Uma vez que temos um encontro marcado com uma amiga

Não é fácil de explicar quando (e como) é que o escritor ultrapassa de fato a fronteira para a chamada maturidade. Isso pode acontecer até bem cedo, depois de uma qualquer tragédia que lhe causa traumas — as chamadas cicatrizes da alma. Ou bem tarde, quando já é tarde demais. A escrita, como repetiram muitas vezes, é lá uma arte solitária, e quem a pratica está quase sempre muito particularmente só consigo mesmo. Daí a dificuldade de se perceber alterações. Há também quem defenda o alastramento da ingenuidade; que o escritor livre das mazelas do mundo adulto (i.e. real [?]) tem mais chances de anotar textos honestos. É a romantização do asceta, do retirado, do melancólico, da eterna criança. Imprescindível lembrar que apesar dos esforços de se permanecer completamente alheado, o monge lida lá com alguns seres humanos — e, como costuma ocorrer, cria laços, mesmo que sem muitas complexidades. Aqui o problema é orgânico: as pessoas simplesmente morrem. E não há antídoto eficaz para curar as dores da saudade. Quer dizer: não importa a fortaleza que se cria, o tamanho da murada, a finitude dará sempre um jeito de invadir o bunker do escritor. Rezam as crônicas que somente depois dessas provas, de lidar com a decadência dos queridos, lidar com a própria morte, com a imprevisibilidade da morte, e sentir o gosto de ferrugem que ela deixa atrás de si, somente depois disso o escritor entraria para a fase madura — fase em que não brinca mais com fadas, mas com fantasmas.

— P. R. Cunha

António furioso

Às vezes acontece de eu acordar no meio da noite sem motivo aparente — abro os olhos, tento mexer os pés, não se movem, tento mexer as mãos, nada, a cabeça pesa trezentos quilos, o corpo imutável afunda nos vales do colchão, lembra um cadáver. Começo a suar, estou morrendo, acabou. Quando enfim me recupero dessa angústia terrível, ligo para o António e ele atende furioso: quem é? Sou eu, eu digo. Vai se foder, ele diz, são três horas da manhã. Tive aquele negócio de novo, eu tento me explicar, mas o António desliga. O Antônio desliga e provavelmente comenta com a esposa que não era nada, daí ele abraça a esposa e os dois voltam a dormir. Fácil. Mas eu não durmo, fico apavorado, vou até o computador que está em cima da escrivaninha e procuro no Google: acordar + não conseguir se mover + doença e a busca gera aproximadamente trezentos mil resultados sobre «paralisia do sono».

— P. R. Cunha

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