A obra evolui em direções estranhas e imprevistas

Cansado de ser interrompido durante a fazenda do livro para lidar com sociabilidades, o escritor sonhava em adestrar dromedário para enviá-lo aos eventos que fora convidado em vez de comparecer pessoalmente.

Lançamentos de antologias, almoços familiares, rendez-vous na casa de um ex-colega de escola, leituras poéticas, festas de aniversário, casamentos, bienais, exposições fotográficas a preto e branco — dromedário estaria lá com a elegante corcova representando o escritor.

No alongado pescoço, o mamífero levaria uma plaquinha a dizer que:

«Dromedário frequenta o evento com se fosse o próprio escritor — por gentileza, trocar o uísque da praxe pelo bom e velho copo d’água.»

(Alguém [e o escritor ainda não pensara nisto com a devida seriedade] de certeza estaria por perto para auxiliar dromedário durante os pormenores fisiológicos.)

Em casa e sentindo-se menos culpado, o escritor daria prosseguimento ao próprio livro sem grandes percalços.

— P. R. Cunha

Adjetivos literários

Como todas as atividades que nutrem certo apreço pelas ahm-hamn (limpa-se pigarro invisível da garganta) faculdades encefálicas, a de escritor mostra-se envolvida em brumas de fetichismo e — désolé pour mon français — glamour.

O poeta está a ser retratado pelo fotógrafo. O fotógrafo pede: faça qualquer pose de poeta. O poeta levanta levemente a cabeça, olhos ao infinito, como um marujo que há muito não via terra firme. 

A vestimenta do poeta é alinhada, tons mais escuros à guisa de harmonizar com certas inclinações do espírito.

Já o prosador (romancista, se preferir) geralmente leva um cigarro na boca, faz cara de poucos amigos, finge datilografar uma máquina de escrever, mesmo que nunca se utilize dessa máquina de escrever — trabalha no próprio computador, com o próprio editor de texto etc.

Se for uma fotografia de plano aberto, é capaz de vermos ao fundo uma chávena de café, ou uma caneca de cerveja que vai ao meio, ou, se calhar, ambos.

Noir

A ilustração é análoga quando se trata de uma dama das letras.

A senhorita geralmente possui semblante assustado, de quem entende — e aceita — os azedumes da vida reclusa. O sorriso parece sugerir qualquer desculpa por estar ocupada demais com as exigências literárias.

A dama das letras, não importa a idade, será sempre charmosa, sedutora, inteligente, perspicaz, venenosa, manipuladora, descontraída, de um talento ímpar.

Atributos repletos de nostalgia; peculiaridades que outrora eram levadas em alta conta. Mas, como sabemos, tudo se modifica vertiginosamente.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #30)

a fábula dos três porquinhos narra a trajetória de três irmãos suínos que numa altura dizem para a mãe: é isto!, vamos embora & cada um vai construir a própria casa. (a depender de idioma/região/didatismo/&tc., o início pode sofrer algumas variações específicas [como aquela em que a mãe está {implícita &/ou explicitamente} de saco cheio dos porquinhos & meio que os expulsa para enfim entregar-se ao merecido momento de sossego]. o irmão mais novo — onde ele estava com a cabeça? — constrói casa de palha; o lobo vai, assopra, a palha cai. o irmão do meio, constrói casa de madeira; o lobo vai, assopra, a madeira cai. o irmão mais velho é arisco & ousado, constrói casa de tijolo, o lobo vai assopra, assopra, assopra, assopra, a casa permanece. via de regra, os porquinhos vivem felizes para sempre dentro da casa de tijolo.

essa estória costuma me oferecer interessantes gatilhos filosóficos.

um professor de biologia do ensino médio me dissera certa vez que as árvores com raízes mais seguras são aquelas que precisam de resistir constantemente a ventos devastadores. as árvores frágeis seriam as que crescem nos vales calmos & ensolarados.

«assim como as árvores», conta-nos um antigo estoico, «as pessoas também podem se beneficiar das tempestades & dos ventos fortes — pois as intempéries ensinam a manter a calma, a disciplina; trazem resiliência.»

em novembro de 2009, pouco depois da minha temporada na rússia, estava esparramado na cama a ouvir mikhail glinka & tive aquilo a que costumam chamar de sonho lúcido. vi-me sentado à escrivaninha de uma casa perto do oceano, chávena de café, tabuleiro de xadrez, calhamaço do dostoiévski jogado despretensiosamente numa poltrona felpuda. ao fundo no horizonte, um borrão de nuvens cinzas carregadas de chuva & eletricidade se aproximava. foi quando tive a certeza de que não queria ser jornalista, não fazia sentido ser jornalista, ser jornalista estava mesmo fora de questão. largaria tudo para me dedicar à literatura, aos livros.

