Armadilhas literárias

Está o escritor presente em tudo o que escreve? As histórias, ou melhor, estórias que ele publica são autobiográficas? É legítimo fazer-lhe aquelas perguntas que tanto inquietam Orhan Pamuk — a saber: isto que o senhor escreveu realmente ocorrera?, o senhor passara por todas essas coisas? Diversos estudos psicológicos procuram compreender os pormenores do discurso daqueles que contam mentiras; se é ou não possível acreditar numa mentira caso essa mentira seja repetida inúmeras vezes etc. Noutros termos mais literários: pode o escritor confundir-se com a própria ficção? Neurocientistas apontam que a memória é traiçoeira. Mesmo se o emissor, com as melhores das intenções, garantir que está a falar a verdade, essa verdade pode se mostrar bem distinta dos acontecimentos ocorridos. Recordamos de forma equivocada e parece claro que essa sinuosa via neurológica levar-nos-ia a paradoxos absurdos nos quais a Verdade (com V maiúsculo) é apenas uma concepção artística. Ao passo que deveria de existir uma espécie de acordo tácito entre aquele que descreve e aquele que lê. Se o autor se identifica como escritor de ficção, voilà, os leitores deveriam apreciá-lo como tal. Mesmo que a verdade lhe sirva de alimento criativo, o que ele está a contar são representações (ilustrações, se preferir). Os envolvidos que não levarem esse acordo em alta conta correm o risco de caírem naquele obscuro vale descrito por Henry James — onde o observador se vê também como um estranho e perdido personagem.

— P. R. Cunha

Cosmologia de uma viagem aos Andes chilenos – terceira parte (breve história da criação do céu, da terra e da angústia)

Não é bem o estímulo de ser lido que me faz querer escrever — pensei enquanto tentava desenhar os contornos da cordilheira, cicatrizes geológicas que se estendiam ao longe. Obviamente que atingir o sistema neurológico de um outro ser humano, causar reflexões ali dentro (ou pelo menos ter essa pretensão) mostra-se uma importante potência motriz que acaba por manter o movimento da caneta até ao ponto final. 

(Os traços por vezes indecisos em busca de um melhor entendimento de si, das coisas, de tudo… do nada [encore].)

Trata-se mais de uma necessidade, uma psicose, um vício. Sim, sem dúvida que há muito de vício nisto de escrever. O efeito alucinógeno da abstinência, o córtex orbitofrontal a processar lentamente os canais emotivos, decisões tomadas de forma intempestiva, a memória é afetada. Que o leitor experimente ficar dias sem beber água, ou sem ingerir alimentos e de certeza compreenderá fisicamente o que estou tentando dizer.

Agora a bandeira do Chile balança sobre o portal de uma estação de esqui por onde uma torrente mais ou menos contínua de turistas entra e sai. A maioria segura um telemóvel, ou um tablet: jovens e adultos que averiguam no Google Maps se realmente estão onde deveriam estar. É provável que muitos desses turistas não consigam se divertir hoje, pois deixaram problemas demais em casa.

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Acontece muitas vezes de adquirirmos/acumularmos tantas responsabilidades que chegará o momento em que o nosso organismo pedirá clemência, porque não deu conta. Os problemas se multiplicam exponencialmente e a pessoa então se retrai num casulo, move-se pouco, as tarefas mais simples (ir ao mercado, encontrar com os amigos, assistir a um filme) mostram-se inatingíveis. Fica-se como que paralisado, não consegue sair do quarto, é agora uma montanha, uma custosa placa tectônica que só se mexe quando diante de algum cataclismo — ou quando decide se esconder para sempre no mar de magma sob a crosta terrestre.

Eu mesmo sentia-me muito consciente da minha própria solitude, ali sentado a desenhar os Andes. Uma existência à Samuel Beckett: sempre um bocadinho isolado do mundo, a tentar explorar o ardiloso funcionamento da minha cabeça. E toda a vida a girar em torno desta cega obsessão para escrever literatura. 

Beckett percebera que as sombras contra as quais havia lutado para manter longe de si, longe dos amigos, dos familiares, buscando ser agradável, espirituoso, animar o ambiente etc., Beckett percebera que essa escuridão era, de facto, a fonte de suas inspirações criativas. Sempre viverei deprimido, ele contara para um jornalista francês, mas o que conforta é a clareza de que agora posso aceitar esse lado negro como o lado dominante da minha personalidade.

Encarar os demônios que atormentam sobremaneira, fazê-los trabalhar para si, e depois redigir o que se passa consigo num idioma mais acessível e elegante. Numa palavra: transformar depressão em criações.

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É provável que os acumuladores de responsabilidades sociais vejam nesse modus operandi uma rotina melancólica, insuportável, claustrofóbica. Mas para quem se deu conta de que a escrita é a atividade que realmente importa, essa epifania é o último bote salva-vidas a flutuar errante no convés.

— P. R. Cunha

Tipos que descrevem

No início de cada curso de escrita criativa costumo instigar os participantes a responderem à famigerada pergunta: o que é um escritor? Não se trata de uma retórica socrática, eu realmente não sei a resposta correta — se é que há resposta correta.

