombra para a minha cabeça, a refrescar o incêndio interno que me arde e devora sem moderação.

Fujo para a minha zona de areia cercada de água por todos os lados, talvez o último fragmento de sanidade que consigo avistar antes de perder-me em devaneios paralelos. E espero. Vem a ressaca. A maré recua. O marujo coloca-se novamente a caminho de terra. Volta um outro, momentaneamente curado.

— P. R. Cunha


*Não confundir com a anestésica busca por um porto seguro, não é disso que se trata.

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.