estou a completar, portanto, dez anos de atividades literárias — de madrugadas intranquilas, manhãs absolutamente adoráveis, tardes duvidosas, sonos esperançosos, ciclos inconstantes, ventos fortes, tornados, tempestades tropicais, achados & perdidos, sempre a lembrar daquela frase de epiteto: «antes de mais nada, diga para si mesmo o que deseja ser, daí faça o que precisa de ser feito para sê-lo».

sim, ainda estou a fazer o que precisa de ser feito para sê-lo. estou a exercitar-me, dia-após-dia, a cair, a subir, a descer — a colocar em prática tudo o que vejo & aprendo & descubro & escuto durante a jornada. (evoco, a título de parêntese, o surfista que necessita de encarar ondas gigantescas até finalmente aprender a domá-las.)

a boa notícia é que já consigo enxergar a tal casa perto do oceano. ela está ali, não muito longe, sobre as falésias, com uma escrivaninha à varanda. & quando o desânimo ameaça fechar as pálpebras, o barulho dos trovões mantém a caminhada nas trilhas.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #5)

O CASO PETER HANDKE

ontem um dos meus alunos de escrita criativa perguntou-me o que eu achava desta balbúrdia toda a respeito da atribuição do nobel da literatura a peter handke. tentei organizar mentalmente uma breve amostra de escritores que se envolveram com política & as tempestades que se seguiram a esse tipo de relacionamento (knut hamsun/terceiro reich; louis-ferdinand céline/anti-semitismo; emir kusturica/ganância desenfreada &tc.). comentei também que não gosto do peter handke analista político — ou seja, o verdadeiro motivo da confusão: crítica aos posicionamentos controversos do peter handke civil, que apoiara slobodan milošević durante a guerra juguslava —, mas que gosto muitíssimo do peter handke escritor de literatura, peter handke dramaturgo, peter hankde autor de «a angústia do guarda-redes antes do penalty», assim como tanta gente admirava a ficção de céline & discordava dos posicionamentos dele em vida real. reforcei ainda que a discussão ética é absolutamente válida (inclusive, dá novo fôlego às tentativas de resolver os imbróglios que continuam a assolar a região dos balcãs), mas é preciso lembrar que o handke que costuma ganhar prêmios é o handke escritor, & que, felizmente, ele recebera o nobel da literatura, não o da paz.

— p. r. cunha

Falar às paredes (mal silencioso)

Depois de passar pelas absurdidades do campo de concentração nazi e diante do revisionismo histórico de algumas lideranças no período pós-guerra, Primo Levi pergunta se é isto um homem: animal capcioso, que esquece, que aponta a flecha do progresso para um futuro ambíguo em que mercadorias inorgânicas substituirão cada vez mais a empatia orgânica. Um alerta que se mostrou perturbadoramente correto.

Primo Levi tinha aquela consciência filosófica de que tudo o que fazemos nesta vida pode ser o mesmo que nada quando visto à luz da ação sem sentido do tempo — principalmente quando as narrativas dos acontecimentos estão a ser controladas por interesses fantasmagóricos. Que a vida é uma sucessão de hábitos, e um dos mais terríveis, ainda segundo Levi, seria o de seguir as massas, a corrente, acreditar em tudo o que as autoridades dizem sem questioná-las. 

Como exemplo poder-se-ia citar o próprio caso de Levi, que esteve em Auschwitz, foi testemunha ocular dos fornos que carbonizavam humanos, que sentira o cheiro dos corpos putrificados, que observara prisioneiros entrarem em caixas retangulares de concreto para nunca mais serem vistos, e mesmo assim ainda teve de se justificar diante de determinados céticos.

O desespero de Levi e de tantas outras vítimas que precisaram de reviver constantemente as atrocidades dos crimes perpetrados durante a Segunda Guerra (crimes que vinham de todas as direções, inclusive dos chamados vencedores), que tiveram de confrontar aqueles que, a despeito de todas as provas documentadas, ainda preferiam virar o rosto: «Ora, talvez os senhores estejam exagerando, talvez não tenha sido tão terrível como estão a sugerir, não podemos crer que o Homo sapiens seja realmente capaz de tantas barbaridades», etc.

Então, assim como Walter Benjamin — que temia a omnipotência (e a longevidade) do Estado policial nazi, que decidiu não fazer parte de nada disso e finalmente matou-se num hotel espanhol enquanto fugia da Gestapo —, Primo Levi também perdeu as esperanças. Abandonou o papel de sobrevivente que não podia deixar ninguém esquecer. Em abril de 1987, angustiado, cansado e assolado pela depressão, Levi joga-se da escada de um edifício em Turim.

