Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha

Hotel Brasília

A impressão é a de que cheguei ao fim do mundo. Está tarde, mas posso ainda escutar os barulhos do centro, os autocarros a sair da rodoviária, a motocicleta rangendo, os gritos de amor no quarto ao lado, o choro de uma mulher idosa, marteladas na parede (o que estariam a pregar?), a televisão, o noticiário, um abajur ligado que não ilumina a leitura de ninguém. No restaurante do primeiro piso, vi um garçom aflito porque as mesas mostravam-se impecáveis, as toalhas brancas, os pratos alinhados, os talheres reluzentes, mas algumas taças de vinho, que supostamente deveriam brilhar de tão cristalinas, estavam borradas de batom — alguém lhe dissera às costas: tranquiliza-te, Francisco, ninguém desce para comer a uma hora destas.

— P. R. Cunha

New York, New York

Em 1996, papá nos levou para conhecer Nova Iorque. Era o mês do meu aniversário de onze anos e mamã comprou-me uma miniatura da Estátua da Liberdade enquanto visitávamos Long Island. A moça que nos vendera o suvenir dissera que a Estátua da Liberdade original tem noventa e três metros de altura, e pesa 225 toneladas; agora a miniatura que acabávamos de adquirir tem apenas vinte centímetros e pesa não mais que trinta gramas. Essa diferença de escalas fascinou-me imenso e passei a levar sempre comigo a Estátua da Liberdade. Numa altura da viagem papá contratou um guia chamado John, cujo objetivo era nos mostrar os principais sítios da metrópole que nunca dorme e acabei esquecendo o meu presente no autocarro da empresa de turismo. Assim que chegamos ao hotel telefonamos para o John a ver se alguém havia encontrado uma Estátua da Liberdade, com estas e aquelas características. John lamentara muitíssimo, dissera que não, mas que entraria em contato se achassem qualquer coisa. Duas semanas depois, quando estávamos a voltar para o Brasil, vi uma criança loira e serelepe no aeroporto John F. Kennedy a segurar uma Estátua da Liberdade miúda, cerca de vinte centímetros, relativamente leve. Era a minha Estátua da Liberdade, tenho quase a certeza disso.

— P. R. Cunha

Livraria Cultura

Dou continuidade às obsessões geográficas das pessoas que escrevem (vide texto anterior) e sento-me num café de livraria, shopping mall, longe do centro da cidade, transeuntes a observar com ares filosóficos — mão no queixo, cabeça levemente inclinada etc. — as vitrines com móveis de toda a sorte. Se fechamos as pálpebras, o aroma do expresso que acabara de sair da máquina como que ganha outra vida, intensifica-se, e logo passamos a escutar também os cumprimentos de empresários, conversas entre pais e filhos, uma proposta de casamento a sério, o riso confuso da moça que não sabe se quer aceitar a proposta de casamento a sério, o som de um talher que cai ao chão, um cliente a pedir a conta, outro a pedir a torta do dia (massa integral, recheio de morango), o suspiro de uma senhora grisalha que espera, o fechar de um livro, tantos dedos que viram páginas, as batidas graves e amorfas de uma música eletrônica ao fundo, como um réquiem ao silêncio.

— P. R. Cunha

As diminutas partículas de poeira que se podem ver flutuar na claridade (três haikus [aparentemente] desconexos)

1.
céu cinza
jogo de futebol —
o comboio começa a apitar

2.
distante o poeta
esquece relógios
vira a página cinquenta

3.
corações acesos
lareira apagada
aguardamos pelas estrelas

— P. R. Cunha

Filosofia: tem alguma coisa no queixo dela

A porta do elevador abriu. Uma mulher estava com o rosto praticamente grudado ao espelho, como se tentasse espremer um cravo. Soava aquela trilha sonora típica de elevadores, Nelson Riddle, Percy Faith, talvez Dave Brubeck, e a mulher não se importara com a minha entrada, dissera apenas: tem alguma coisa no meu queixo, vês? Cheguei ao andar desejado e toquei a campainha. Estamos em casa de Patrick, que é professor de filosofia da Universidade de Brasília. A esposa dele, Marluce, se aproxima com uma travessa de salgadinhos (basicamente coxinhas, quibes, enroladinhos de salsicha, pastéis de ricota) e mais por educação do que por curiosidade me pergunta se teremos problemas ardilosos pela frente. Há problema ardiloso pela frente, eu respondo enquanto belisco o pastel de ricota, muitos gostam de comparar o problema com a pedra. «Certo problema é-me uma pedra», dizem. Acontece que com a pedra, eu continuo, com a pedra também é possível praticar o curling — pedra de granito + agasalho + vassourinha + calçado adequado para não escorregar na pista de gelo. O jogador de curling permite que a pedra deslize sobre o piso de gelo. A pedra, como ressaltei, é a metáfora do problema: deixe-a ir. Marluce se afasta sem dizer palavra. Claramente me acha um idiota.

— P. R. Cunha

Descobertas incompletas

Sento-me à mesa da cafeteria, peço um expresso médio, acendo o Marlboro:

Nos primórdios do século 20, em contexto de guerras-que-se-alastravam, Max Horkheimer alegou que o cerne da vida é atormentar-se e morrer. Clara pitada de azedume schopenhaueriano, cuja filosofia do pessimismo norteara diversos outros pensadores da chamada Escola de Frankfurt — universidade do abismo. As primas Culpa e Contradição também estariam à espreita, escondidas atrás do arbusto, prontas a atazanar o vivente pedestre, de preferência em circunstâncias melancólicas. Haveria um esforço honesto para manter distância dessas mazelas taciturnas, e a essa tentativa Bertrand Russell (outro filósofo pouco inclinado ao sorriso) chamara de «a parcela da felicidade à qual todos nós, ao que parece, temos direito». Seres angustiados em busca de antídotos para amenizar sofrimentos, como já se escreveu em demasia. Almas errantes à mercê de um universo que não é bom, nem mau, e tampouco se importa em nos fazer felizes ou infelizes. Mas dentro desse teatro de indiferenças — ainda a ecoar as palavras de Russell* — cada um teria a possibilidade de construir para si uma série de valores e desejos. Caberia a nós, portanto, estabelecer uma vida satisfatoriamente plena. Mesmo que em boa parte do tempo tal plenitude se mostre inalcançável.

— P. R. Cunha


*Sugestão de leitura: Bertrand Russell, No que acredito (L&PM Pocket, 2010).