Pensamentos (aparentemente) arbitrários de um tipo satisfeito com a própria fazenda literária

§ No início dos anos 2000, comprei um telescópio refrator de 110 milímetros com o objetivo de observar as ondas atmosféricas de Júpiter, os sombrios anéis de Saturno, e talvez até descobrir algum asteroide tinhoso que pudesse atingir a Terra — ao qual eu daria um qualquer nome latinizado: Paulus Renatus Letalis.

§ De modo genérico, quem adquire um telescópio refrator de 110 milímetros está basicamente a dizer: sou amador, sim, mas não quero apenas brincar de Nicolau Copérnico. Trata-se de um tipo com certa disciplina, que gosta de analisar os astros celestes com afinco, e no entanto não pretende pôr as receitas (e a sanidade) da própria família em risco largando tudo (emprego etc.) para se transformar num astrônomo a tempo inteiro.

§ Meus pais formaram-se em medicina, de forma que, em criança, não tive uma biblioteca repleta de romances e outros gêneros de ficção. Por vezes eu entrava às escondidas na Sala de Pesquisa, que era como papai costumava chamá-la, e abria aleatoriamente um livro de anatomia só para me deparar com fotos e ilustrações de doenças estranhas, e corpos deformados, e peles com hematomas inacreditáveis.

§ Passei muitos anos a lamentar essa lacuna na minha chamada «Formação de Ficcionista». Lia e ouvia histórias incríveis de autoras e autores famosos que em criança tiveram à disposição verdadeiros haréns literários, mais de mil obras dos mais diversos expoentes da tal literatura-que-vale-a-pena. Os meus pais ofereceram-me, no entanto, bibliografias minuciosas sobre a candidíase, a história da urologia moderna, como curar a infecção urinária, os sintomas do cálculo renal, tratamentos adequados das disfunções miccionais e não só.

§ Falando retrospectivamente, não é de assustar o facto de eu ter me tornado um escritor com inclinações lunáticas.

— P. R. Cunha

Imagens invertidas

Para a Lunna Guedes

Escritor é, amiúde, um ser que gosta de observar. Criatura inclinada à chamada «busca de padrões». E como fica imenso tempo isolado, longe com os próprios pensamentos, acaba que encanta-se quando se depara com um qualquer semelhante — um doppelgänger.

Tais observações podem também desconcertá-lo. Nada é assim tão simples com escritor. Como no caso de Jason Molina, que sentia muita culpa por ser artista, por ter as liberdades de um artista. Molina perguntava-se por que cargas d’água ele não era o sujeito a limpar o lixo, por que cargas ele era o tipo que ficava a observar o sujeito a limpar o lixo. Aquilo não lhe parecia correto. 

Ociosidade constrangedora, dir-se-ia. E o doppelgänger se transforma em antimatéria.

Os físicos explicam que a antimatéria é composta de antipartículas — ou seja, partículas com cargas opostas, diferentes das que podemos encontrar na matéria normal (à guisa de um breve exemplo: as antipartículas dos prótons são os antiprótons [basicamente, prótons com carga negativa]). Quando partículas e antipartículas se aproximam, o resultado é um aniquilamento de grandes proporções. 

Isto é: no mundo subatômico, encontrar-se com um doppelgänger não é nada romântico. Os escritores Edgar Allan Poe e Robert Louis Stevenson pareciam compreender isso melhor do que toda a gente. Deparar-se com um igual com cargas opostas (o estranho caso do dr. Jekyll [Je: «eu» em francês / kyll: corruptela de kill {«matar» em inglês}] e sr. Hyde [corruptela de hide {«esconder», «ocultar» em inglês}]) por vezes pode gerar inquietações irreversíveis.

Os gatos, sabemos, são os doppelgängers selvagens de uma enormidade de escritores — que estimam a independência dos felinos, o apreço pela solidão («Quem não tem cão, caça como o gato», ou seja, sozinho). Mas trata-se de um olhar que também exige certas longitudes. A depender do momento pelo qual passa o escritor, essa análise felina pode deixá-lo irrequieto. Nem todos os gatos vão lhe parecer bichos solitários e felizes. Principalmente quando o escritor percebe (eis novamente a «busca de padrões») que muitos gatos tendem a voltar às casas cujos humanos davam-lhe mais carinho e comida.

Escritor que busca compreender essa sorte de fascínio, pois encontra nessas contradições uma série de possibilidades, de conjecturas, de fins. Então escreve poemas sobre os doppelgängers, sobre os gatos, porque a solitude com ressalvas dessas figuras pode ser a dele num futuro bem próximo. Quer saber, portanto, se numa altura, depois de correr o risco de aniquilar-se, ele também buscará a companhia de humanos que davam-lhe carinho, comida… um abrigo.

