Entulho das letras

Só percebemos o número de livros que possuímos quando precisamos de retirá-los todos das estantes — por motivos variados (limpeza, mudança de lares, reformas etc.). 

Enquanto deitadinhos nas prateleiras, os livros fazem parte do ambiente, mesclam-se com as linhas da paisagem.

É um pouco como olhar para uma parede e não precisar contar cada tijolo para saber que ali há uma parede.

Então o leitor decide remover poeiras e traças que criaram moradas nas brochuras e o que era ordem se transforma em caos.

Aqui a analogia do muro encaixa-se melhor: os livros esparramados no chão fazem lembrar uma casa bombardeada, demolida, com as paredes em pedaços.

De início, para almas mais vaidosas, aquele amontoado de obras pode gerar certo regojizo. O leitor pensa: puxa!, até que já li um bocadinho. Porém, logo notamos o lado obscuro da empresa livresca. 

Veja também o tanto de lixo que acumulamos, obras supérfluas, escritores verborrágicos, o tanto de tempo que perdemos debruçados sobre páginas e mais páginas e mais páginas que não nos entregaram nada.

A angústia se multiplica ao cogitarmos a terrível possibilidade de nunca conseguirmos terminar de ler os livros que realmente gostaríamos de ler, que a ceifa pode estar à espreita, que numa tarde soalheira de domingo acreditamos possuir a eternidade para apreciarmos todos os nossos escritores favoritos, e na manhã de segunda-feira tudo se desmancha, não temos eternidade nenhuma.

Mas as trovoadas passam. O espírito se acalma. Recolocamos os nossos tijolinhos na parede, respiramos o ar renovado da biblioteca, consultamos as cartas de amor de Scott e Zelda Fitzgerald, acariciamos a folha de rosto da Virginia Woolf (exemplar de colecionador) — fazemos as pazes, estamos prontos para novas desilusões.

— P. R. Cunha

Por um distanciamento literário

Não há — ou pelo menos não deveria haver — receita de como se apreciar livros.

Alguns preferem a leitura inspecional, outros demoram meses em determinado capítulo, alguns tomam notas, outros só querem se distrair. Os estudiosos, os que estão à procura de lazer, os que leem para se descrever depois. Mistério, romance, suspense, ficção científica, filosofia, variedades, banda desenhada, biografia, história. Na praia, na aeronave, em casa, na biblioteca, no chacoalhar do autocarro, enquanto se espera o metropolitano na estação.

Numa saudável metamorfose esses hábitos se misturam e se multiplicam e se contradizem e se adequam a contextos específicos.

Neste processo adaptativo parece-me essencial o respeito pela inteligência do leitor. A leitura é lá uma atividade dinâmica, ativa. Quem lê participa, destrói, constrói, recria, nega, confirma. 

Ler como forma de entretenimento/aprendizagem que envolve o imaginário (i.e.: fantasia) de quem está diante das palavras.

Uma das grandes satisfações da leitura parece ser aquela sensação de posse que o leitor por vezes sente enquanto domina determinada obra. Certos trechos nos fazem pensar: céus!, gostava tanto de ter escrito isso.

E talvez essa posse seja mais provável se existir discrição durante o ato da leitura. O autor (e, principalmente, o tradutor) como que se retira do palco, o teatro de possibilidades pertence agora aos leitores, que adequarão as cenas a seu, como se diz, bel-prazer.

Em 2005, quando pela primeira vez me deparei com a obra de W. G. Sebald — o meu escritor favorito — ele já estava morto há quatro anos. As páginas com voz fantasmagórica ofereciam-me uma experiência paradoxalmente revigorante. 

Era mais do que um simples diálogo, era uma espécie de psicografia agnóstica.

Algo parecido me ocorre ao ler Carver, Maupassant, Lima Barreto, Orwell, Sérgio Porto, Calvino, Montaigne, Bernhard, Lovecraft, Burton, Sterne, Cervantes… São conversas secretas, fazemos parte de uma confraria metafísica, longe do escrutínio de toda a gente.

