Quarta nota #1 — hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do fantasmagórico

§ Escrever porque não se deve nada a ninguém — em caso de erro (conceito vago quando ficções), admitir o fracasso, procurar novos caminhos etc.

§ Houve um assassinato na floresta. Os dois maiores suspeitos do crime eram o Coelho e o Besouro. A família, os amigos e o advogado do Coelho, obviamente, defendiam o Coelho; enquanto a família, os amigos e o advogado do Besouro, naturalmente, defendiam o Besouro. No tribunal, a juíza Borboleta não conseguira controlar tamanha gritaria — na qual nenhum dos lados ouvia o outro. [As relações animais são tumultuosas em vários aspectos.]

§ Escritores, peritos no controle da mente. E fábulas dizem muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo ao «brincar» com a simbologia coletiva.

§ Vinte partidas contra o computador (Rating: 1300), com onze vitórias para a máquina, oito vitórias para o homem — id est eu —, e um stalemate/impasse/empate. O xadrez ainda me ensina o que fazer quando não há mais nada a ser feito.

§ As livrarias brasileiras estão a fechar as portas exponencialmente e não vejo administradores públicos muito preocupados com isso. Viver no Brasil em 2018 — um pesadelo de olhos abertos (o mau-olhado daquele olho do mal).

§ «Prazer em jogar com o macabro e o terrificante», diria o Calvino.

§ Aquecimento global, florestas devastadas, oceanos apodrecendo, fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia, androides/humanoides, inteligências artificiais, machine learning, reengenharia da vida… — tantos desafios ardilosos e ainda vemos por aí primatas a matar os outros por causa da cor e do número de uma camiseta. 

— P. R. Cunha

Pasternak: notas provisórias

Personagem chamado Pasternak — como o poeta/novelista/tradutor russo; motivo: o pai vivera para a União Soviética nos anos 1960. As cinco etapas do luto (luto que por vezes é desencadeado por: morte de parente/amigo, decepção amorosa, inadequações sociais [a definir]): negação, raiva, barganha, período melancólico, aceitação. Pasternak não admite, Pasternak furioso, controla-se, tenta mudar de ideia («e se eu [Pasternak] pudesse consertar as coisas» etc.), tristeza de Pasternak, depois de tantas batalhas, eis a resignação, o cansaço. Frase a martelar a cabeça deste excêntrico personagem: História se repete; a primeira vez como tragédia e depois como farsa. A frase, muito atual diga-se de passagem, é do Karl Marx. Tentativa de fuga, mas as pernas de Pasternak não se movem (figurativo/paralisia/eterno exilado/assim por diante). Pois observai o mundo e vereis que na mor parte os humanos não têm para onde ir. Manter a linguagem rebuscada numa espécie de jaula, aterrada; Pasternak não é 1) pedante; 2) estimado por seus bens; 3) muito menos julga a própria felicidade na medida da riqueza. Período antes do luto/melancolia, características gerais — até àquele momento Pasternak fora senhor de seus demônios, capaz de direcioná-los de acordo com seus caprichos, mas lá no fundo, como já escreveram numa importante obra filosófica, no mais recôndito de seu coração (a figura romântica do coração como casa dos nossos sentimentos), havia um poço infinito (bonita imagem: poço infinito, poço profundo), poço que reagia completamente alheio às vontades de Pasternak, fora de seu controle, e a tampa desse poço acabara de ser aberta. Pasternak não se reconhece.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha

Irmandade de Escritores de Brasília

Segundo a lenda, o brasão da Irmandade de Escritores de Brasília era uma coruja — a simbolizar mistério, sabedoria, conhecimento intuitivo. Ave de rapina, soberana da noite, cujos olhos enxergam através da escuridão. O desenho é estranho. Parece mais um rabisco feito por escolar indisposto. Escritor que quisesse entrar para a irmandade precisava de obedecer regras disparatadas, tais como: nunca segurar a chávena de café com a mão esquerda, jamais subir ao mirante da Torre de TV, não comprar chocolates suíços, fazer oração ao petróleo antes de dormir (oh, benzina, que move o meu automóvel com destreza…). O presidente da irmandade ficava a descansar numa cave com endereço desconhecido; realizava apenas uma breve aparição por volta do dia 21 de junho, época em que, como sabemos, marca o início do inverno no hemisfério sul. Durante o evento, que durava cerca de quinze minutos, o presidente sentava atrás de uma cortina branca e os participantes só podiam observar a silhueta do excêntrico conviva, como se fantasma escondido atrás dos lençóis. De acordo com testemunhas, ele dizia com voz calma e resoluta: não ser devedor de alguém, não se comprometer com nada, sem promessas, sem favores, a sua responsabilidade com o leitor termina assim que a última frase é escrita.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte I)

Damas & cavalheiros,

A partir de hoje começo a publicar trechos de uma narrativa que escrevi especialmente para este electro-sítio — Fragmentos de um romance inacabável. Despeço-me com aquela curiosa sensação de que tudo o que se passou ficará lá para sempre. E isto, como se diz, é confuso demais.

Mil saudações do teu,

P.