— P. R. Cunha

Carta a um filho que ainda não tenho (para o caso de ele se tornar escritor)

Filho, ontem me disseste que queres ser escritor também. Comoveste-me com tal decisão. Agora, se me permites, gostava de compartilhar contigo alguns pormenores sobre esta fazenda que, sim, por vezes pode se mostrar ardilosa, mas é também o sítio mais agradável e encantador para criares morada. Suponhamos que tu tenhas uma ideia. Tens uma ideia, um esboço, um embrião, organismo unicelular. É tudo ainda muito cru, muito simples. Então tu tens uma ideia e não sabes se esta ideia transformar-se-á em conto, novela, romance. Estás um bocado esperançoso, entusiasmado, crês que a coisa pode caminhar direitinho. Alguns dias tu acreditas que és grande, magnífico, um escritor de primeira linha, candidato ao Nobel, quiçá o melhor escritor que já caminhara neste planeta; em tantos e tantos outros dias tu chegas à conclusão de que não vales um vintém, de que o que estás a escrever na verdade não caminha direitinho, chegas à conclusão de que perderas tempo, de que há livros de mais no mundo etc. Estás sufocado. Compreendo-te. Essa gangorra é absolutamente normal. A tempestade passa. E a melhor maneira de enfrentá-la é continuares escrevendo. Um relacionamento acaba, continua a escrever; foste demitido do emprego, continua a escrever; alguém morreu no meio do caminho, depressão/melancolia, o teu time não vai bem na NFL, a casa do teu amigo foi hipotecada, a Coreia do Norte declarou guerra à Coreia do Sul — não importa, continua a escrever. Não desistas. Muitas pessoas talentosas deixam de publicar grandes obras porque não têm perseverança, continuidade, porque não terminam. O talento não vale nada se o escritor não consegue colocá-lo em prática. Sejas, portanto, meticuloso, persistente, corajoso, cria rotinas, sai, vê, viaja e, for god’s sake!, termina. Se depois dessas batalhas sangrentas, desses dias/meses/anos agridoces, de algumas paranóias, de inquietações diversas, se depois disso ainda continuares com vontade de escrever, com vontade de começar tudo de novo, de passar por cada uma dessas etapas novamente… então, filho, podes ter a certeza: escolheste o ofício certo para a tua vida. Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

Como construir um escritor

Primeiramente, o escritor precisa de corpo — uma casa orgânica, poder-se-ia dizer. Vai até à farmácia, explica que estás a construir um escritor («estou a construir um escritor») e pede estes ingredientes: hidrogênio, carbono, oxigênio, nitrogênio, cálcio, enxofre… — nesta altura a farmacêutica já bem saberá do que se trata e conseguirá para ti os outros elementos necessários. Agora, monta o escritor: cabeça, mãos, dedos etc. Depois, arranja-lhe uma grande e diversificada biblioteca, ele vai precisar. Põe o escritor à mesa. Observa-o trabalhando. Pronto! Muitos parabéns. Construíste um escritor. 

— P. R. Cunha

Quarta nota #4 — há um enorme pedaço do universo onde pouca coisa acontece

§ Curta passagem pela Terra (68,76 anos se fores mulher e 64,52 anos se fores homem [em média, naturalmente]) e, depois, durante quanto tempo ainda lembrarão do teu nome? Malabarismos diários para construir o chamado «legado à posteridade», enquanto, ainda em vida, milhares de pessoas são relegadas ao esquecimento.

§ Em 1845, um jovem e irascível Charles Baudelaire — o poeta suicida que não se suicidara — escreveu carta de despedida a explicar que não aguentava mais o cansaço de adormecer e o cansaço de acordar, a rotina das mesmices. Logo depois, esfaqueou-se, mas não morreu. A nota com os pormenores desse plano macabro foi leiloada no domingo último por € 234 mil (≅ R$ 988 mil).

§ Se gostas de Roland Barthes e de, como costumam dizer os críticos, thriller cult com referências filosóficas de pensadores dos 1980, então La septième fonction du langage, do Laurent Binet, é um livro que vai te agradar imenso.

§ Tu és o motorista, não há mão livre para escrever. Passeia de autocarro, ou de metrô, ou de táxi; ali anota ao sabor das trepidações.

§ Os leitores portugueses têm agora um novo sítio de verificação de fatos: Polígrafo, fundado pelo jornalista Fernando Esteves, ex-editor de Política e Internacional da revista Sábado. Os fact-checks são primordialmente voltados para o contexto lusitano, mas Polígrafo também averigua eventuais lorotas brasileiras.