Nesta altura poderiam me perguntar se só consigo ler escritores que já morreram.

Minha maior dificuldade com a literatura contemporânea é o culto à exposição. Isto, aliás, valeria para qualquer outro tipo de atividade criativa.

Meu avô costumava dizer que gostava imenso de Pink Floyd porque não fazia a ideia de como era a vida íntima dos integrantes da banda. Havia qualquer coisa de misterioso nisso. Para o meu avô, as letras, os acordes, a atmosfera onírica dos Floyds eram elementos quase mágicos que surgiam após longos invernos introspectivos. Os álbuns eram o produto dessa fuga (vide Atom heart mother).

Diante das exigências mercadológicas, os escritores precisam de vender. Precisam de estar em toda a parte, fazer palestras, realizar aquelas enfadonhas e disparatadas leituras públicas, e, alas!, precisam de se manifestar em redes sociais.

As redes sociais cibernéticas são a ceifa da literatura, isso é certinho.

Observar escritores no Twitter, no Facebook, no Instagram, brigando, babando, xingando, discutindo, ignorando e sendo ignorados é como assistir a um freak show sem pé nem cabeça.

Restam os autores discretos que não atenderam ao imediatismo das participações digitais, os resistentes. Ou os mortos, que não têm Twitter.

Sim, não deveria haver receita de como se apreciar livros. Mas a privacidade, as idealizações fantásticas, a reserva, a ausência de ruídos externos, o distanciamento saudável são ingredientes dos quais muitos ainda sentem falta ao degustar um pedacinho da torta literária.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #44)

há escritores muito supersticiosos. acreditam em fantasmas, bruxas & nesse tipo de coisas. andaram a escrever uns livros magníficos, mas continuam a acreditar em tretas estranhas.

batalhar em duas frentes literárias ao mesmo tempo, ou «efeito borboleta». pequenas causas — o simples bater de uma borboleta no brasil a gerar (através de intricada cadeia de eventos) um tornado no texas. medidas/escolhas insignificantes, digamos: virar à esquerda & não à direita, podem ter consequências devastadoras na vida de quem decide virar à esquerda & não à direita. (à direita, não sabemos, poderia estar um amor perdido, uma nota de cem dinheiros, um livro do baudelaire fora de catálogo).

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diagrama da trajetória do sistema de (edward) lorenz/strange attractor, dependência sensível às condições iniciais; somatórios de erros & incertezas. dois projetos literários podem seguir o mesmo caminho até determinada altura — altura em que pequenas perturbações (i.e. um dia soalheiro dedicado aos prazeres carnais) desviam a dupla & cada um passa a seguir estradas distintas. assim:

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curiosamente, o fractal representado pela trajetória do sistema lorenz/strange attractor/dois projetos literários lembra o formato de uma borboleta. porém, nada premeditado. obra do acaso.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #38)

o menino acorda com os gritos da briga dos pais. é o quinto, ou melhor, o sexto domingo seguido que isso acontece. o menino acha que os pais brigam aos domingos porque é justamente o dia em que o pai, motorista de trator, fica em casa. os gritos trafegam em todas as frequências audíveis: graves, agudos, médios etc. o pai claramente é o contralto da orquestra. a voz da mãe modula-se de acordo com o andamento da partitura: por vezes tenor, daí soprano, noutras vezes barítono. a sinfonia é insuportável, pensa o menino. nos dias da semana, os pais não brigam porque cada um fica, como se diz, «na sua». o pai a dirigir trator, a mãe a vender miudezas na quitanda da dona célia, uma senhora redondinha que nunca tira o lenço da cabeça. o menino está claramente a desenvolver uma aversão aos domingos. ele sai de casa para arejar os próprios pensamentos. o sol da manhã já se mostra cruel. o menino vai até à beira do rio. a água do rio que passa & jamais volta, ele lera qualquer coisa do gênero na biblioteca da escola, em algum livro sobre o conceito de tempo, passagem do tempo, entropia, algo assim. o menino agacha-se & ao colocar a água na boca ele pensa que ninguém jamais tocará naquela água novamente. ele agora reflete se deve cuspir a água de volta para o rio, a ver se o acaso levaria aquela mesma porção de líquido às mãos de uma outra pessoa. antes de decidir (se cospe ou não cospe), o menino escuta um barulho distante de tiro de pistola. os pássaros assustados abandonam apressadamente os galhos das árvores. & o silêncio. aquele silêncio de morte, tão comum aos domingos, sussurra o menino.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #37)