Aquele que busca se aproximar do próprio passado enterrado deve comportar-se como um homem que escava. Acima de tudo, não deve ter medo de retornar mais de uma vez à mesma questão, espraiá-la como se espraia a terra, revirá-la como se revira o solo.
Walter Benjamin

O Escritor que se senta à escrivaninha a cada manhã e discorre sobre todos os tipos de temas, de todos os ângulos possíveis, de todas as maneiras etcétera. Diz coisas que precisam ser ditas. Não espera por uma grande inspiração, frases corretas — sabe que isso raramente acontece. Durante um tempo indeterminado, o Escritor acumula pequenas situações, breves cenas, enunciados, um diálogo na livraria, o choro de um bebezinho. Acumula palavras. Até que o baú transborda e é tempo de esvaziá-lo.

Escrivaninha, canetas, papéis, estantes, livros, chávenas de café, desenho de um cão (raça desconhecida), desenho de uma sereia a se afogar nas profundezas de um oceano roxo, coleção de postais soviéticos grudados nas paredes.

Na meninice nada parece acontecer sem causa, nada é inexplicável. O menino sabe que existe um mundo à parte, mundo regido por adultos — e compreende aos poucos que alguns adultos são felizes, outros são tristes. Ali tudo se mostra previsível. O pai garante a segurança e o progresso do menino: vais estudar nas melhores escolas, viver para o estrangeiro, vais aprender o russo, serás um sujeito diferente; este é o pai dizendo. O menino tem a certeza de que o pai é eterno, que o pai é capaz de explicar-lhe o Universo. Até que certo dia paira sobre a cabeça do menino uma nuvem cinza, carregada, e de súbito o otimismo dá lugar a uma lúgubre atmosfera; sombras a dizer-lhe que talvez a realidade não seja tão calma e segura quanto ele desejava acreditar. O menino sente-se vulnerável, enganado. O menino sente medo.

Um Escritor à Van Gogh, ardoroso e irrequieto, mas também cheio de brincadeiras animadas, uma enorme afinidade e uma infinita capacidade de admiração. Guia aventureiro, que transmite inspirações e passa reprimendas, um entusiasta enciclopédico, crítico engraçado, companheiro divertido, um olhar que atravessa tudo. Vítima do próprio coração, um coração de literatura. Tem algo na maneira como ele escreve que leva as pessoas a amá-lo ou odiá-lo. Não poupa nada nem ninguém.

Tudo começa por algum lugar. O Escritor leva consigo uma chávena de café, acomoda-se à frente do próprio computador portátil, cujos avisos de «a memória está para o fim» começam a lhe dar nos nervos. Acomoda-se no gélido apartamento que fica relativamente perto daquilo a que chamam de centro da cidade. Ele então entrelaça os dedos e inicia o processo de manipulação de realidades.

— P. R. Cunha

Perambular com paciência

No Natal de 1956, o escritor suíço Robert Walser sai para dar um passeio e horas depois é encontrado sobre a neve: morreu como vivera — a caminhar para nenhures.

A história do mundo demonstra que a caminhada é mesmo uma das atividades prediletas dos literatos. O flâneur, como certa vez escrevera João do Rio, cujos apontamentos são guardados na placa sensível do cérebro; as cenas vibram-lhe no cortical. É ter lá o vírus da observação.

Gostar de caminhar, ir por aí, de manhã, de dia, à noite, durante um nevão, ou sob um sol escaldante, porque a arte de flanar remete ao passeio aleatório da vida. Há alegria também nestas imprecisões.

— P. R. Cunha


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Pergunta #19 — António Guimarães (editor de livros) em conversa com P. R. Cunha

[A. G.] Criou para si rituais específicos à escrita, ou mesmo um bunker-esconderijo?

[P. R.] Eu escrevo numa cadernetinha cinza. A cor, em verdade, não me importa. As páginas, no entanto, precisam ser pautadas. Trata-se de uma cadernetinha barata, porque se crio qualquer vínculo daí já não escrevo nada. Olha que Moleskine incrível, com capa de couro, celulose creme, que beleza. Quem é que pode danificar uma preciosidade dessas? Tomo o café antes de me sentar à mesa, café sem nada, precisa ser amargo como um cão acometido de sarna — estranho eu gostar do café desse jeito, mas assim são as coisas. Depois, permito-me un regalo, como se diz, caso consiga preencher vinte ou trinta pautas (eis o porquê das pautas, aliás). Un regalo é basicamente: outra chávena de café. Acontece de às vezes a mesa estar uma verdadeira bagunça, e há folhas para todos os cantos com anotações sobre uma suposta tese a respeito das narrativas do senhor W. G. Sebald que dura já cinco anos, e começo a ter cá sérias dúvidas se um dia vou mesmo terminar essa tese. Imagino a cara do António quando receber essas duas-três-mil laudas sobre o Sebald, e você de certeza vai achar aquilo um disparate. P. R., nós não podemos publicar isto aqui. Eu percebo. Há uma janela que dá para os meus vizinhos, e como não sou de lidar com vizinhos nunca me distraio para a janela. Mantenho um violão por perto e dedilho o violão quando angústias. Escrever usurpa. Não é lá sempre muito bonito como imaginam. Pó de almas destroçadas. Mas não me lembro mais da pergunta.

p. r. cunha