§ Em toda a parte deveria existir um escritor a trabalhar. O escritor dá forma a contos, crônicas, artigos, romances, poemas etc. A palavra é a tua matéria-prima; inspiração nada mais é do que a leitura e a releitura daqueles livros e daquelas ideias que mais te agradam. Utiliza de um clichê bobo e gentil: a inspiração é também transpiração. Os gênios têm os dedos calejados. 

§ Dentro de casa — a melodia das canetas a riscar a folha em branco continua.

§ O mundo é um lugar estranho. Muitas nuvens, cães solitários a vagar nenhures, árvores com folhas verdes, e vermelhas, e amarelas, os telhados, os asfaltos vestidos de sombra, automóveis de aço, aeronaves de aço, convites para escrever no jornal alheio; jornal de celulose. As longas tardes cinzentas em que pegaste no sono ao escutar documentários sobre o Cosmos — Boötes void (o vazio de Boötes), diâmetro de quase 250 milhões de anos-luz, monstruosa região repleta de coisa nenhuma, onde o inverno dura para sempre. Estás a escrever a respeito disso tudo e sentes também um Boötes void no coração. És supervazio. 

— P. R. Cunha

Admitir que a literatura modifica a fisionomia de quem escreve

O que faz um ser humano com bom discernimento, ser humano aparentemente saudável abandonar as férias para se esconder num quarto discreto & escrever, escrever como se disso dependesse o funcionamento do Cosmos, o futuro da física quântica? Temperamento irregular, desconforto com a inércia (a clássica imagem das férias: pernas para o ar, sem fazer nada, ver o tempo passar &tc.), necessidade de endorfina (liberada enquanto se escreve), saudades do trabalho intelectual, preocupações mundanas, amor, hábito — todos podem contribuir. Uma ideia aflitiva, esse corpo estrangeiro, como citara Starobinski nalgum relato, ideia da qual o sujeito não consegue se livrar, ideia persistente.

És lá um viciado em letras, ponto. 

Outras influências benéficas para ajudá-lo no tratamento (efeitos [por vezes] temporários): música, teatro, banho de sol, banho de mar, banho gelado, filmes com a namorada, jogos, viagens, pedalar a bicicleta, entregar-se aos prazeres culinários.

Fazer promessas e não cumpri-las. Prometer: vou sair em férias, dez dias de férias, e depois não sair em férias coisa nenhuma, brincar com as expectativas dos receptores, sair em férias mais tarde, quando ninguém estiver esperando, quando todos estarão a dizer: este aí não precisa de férias, este aí até que está bem descansadinho.

Não que alguém dê a mínima para as suas férias…

Ao gosto do dia: estado maníaco (euforia, ápice), estado de depressão (vale, reino das trevas [reino das sombras]) — intervalos lúcidos. Sentir-se num carrinho desgovernado de uma montanha-russa que há anos não recebe vistoria, dar-se conta de que a trava de segurança desse carrinho não funciona. Há um looping adiante.

Nenhum escritor gosta de permanecer inativo. Nada de ficar deitado na cama. Manter-se em movimento, praticar exercícios das faculdades intelectuais & afetivas (grifo meu). 

É possível tirar férias quando o nosso trabalho já meio que se assemelha às férias? 

— P. R. Cunha

O último conto de Franz Kafka

Sobre isto já muito se discutiu (inclusive neste blogue): se Kafka queria mesmo que todos os seus escritos — diários, cartas, esboços etc. — fossem queimados, por que não colocara ele mesmo fogo no próprio espólio?, por que deixar a tarefa para o suspeito Max Brod, que inúmeras vezes garantira ao amigo que não destruiria obra nenhuma? A mim me parece que Kafka adotara para si um papel de coadjuvante literário; ele nunca foi completamente real. Um personagem que teatralizara os últimos desejos pois sabia que estava a partir de um mundo que logo o teria em altíssima conta justamente pelo fato de ele ter se mostrado um homem de letras e contradições. A discreta carta de despedida que deixara sobre a escrivaninha do apartamento dos pais, o drama diante da obra que sobreviveria ao derradeiro respiro, as ambíguas instruções («não quero dar a ninguém o trabalho de macerar os meus livros, mas que nada deles torne a ser publicado»), a retirada sem alarde — foram cenas cuidadosamente ensaiadas, caricaturadas, foram O último conto de Kafka, o último ato de um autor generoso que até à morte dedicara-se com afinco a este fantástico mundo de ficções.

— P. R. Cunha