em um dos eventos mais (quiçá o mais) emblemático da poesia romântica, coleridge & keats apertam as mãos em sinal de reverência mútua. meses depois, ainda sob os efeitos inebriantes do encontro, coleridge confessaria: «senti a morte naquela mão».

trecho do poema A BOLA (inédito & [propositadamente] incompleto)

o escritor segura a caneta
tal jogador domina a bola
apenas o instrumento de trabalho
nada quer dizer
se dentro de si o ar se perde
pressão atmosférica
há pelés, ronaldos,
maradonas, zidanes, baggios,
a mesma bola, mas quanta diferença
no tratar, no jogar, no drible, no gol
a pena literária, igual:
paveses, sebalds, machados,
barretos, styrons —
como pode
é a mesma caneta
a mesma bola
mas outras mãos
outros pés
& o abismo interior
a dividir os meios.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #32)

assolado pela dúvida & pela inconstância do próprio trabalho, otto rank confessa numa digressão epistolar que em diversas ocasiões pensara em desistir da escrita, pois já existe um excesso de verdade no mundo, ele diz, uma superprodução que aparentemente não pode ser consumida. qualquer pessoa que tenha publicado livro & cometa a insensatez de entrar numa livraria para analisar (i.e. contar) estantes abarrotadas de obras, milhares-&-milhares de obras, corre o risco de perder-se na vala dos verbos. filas infinitas de brochuras alheias & a tua está ali também, intrusa, deslocada. que alguém abra o teu livro & decida levá-lo para casa não deixa de ser um capricho do acaso. conta-se com a sorte. &, como se sabe, a sorte não é necessariamente a deusa mais aprazível do panteão.

«se não sabemos para que porto ir
nenhum vento é favorável.» (sêneca)

ler sêneca me faz lembrar que as ondas por vezes se agitam, que quando elas batem furiosas no casco é justamente a altura em que o barco mais necessita de um capitão firme & seguro de si. o mesmo acontece com a embarcação do escritor. não se deve fugir da escrita quando a realidade sacoleja a cabeça literária, quando a vida se mostra irascível. porque se as coisas não andam lá muito bem, a boa & velha dupla caneta/papel ameniza angústias. tu sentas à mesa, anotas frases, o relógio como que desaparece, o tempo deixa de existir, estás de repente suspenso, a quarta dimensão (ou a hipótese das cordas quânticas, multiversos, teoria unificada [do pequeno para o cósmico]) agora faz todo o sentido para ti. foster wallace, henry james, tchekhov (et al.) diriam que esse alheamento quase místico é o mais próximo da imortalidade que se pode chegar.

P.S.: NEURASTENIA (ALGUMAS COISAS DEPENDEM DE NÓS, OUTRAS NÃO)

os exercícios do crossfit da semana passada deram-me calos nas mãos, que se transformaram em bolhas, que abriram & revelaram bolhas dentro das bolhas numa sucessão que deixaria a alice de lewis carrol um bocado irrequieta. não demorou nada &, noite após noite, banho após banho, meu organismo começou a fechar essas bolhas, os calos também desapareceram. & ao invés de me admirar diante dessa eficiência genética, desse conveniente processo regenerativo, senti foi pavor. medo de habitar este corpo autônomo que cura bolhas por si só, sem qualquer intervenção de «minha parte» (o que quer que «minha parte» signifique nesse todo que se desloca pelo espaço-tempo & que se vira quando alguém na rua grita o meu nome).