Na escala mais primária, escritor seria aquela pessoa que escreve. Certo? Trata-se, porém, de uma definição deveras abrangente que só faz germinar novas indagações: os jornalistas são escritores?, e os escribas?, qual seria a diferença entre o autor Herman Melville e Bartleby, o jovem escrivão pálido?

Alguém, de certeza, sairá ofendido.

Muitos sugerem distinguir o escritor-artista daqueles que utilizam a linguagem e as palavras para fazer textos sem fins literários. Interessante segregação. É claro que haveria ainda a ardilosa tarefa de se definir o que é artístico, o que é literário. 

Gay Talese e Tom Wolfe sem dúvida não se incomodavam quando eram chamados de jornalistas, e as reportagens que escreveram superaram inúmeros romances pretensiosos que foram lançados na altura em que os dois publicavam artigos em jornais e revistas. Talese, inclusive, reuniu diversos desses textos numa coletânea chamada Writer’s life (Vida de escritor [lançado no Brasil pela Companhia das Letras]).

Os alunos do curso então começam a se perguntar se escrever é realmente um trabalho — no sentido industrial do termo. Surge a figura do flâneur, o ocioso, o dândi comum ao século XIX que fora retratado por Baudelaire como «errante solitário que perscruta, persegue, percorre o inferno urbano, vive de rendas, tem todo o tempo disponível para si».

Marcel Proust talvez seja um dos arquétipos mais emblemáticos dessa belle époque da vadiagem, e muito provavelmente porque representava a transição do antigo modus operandi (nostalgia) para as incertezas que assolavam o mundo depois da Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar que Proust escrevera boa parte de Em busca do tempo perdido deitado na cama.

Outra figura recorrente é a do jogador. Os amadores jogam, apostam, competem, enviam os manuscritos às editoras, aos prêmios. E somente quando são publicados (e recebem pela própria criatura [ainda no contexto mercantilista]) é que podem se considerar «escritores de verdade». A analogia com o concurseiro mostra-se quase inevitável. Aquele que estuda para concursos, por mais embasamento teórico que possua, não pode ser chamado de funcionário público até que seja aprovado nos exames.

São respostas livres, despretensiosas, aleatórias, um bocadinho polêmicas. O próximo curso de escrita criativa começa esta semana — e não vejo a hora de poder apreciar novas hipóteses sobre o que é, afinal, um escritor.

— P. R. Cunha

Se me permitem fazer referência a experiências pessoais

Parado
Diante da minha biblioteca
Quase aprendo a me calar

A minha biblioteca é um organismo vivo. Quem também cultiva uma sabe do que estou falando. Os livros que possuo dizem mais sobre a minha personalidade do que qualquer voz humana. Biblioteca — coisa curiosa, holograma das próprias aspirações. A seção de história alimenta a memória, não me deixa esquecer. A prateleira de filosofia (com Nietzsche, Adorno, Montaigne, Sêneca, Platão, Benjamin, Horkheimer, Heidegger [e não só]) traduz os pensamentos. Enquanto os romances — de Flaubert a McEwan — tratam das mazelas emotivas. Cabeça, coração, e alma. Há também os livros pelos quais um dia me apaixonei imenso, até pedir o divórcio, colocá-los numa caixa e doá-los. Livros, portanto, que fazem e desfazem, que ensinam sobre a transitoriedade de tudo. Livros de folhas, ao mesmo tempo resistentes e tão fáceis de rasgar.

— P. R. Cunha

Só mais um rostinho bonito (e indefeso) no capcioso universo literário

Dizem que todas as profissões criam para si um conjunto de maneirismos — uma espécie de manual de etiqueta informal que ao fim e ao cabo acaba definindo um bocadinho esta ou aquela área de atuação. Penso nos uniformes de guerra, nas perucas dos juízes, no jaleco branco a mostrar que fulano é médico e confiável, nas patentes aeronáuticas, penso na indumentária alternativa dos que trabalham com publicidade, nos homens e mulheres hightech que praticam o jogging pela manhã e depois levam os próprios animais (cães, gatos, porquinhos da Índia) à sede de empresas com edifícios «amistosamente ecológicos» tais como Google, Facebook, Microsoft. São esteriótipos. E como acontece muitas vezes com as imposições arbitrárias, os esteriótipos têm também qualquer coisa de cafona, de surreal. Nunca compreendi, por exemplo, os porquês de os políticos brasileiros vestirem terno e gravata. O Brasil é um país tropical com temperaturas diabolicamente infernais. Uma terra a arder e mesmo assim os gajos se metem em fatos de algodão, ficam tão ensopados e fedorentos quanto um gambá silvestre depois de fugir do Leopardus spp. — popularmente conhecido como gato-do-mato. No entanto, é provável que no quesito «brega casual» nenhuma cafonice consiga superar a dos chamados (pseudo-)intelectuais. Christopher Hitchens dizia que não conseguia ler o livro de autores que tirassem retratos com a mão no queixo, a fazer poses de: mamã, estou na orelha de um livro, o meu livro, sou mesmo muito importante, passo os weekends a ler Tolstói, analisando os pormenores do formalismo búlgaro. Ou mesmo a postura de pessoa fragilizada pelas mazelas do mundo, a citar Bertrand Russell fora do contexto. O desabafo vem a calhar, porque dia desses um jornalista solicitou-me fotografia à guisa de ilustração — ele escrevera uma nota a respeito de Paraquedas. Acontece que depois ficou deveras aborrecido com a imagem que eu lhe enviara (uma foto descontraída em que estou perto da piscina, com t-shirt branca e tênis de beisebol). Não tem nenhuma mais bonitinha?, ele me perguntou. Pedi que definisse o adjetivo com mais esmero. A resposta: sei lá, uma com a mão no queixo, essas fotos que vocês (sic!) costumam mandar para a imprensa.