— P. R. Cunha

Quasimodo chora

leparisiencapa

Tive a oportunidade, ou melhor, o privilégio de conhecer a catedral de Notre-Dame em 2009, quando voltava para o Brasil do meu «exílio russo» em São Petersburgo. Lembro-me de que quando entrei no monumento um turista polonês, provavelmente a falar com a própria esposa, dissera atrás de mim: querida, isto aqui é tão fabuloso que estou quase acreditando em deus. E por mais que exista uma infinidade de livros, artigos acadêmicos, ensaios contemplativos sobre Notre-Dame, a mim me parece até hoje que esse comentário do turista polonês teve muito melhor êxito no quesito resumir bem o que é possível sentir ali dentro.

Esta segunda-feira um incêndio abominável destruiu boa parte deste que é provavelmente o maior símbolo do estilo gótico. Dizem-se que conseguiram salvar relíquias que se encontravam no interior da catedral, que a estrutura do monumento não corre mais risco de desabar. No entanto, a tragédia expôs um outro tipo de ferida, uma ameaça deveras mais complexa: a vulnerabilidade dos patrimônios arquitetônicos em França e no mundo.

Um fogo incontrolável que durou algumas horas ameaçou afundar 850 anos de História. Os contemporâneos costumam exaltar os grandes avanços tecnológicos desta era high-tech, os telemóveis, tablets, computadores, robôs, as redes sociais, o mercado integrado (sic), mas nada disso parece servir de alguma coisa quando o desafio é preservar a memória e os feitos dos antepassados.

Quem acompanhou pelas televisões o incêndio que atingiu a catedral de Notre-Dame pôde perceber a enormidade de tempo que os bombeiros levaram para chegar até ao local. Justificaram a demora a dizer que o intenso trânsito de Paris, as famosas ruelas de Paris, o planejamento urbano de Paris dificultaram o acesso.

Como se o absurdo fosse lá insondável, descobriram-se — depois que o fogo já havia devorado o pináculo da catedral (a verdadeira extensão dos danos, aliás, não foi ainda avaliada) —, descobriram-se, como estava eu a dizer, descobriram-se que o monumento não tinha sequer um sistema de segurança contra incêndios, não possuía avisadores que acionam os meios de proteção automáticos, aqueles simples jatos d’água que caem dos tetos e ajudam a impedir a combustão etc. etc.

De acordo com imagens oferecidas pelos ecrãs widescreen com mais pixels do que o olho humano consegue perceber, e com as fotografias de super-alta-definição compartilhadas pelos modernos e indestrutíveis telemóveis, Notre-Dame ardeu porque continua ilhada nas imprevisibilidades medievais.

— P. R. Cunha

Criatura de hábitos — uma (quase) sátira

Acordar (de preferência antes das seis / um bocadinho antes do próprio Sol), tomar um duche, pegar o matutino à porta, ler o matutino, fazer o pequeno-almoço — tostex, ou bauru, ou misto-quente, café (leite [opcional]), Pharmaton, suco de laranja, Benzedrina (muita moderação) —, caminhada, regar as plantas, sentar-se à escrivaninha e escrever, dedicar-se à pesquisa, fazer compras, ler o noticiário estrangeiro, aproveitar que o computador está aberto e: 1) responder aos e-correios; 2) publicar no blogue; 3) assistir a documentários diversos; 4) lembrar-se da lista de documentários diversos; ir aos Correios para enviar os livros àqueles que compraram os livros, ir ao crossfit, depois, à guisa de divertimento, uma qualquer leitura despretensiosa (sugere-se Mark Twain, Bill Bryson, O meu pipi [sermões], Ricardo Araújo Pereira, Mencken, etc.), comer uva, maçã, manga, abacaxi, jantar, preparar a bebida noturna (gosto pessoal), conversar com o cônjuge, fumar o tabaco (charuto e que tais), ouvir Beethoven, tomar os sedativos (Valdoxan, Seconal), ir para a cama, eventualmente dormir. No dia seguinte, a mesma rotina — com uma ou outra (pequena) variação.

