Café-restaurante

Ele dirige, está a viajar numa carrinha; é uma carrinha de leite, claramente inapropriada para este tipo de viagem, uma viagem longa. Ele então está a viajar dentro dessa carrinha de leite, e há diversos estrondos dentro da carrinha de leite, uma peça do painel desencaixada, há algo dentro do porta-luvas, o rádio é antigo, não possui entradas para CD, MP3, iPhone, apenas as estações da praxe, AM/FM, e mesmo assim é difícil de sintonizar as emissoras. Quando ele consegue encontrar uma frequência audível, escuta as músicas com ruídos terríveis. Músicas de estrada. Músicas de cantores & cantoras decepcionados com a vida, com as promessas que a vida lhes dera, a vida a lhes virar as costas etc. etc. Um amor que não fora correspondido. Ele está a viajar numa carrinha de leite e observa agora a aproximação de um posto de gasolina. Ele costumava parar neste mesmo posto de gasolina quando viajava com o papai em criança. Quando podia, o papai o levava para todo o tipo de sítio. E quando passavam por ali, sempre paravam naquele posto de gasolina, cujo café-restaurante servia uma refeição deveras decente. Ele estaciona a carrinha de leite e é claro que o café-restaurante está muito mudado, não é mais o mesmo café-restaurante, nem poderia sê-lo, porque as coisas se modificam, as pessoas se modificam, os edifícios também se modificam. Estaciona a carrinha de leite. Alguns camionistas o observam a sair da carrinha de leite, mas não dizem nada, apenas observam. Talvez julguem-no por dentro, mas não dizem nada. Ele passa pelos camionistas e entra no café-restaurante. O interior do café-restaurante também está mudado. Ele pergunta se ainda vendem o pão com linguiça que ele costumava comer com o papai em criança. O empregado atrás do balcão não faz a ideia do que ele está falando, não vendem pão com linguiça. Aquilo mexe um bocado com ele: o facto de não venderem mais pão com linguiça, o facto de o empregado contemporâneo nem sequer saber que um dia aquele estabelecimento vendara o melhor pão com linguiça que ele já comera — talvez não por causa do sabor em si do pão com linguiça, mas por estar a passar um tempo com o papai, que sempre dirigia algures, numa estrada distante. Ele se senta ao balcão e pede um café. O café-restaurante tem umas janelas enormes e a luz azul, modorrenta, luz melancólica de um fim de tarde chuvoso entra dentro do café-restaurante e transforma a atmosfera do café-restaurante cujo chão está cheio de vestígios de pegadas das botas dos camionistas. Ele fica a observar essas marcas e chega à conclusão de que os camionistas têm botas muito parecidas. Um cheiro de torta de banana, ele sente um cheiro inconfundível de torta de banana. E o cheiro do café a ser preparado. O barulho da máquina de café. O frigorífico a trabalhar, alguém abrindo a porta do frigorífico. O barulho de latas que vem da máquina de refrigerantes. Primeiro o som metálico da moeda a cair no dispositivo de moedas, o som abafado de alguém a apertar o botão do refrigerante escolhido, a lata a cair no compartimento de latas. Um empregado do café-restaurante abre a caixa registradora. Conta o troco, entrega o troco para alguém. As pessoas murmuram, vão para as mesas, vão para a casa de banho, sentam-se, levantam-se. As pessoas conversam. Pratos, facas, colheres. Lá fora, os automóveis passam. Os pneus estão molhados de chuva.

— P. R. Cunha

Dias / três

É do Harold Pinter que eu gosto mais, sabes?, ela disse. Fala de mim um bocadinho — também gosto do jeito que tu escreves.

*

A viagem é um efeito Doppler: alastra-se. Início, difuso; fim, incerto. Quantas vezes não precisei de prolongados distanciamentos à guisa de digerir metrópole alienígena?

*

Fotografia
escrever —
à luz.

*

Niterói é uma cidadela nostálgica, casa das férias, da meninice. Lembranças que ficaram muito para trás no passado. Niterói nunca foi minha, sempre foi dos meus pais, do meu irmão mais velho. Ela não se incomoda, recebe-me com carinho, acolhe-me com esmero. Niterói por vezes é ausência, é saudade, que dói, destrói, corrói. Niterói.

*

E só havia mais uma pessoa no Icaraí Café — ela. De manhãzinha, passeio no Campo de São Bento; fiquei um bocado parado ao sol, a pensar em qualquer coisa, ao que minha pele possui agora aquele curioso tom vermelho-molho-de-tomate-aguado. Ela olhou para a chávena de café, e depois para mim, daí olhei para ela, e ela olhou para a chávena de café, e assim por diante. Não nos movemos. Apenas olhos, chávenas de café, vermelho-molho-de-tomate. Até que os passos afastaram-se, e então silêncio. Como se ela nunca lá tivesse estado.

*

Daqui às vezes ouve-se o Atlântico. Mas é precisa muita atenção, porque ondas preguiçosas:

Ao mar
os rapazes
esperam
as moças
esperarem
as senhoras
e os senhores
à espera
da velhice
passar.


Texto e fotografia: P. R. Cunha

Sob o efeito de John Cage — cinco ou sete doses de Baileys

Depois de uma noite de bebedeiras ao botequim [na Lopes Trovão, perto do Campo de São Bento] — estamos de ressaca: o mar & eu.

Influenciado pelos escritores do caótico e especialmente pelo azedume dos Ex.{mos} srs. Bernhard e Oswald de Andrade e H. de Campos (Eurico Browne) e A. de Campos (IRMÃOS) este outro-eu-autor/actor (escrevente brasileiro sempre a pensar nas coisas mais essenciais do país tropical &tc [porta-voz]) eu-autor/actor/outro-eu a escrever um sem-número de conto-macchina portanto em Niterói 496.696 habitantes alguns felizes outros nem tanto eu-autor/actor/eu descrevendo entre outros 1) bêbados 2) jogadores de xadrez 3) baristas que não tomam café porque Niterói é quente 4) artistas do teatro 5) boêmios em geral.

conto-macchina — é a recepcionista da pousada que me confundira com o fantasma de Dylan (Dylan não morreu, eu lhe disse; Dylan está morto, ela disse, hospeda-se o fantasma de Dylan nesta nossa pousada, Niterói [inútil insistir quando nos tomam por fantasma de Dylan] desisto). conto-macchina estilo mecânico como o próprio nome sugere ———— industrial sirenes de ambulâncias experimental: o afiador de facas da rua Otávio Carneiro, liberdades & gramaticais & estilísticas (não definir o que é estilo [?]), pontua-se como/e onde/e quando (se) quiser, os fogos de artifício que iluminam o Morro do Cavalão, conto-macchina, não se preocupar com rimas (n’outros termos: tudo bem se rimar as palavras afinal ou rimam ou não rimam), 50% porcento percentagem, o vendedor de picolé queimou o pé nas areias de Camboinhas/Sossego, bolhas no pé do vendedor de picolé, conto-macchina, museu de arte contemporânea ——————— o.Niemeyer, disco, voador, ARQUItecto de um futuro que ultra|passado. conto-macchina, um pouco de tudo.


Texto e fotografia: P. R. Cunha