— p. r. cunha

Carta aos leitores

(PENSAMENTO INTRODUTÓRIO: se tu tomas o café enquanto escreves é bom saberes que eventualmente o café cairá na superfície da tua mesa, causando grande transtorno.)

Damas e cavalheiros,

Há momentos na vida do animal humano em que tudo parece acontecer/surgir no mesmo período, mesma época, mesmo mês, mesmo dia. Mas não falo isto com aquele já tradicional azedume do funcionário contemporâneo (vide estereótipo) que reclama do excesso de afazeres da firma, da casa, da sociedade, de tudo, sente-se claustrofóbico, inútil, desesperançoso. Consigo compreender com cada vez mais clareza que o facto de eu ter passado por, como se diz, poucas-e-boas na última década ajudou-me a consolidar a casquinha que me isola das feridas da procrastinação. Os Cure têm uma música que resume bem a coisa toda; chama-se Sleep when I’m dead. Organizo o próprio cronograma com parcimônia e procuro cumprir a próxima tarefa depois de ter terminado a atividade anterior.

Um passo de cada vez, diria um antigo.

Hoje tentarei responder aos leitores que me enviaram mensagens nas páginas deste blogue e também àqueles que preferiram a comodidade dos emails. Infelizmente, é com certo pesar que vos digo que o número de cartas de papel que recebi neste ínterim foi zero.

Eis:

Coitada da Flávia, é culpa da Flávia… mas pensemos também naquele que precisa de responder que «não há Flávias por aqui». Sobre virar o pobre do besouro amarelo e o orientar para a janela: não posso fazê-lo, pois são personagens (e besouros) de celulose. A coisa toda ganharia ares de origami. Em vida real, porém, teria virado o besouro amarelo, com certeza. Outra: falam connosco como se tivéssemos culpa. As pessoas retratadas nos textos de ficção: tudo de mentirinha, não (necessariamente) condizem com a realidade do autor. Sim, nada é para sempre. Era uma fábula em 64 trechos, na verdade. Estou a caminhar algures, inclusive pelas vias do suspense. O menino também aprecia a geleia de morango, plausível. Obrigado por gostares (sabes que estou a falar contigo). Pode parecer travessura de minha parte, mas acho que o Superman das bancas de jornais tem um bocado a ver com o Übermensch de Also sprach Zarathustra — ambos possivelmente impossíveis. Não há mais botões de curtir nas páginas do blogue. Mas parece que não consigo retirar essa funções da plataforma WordPress (página interna dos utilizadores, por exemplo). Então, tecnicamente, a estrelinha das curtidas ainda existe. Também acharia muito giro transformar os devaneios em banda desenhada. Quem sabe? Ainda sobre os likes: a vossa leitura me interessa imenso, são as estrelinhas que me parecem um bocadinho supérfluas, não acham? Respeito/cultivo/encorajo a diversidade de modos na chamada blogosfera (o que quer que isto signifique), apenas calhou de a minha natureza criar certa aversão às trocas: lê o meu textinho que daí leio o teu textinho. É capaz de funcionar para outras pessoas, a mim, pelo menos, não funciona. Também prefiro o «show, don’t tell», é bem o segredo da empreitada, aliás. Há muitas distrações, aqui, ali, acolá, distrações para todos os lados. Não saberia lhe dizer o que significa «receber notificação no email de resposta ao comentário». Eu sempre desativo todas essas mensagens automatizadas. Nadamos em mares profundos, pois não. Alguns se afogam. A tua descrição de pós-modernidade pareceu-me um bocado moderna — principalmente a parte do «ninguém se importa, nada importa». Apesar de achar que era assim também em tempos remotos, o que muda é a quantidade de meios para compartilhar certas nulidades (reverberação, eco, amplificadores sociais etc. etc.). A máquina de escrever nunca está estressada; o piloto da máquina de escrever, bom, talvez, às vezes. Pedantismo à parte, gosto de compartilhar perguntas importantes para épocas importantes. A simples dicotomia sim/não: é tudo o que se precisa dizer em determinadas alturas.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #22)