— P. R. Cunha

Turfe

Pablo acordou e viu a esposa coçando os olhos. Perguntou-lhe: ainda coçam? A esposa respondera que sim, coçam, muitíssimo. Tu devias procurar um oftalmologista, disse Pablo enquanto desligava o ventilador de teto. Tenho medo, a esposa disse, quando coço sinto uma dorzinha estranha, percebes? Pablo não percebia. Ele foi até à casa de banho. Lavou o rosto. Tomou um duche rápido e vestiu a roupa — uma t-shirt branca, calça jeans, tênis. Notou que havia vazamento numa das paredes da casa de banho. Outro vazamento, ele pensou. Pablo comeu quatro bolachas com manteiga, saiu, fechou a porta dando apenas uma volta à chave. Ao trancar a porta pensou em retornar e dizer novamente para a esposa ir ao oftalmologista. Apertou o botão do elevador fabricado por Atlas Schindler. Schindler. Nome que dava calafrios na espinha de Pablo. A porta do elevador se abriu e lá dentro encontrava-se a zeladora do prédio. A zeladora disse: bons-dias, Pablo. Pablo acenou com a cabeça, sem dizer palavra. Ele não ia muito com a cara da zeladora. Na rua, Pablo ergueu o braço para o táxi e o táxi não parou. Pablo odiava imenso quando isso acontecia. Sentia-se invisível, desprezado. Resolveu ir de autocarro. Quando entrou no autocarro um escolar sombrio ficou encarando Pablo. O escolar escutava rap estrangeiro e a voz do rapper estourava os auscultadores do escolar. Pablo sentou-se num dos bancos ao fundo, longe dos olhares agourentos do escolar. Na poltrona à direita dele, do outro lado do corredor, duas senhoras — sessenta/setenta anos, calculara Pablo — conversavam sem cerimônias, como se diz, a respeito das corridas de cavalos. Pablo nunca foi às corridas de cavalos, mas o avô paterno dele ganhara pequenas fortunas apostando nesse tipo de corrida. Há inclusive uma história curiosa na família de Pablo. Dizem que o nome dele é homenagem a um puro-sangue que se destacara pela velocidade, flexibilidade, dorso largo, reto, cabeça com formato fino, dois olhos bem separados (um metro e cinquenta e oito de altura). O avô paterno de Pablo teria apostado nesse cavalo homônimo, morrendo-se logo em seguida de — atestaram os médicos — ataque cardíaco fulminante. Uma coisa leva a outra. Pablo resolveu prestar atenção à conversa das senhoras. A mais velha disse que os comentaristas e os locutores das corridas de cavalos poderiam pelo menos tentar montar num cavalo antes de zangarem-se com os jóqueis, mesmo que nunca participem de corridas oficiais, ela disse, pelo menos compreenderiam a luta, a guerra, a batalha dos jóqueis ao turfe, entenderiam o quão aterrador é montar num cavalo, a ansiedade, ou melhor, corrigiu-se a senhora, a angústia dessa experiência, para que os comentaristas e os locutores pudessem ter alguma empatia antes de destruir, arruinar a carreira de um jóquei. A outra senhora apenas escutava. O autocarro trepidava. O asfalto não estava em boas condições. A voz da senhora era tão cadenciada, precisa, incisiva, gerava tanta calma aos ouvidos de Pablo que ele acabou por se esquecer de si próprio. A pouco e pouco deixara de se preocupar com o conteúdo da conversa. Percebeu que não gostava mesmo das corridas de cavalos, o assunto lhe aborrecia. Chegou a altura de descer na próxima paragem. Pablo desceu e viu que um rapaz com fato esportivo estava a pedir dinheiro. Pablo refletiu que o fato esportivo do gajo de certeza valia mais do que a t-shirt branca e a calça jeans que ele estava vestindo. Achou aquilo estranho. Ali estava Pablo na berma da avenida. Quando passou por uma padaria notou que o padeiro gritava com alguém. Como Pablo não parou para prestar atenção, nunca soube com quem o padeiro estava a gritar. O cheiro dos pães, no entanto, causara-lhe uma espécie de fome, branda, a ganhar intensidade. Mais adiante havia uma loja colorida que vendia bugigangas orientais. Dentro da loja uma dama com olhinhos puxados assistia ao noticiário matinal. Os olhinhos puxados da dama fizeram com que Pablo voltasse a pensar nos olhos da esposa. A loja cheirava-lhe a qualquer coisa agridoce. Pablo continuou a caminhar. Alguém esbarrou nele. Antes de zangar-se com a pessoa, a mulher abriu os braços para abraçá-lo e disse: Pablo!, ao tempo que não nos víamos… Pablo não se recordava da mulher.

— P. R. Cunha

Não abras mão de um ambiente personalizado e bonito em tua casa

Osvaldo estava a lavar louças enquanto Lucy tomava o pequeno-almoço. O nome Lucy é porque a rapariga nascera em Austin, Texas — nome estrangeiro, portanto. Osvaldo lavava as louças de um modo descompromissado, por vezes hostil, furioso. Sim, Osvaldo parecia pouco feliz. Lucy só conseguia ver as costas do Osvaldo. Ela mastigava a torrada com queijo e geleia Queensberry sabor morango e observava as costas do Osvaldo. Amiúde, o Osvaldo resmungava qualquer coisa incompreensível, chutava a porta do armário, mas a Lucy nunca achava que era a sério. Ao deixar os copos sobre o escorredor, Osvaldo refletiu se era possível amar Lucy sem tornar-se prisioneiro do amor por Lucy. Mas Lucy, como já se disse, não percebia nada dos pensamentos do Osvaldo. Ela continuava a mastigar as torradinhas com queijo e geleia Queensberry sabor morango*.