— P. R. Cunha


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Crasso exemplo de autor-fragilizado-pelas-intempéries-do-mundo-com-a-mão-no-queixo (a mídia parece adorar esse tipo de pose) ©BWC Photos

Todos os papéis do mundo

Já escrevi algumas vezes que este blogue iniciou-se depois de um período particularmente difícil de minha vida, e desenvolvera-se na esperança de conseguir desafogar, como se diz, tudo aquilo que eu estava a produzir em excesso, o material que ficava guardado dentro de gavetas acumulando poeira e a virar casa das traças.

Não havia, ou melhor, jamais houve qualquer interesse financeiro, ou demandas arbitrárias, ou sistema de trocas indecorosas, ou desejos por um número maior de leitores etc. Apenas um despretensioso distrair-se que no decorrer dos meses transformara-se num dos exercícios mais saudáveis e edificantes para a profissão que eu escolhera — a saber, escritor de literatura ficcional.

A jornada começou deveras tímida. Numa altura, só a minha mamã entrava aqui para ler as coisas que eu escrevia. E mesmo assim, com o único propósito — ela mesma confessou-me depois — de saber «se estava tudo bem, se o filhote estava a recuperar-se adequadamente das tormentas pelas quais passara».

Até que, de súbito, notei um fluxo maior de leitores. Não era mais somente a minha mamã, era a Dulce Delgado, a Rejane Leopoldino, o Gabriel Moura, a Miau, a Cristileine Leão, a mãe de Ludo e Vico, a Thaysminy Marques, o Brunno Vittorazze, a Léo Campos, a LPD, o Jorge Sasgarante, a Ana Gimenez, a Irina Marques, a AmagM, o Jorge Santos

E como se a interação virtual não bastasse — e nunca, nunca basta —, duas das pessoas mais singelas e adoráveis que pude conhecer através deste blogue mandaram-me regalos reais na semana passada. Dois seres humanos com histórias parecidas e que muito provavelmente não sabem (ainda) da existência um do outro: a Danielli Cavalcanti e o Emanuel Melo.

A brasileira Dani, que hoje mora em Kolding, Dinamarca, enviara-me os perfumes da Flor de Linz, um livro sobre sair, sobre chegar, sobre migrar, sobre a(s) tentativa(s) de encontrar casa(s) algures. Uma obra que devorei de bom grado ao jardim da minha residência, por vezes deitado numa rede a lembrar-me dos primeiros escritos de W. G. Sebald, que durante toda a vida procurou amenizar angústias e que numa altura chegara a dizer que seria (e realmente o foi) um eterno exilado.

Do Emanuel, que possui um coração gigante — cujos detalhes não caberiam nos propósitos enxutos desta publicação —, recebi Memória, an Anthology of Portuguese Canadian Writers. O conto que ele escrevera encontra-se na página 14 e se chama «Avó Lives Alone», que apenas aparentemente trata de uma velha senhora que levanta às cinco da manhã para assistir às missas portuguesas na televisão. No entanto, como já é da praxe nos textos do Emanuel, as linhas começam de forma sutil e elegante a problematizar os pormenores de uma família que teve de sair do próprio país a viver para o estrangeiro, os trejeitos de uma Avó que sente saudades da terra e que busca refúgios no ecrã da televisão — sem necessariamente encontrá-los. 

As vias biográficas da Dani e do Emanuel mostram-se análogas. Ao ler o texto de ambos foi-me impossível não imaginar uma espécie de diálogo: Dani a escrever para o Emanuel, Emanuel a responder para a Dani. Os dois tiveram de se despedir daquilo a que costumamos chamar de pátria, os dois cruzaram o Oceano Atlântico — ela na direção europeia, ele na direção canadiana. Os dois precisaram de se reinventar e encontraram na literatura uma fonte mais amena, um canal aberto através do qual tentam compreender os mundos em que vivem.

E, finalmente, deixo-vos com esta opção aprazível, que aprendi ao me deparar com as palavras impressas da Danielli Cavalcanti e do Emanuel Melo: apesar dos traumas, apesar das dores, apesar das distâncias, das saudades, dos arrependimentos, dos desafios, apesar de tudo, sempre teremos à nossa disposição uma simples folha em branco para nos convalescer. Pode até não significar a cura total, mas pelo menos ajuda imenso no processo — ameniza-nos. Faz-nos seguir para diante, não importa se para o Norte ou se para o Sul.

— P. R. Cunha