a revigorante liberdade de se escrever qualquer coisa à maquina numa manhã parcialmente nublada depois de gladiar-se com pensamentos intranquilos. cortinas abertas. ampla — a janela. café com baileys (o suficiente para ser tachado de alcoólatra pela parcela mais puritana da população) &tc.

querer-se-ia dizer: chegará a altura em que não teremos mais vocabulário (e.g. palavras adequadas que não se percam em metafísicas paradoxais) para designar as nossas eras. […] modernidade, pós-modernidade. certo, & agora? o que vem depois do pós? super-pré-modernismo — com uma escola arquitetônica cujo mentor seria uma mistura andrógina de oscar niemeyer com le corbusier? idade dos robôs, & daí a coisa toda meio que se reiniciaria («reboot», à guisa de descontração linguística). robôs que sonham com discussões filosóficas a respeito do tempo em que vivem & publicam os próprios apontamentos num sítio web com diagramação, como se diz, «clean». não é estranho? muito estranho.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #21)

considerações sobre nietzsche — providencialismo. 

nietzsche não matou deus, apenas anunciou o funeral. se possível, evite atirar no mensageiro. achava-se que o divino seria substituído pela música. mas não foi. richard wagner era (pausa dramática) «demasiado humano». quem não gosta de um clichezinho filosófico é mulher do padre (assim falou a sabedoria do povo). basta abrir as janelas para se perceber que lá fora ainda procuram um substituto (sic) à altura. oh, deus…

[os espaços vazios, como escrevera certa admiradora de palavras cruzadas, estão aí para serem preenchidos.] 

algumas pessoas adoram sorvete de morango, outras adoram sorvete de chocolate. o problema é quando a pessoa que adora sorvete de chocolate joga o sorvete de morango de alguém no chão & diz: o seu sorvete é terrível!, inadmissível você adorar sorvete de morango.

a ideia do eterno retorno — muito já se falou sobre isso também. nietzsche levanta um tridente demoníaco, & ri de forma perturbadora (estou a descrever uma caricatura do século 19) enquanto garante que o animal humano viverá sempre a mesma vida, morte após morte, um looping eterno de mimese.

pois trate de abaixar o tridente do bigodudo. nietzsche é bom personagem.

veja só.

suponhamos que alguém diga que você viverá a mesma vida durante toda a eternidade. sim: você morreria, nasceria, morreria, nasceria. mesma vida. a ideia pode/deve assustá-lo imenso se você não faz nada além de encher a pança com «papas fritas con queso» & assiste ao programa do fausto silva todos os domingos (àquelas tardes azuladas que metem medo). mas suponhamos que você tenha tido uma vida bem digna, movimentada, aprendeu muitas coisas, viajou, conheceu gente à beça, apaixonou-se, você foi um artista respeitado, excelente modelo de paternidade &tc. agora você está no leito de morte & diz para consigo: que formidável existência a minha, poderia vivê-la novamente de muito bom grado. 

pimba!, moribundo. acertou na mosca. nietzsche orgulhar-se-ia de si.

viva de uma forma plena, divirta-se, ame, crie, busque novos conhecimentos, novas experiências, escreva, cante, pule, brinque, dance, construa a própria trajetória de um jeito que a suposição «eterno retorno, viver a mesma vida para sempre» não lhe assuste (tanto assim).

— p. r. cunha