— P. R. Cunha


*Aquilo que importa para os propósitos desta narrativa é: Queensberry sabor morango.

Quarta Nota #8 — Gordon Banks, morte das estrelas (defesa impossível)

O autor deste blogue volta com as notas descompromissadas que deixam a senhora Cassandra (do apartamento 323) com ganas de desbravar o mundo, a despeito dos seus noventa e quatro anos.


Cansado de embriagar-se
verbalmente —
largara o romance
para se entregar
à poesia.

§ Todas as noites o Roberto queixa-se com a esposa: detesto a metalurgia, a metalurgia me causa um verdadeiro asco; e todos os dias o Roberto sai para ir trabalhar com metalurgia. Pode-se dizer o mesmo dos casais que se odeiam, que se desprezam prolongadamente, mas não se separam: talvez porque tenham medo de morrer sozinhos.

§ As bobagens que dizemos para preencher os demorados silêncios.

§ Etc.

§ O que um escritor de ficção diz é bem diferente daquilo que um escritor de ficção escreve. A fórmula é a seguinte:

Vida pessoal do escritor ≠ Vida literária do escritor

§ O Sol — observável ao céu — é uma gigantesca bomba nuclear que, quer-queira-quer-não, irá explodir. Cessa a fusão hidrogênionúmeroatômico1/hélionúmeroatômico2, o interior do Sol perde a batalha contra a gravidade e o núcleo entra em colapso. A jornada é um bocado mais complexa do que isso, mas não precisamos de esmiuçar os pormenores aqui. O importante é saber que as estrelas também possuem ciclos. Elas nascem, vivem e morrem.

§ (Trajetória comum de diversos escritores de ficção: nascer, ler muitos livros, perder-se no mundo dessas narrativas livrescas, eventualmente criar os próprios universos — lidar com a finitude alheia, muitas vezes esquecendo-se da própria finitude. Porém, as páginas dos escritores de ficção também se acabam.)

§ «Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo», é Wittgenstein.

§ Noutras ocasiões, os grandes morrem discretamente, a dormir. Depois de anos a lutar com um cancro no fígado, Gordon Banks, o maior guarda-redes de sempre, faleceu ontem à noite durante o sono. Autor da chamada «defesa impossível» (Carlos Alberto avança desde o próprio campo, dá um primoroso passe à três dedos para Jairzinho, que ganha do defensor inglês, corre até à linha de fundo, cruza para Pelé, Pelé sobe majestosamente para cabecear a bola, um cabeceio enciclopédico, perfeito, para baixo, indefensável — não fosse Banks), o guarda-redes costumava brincar que seria lembrado por estragar um belíssimo tento do Rei do Futebol.

§ Mostraram-me os vencedores dos Grammy e percebi que não conhecia vivalma (Kacey Musgraves?). Lembrei de uma conversa que tive com vovô ao final dos 1990. Ele disse: meu gosto musical morreu de ataque fulminante, e está enterrado no Desert Memorial Park. Vovô estava a falar do Frank Sinatra.

§ A minha hipótese é que numa certa altura (o período pode/deve variar de ser humano para ser humano) perdemos um pouco o interesse, a vontade de adaptarmo-nos às novas tendências. Preferimos continuar com o Frank Sinatra, com o Gordon Banks, com o Thomas Bernhard, com o Johnny Cash, com a Susan Sontag, com o Perec, com a Lispector, com a Cecília Meireles, com a Nina Simone — até ao fim dos nossos dias. 

§ (À guisa de P. S.) Mas a verdade é que ainda estou para conhecer cargo político mais poético do que o da senhora Ana Paula Vitorino: ministra do Mar. E ontem conversei com o músico Flávio Silva sobre os porquês de nunca estarmos satisfeitos — plenamente satisfeitos (e.g. Fulano estipula objetivos [ter casa, família, automóvel para locomover-se], e quando atinge/conquista tais objetivos parece querer pular em novas bacias de inquietações). É que nosso cérebro primata evoluíra para lidar com as intempéries da floresta, ambiente pouco amistoso àqueles que ficam parados (presa fácil), e toda a gente que já comera demais e depois dissera: ufa!, que almoço incrível, estou satisfeito, sabe que a satisfação gera inércia, apetece-nos deitar. Corroborei essas conclusões enquanto voltava para casa escutando The promise, do Sturgill Simpson.

— P. R. Cunha