A culpa é do jazz

Se a cafeína e o tabaco se misturam
no céu da minha boca
— a culpa é do jazz
Se me perco em devaneios
— a culpa é do jazz
Se feito um louco converso
com o trompete de Miles Davis
— a culpa é do jazz
Se me apaixono
— a culpa é do jazz
Se te odeio
— a culpa é do jazz
Se sonho com uma época
perdida & desiludida
— a culpa é do jazz
Se ilustro um requiem
para o meu desespero
— a culpa é do jazz
E se escrevo estas linhas
— a culpa é sempre
do jazz.

— P. R. Cunha

Carta eletrônica a mim mesmo

De: P. R. Cunha
Para: P. R. Cunha
Data: 8 de maio de 2020, às 9:54
Assunto: Carta eletrônica a mim mesmo


Querido Eu,

Há tempos que não nos correspondíamos desta maneira. Lembras quando tu dizias que era coisa de maluco, de quem perdera os botões? Pois cá estamos novamente. Mas preciso explicar de uma vez por todas que se recorro a estes métodos esquizofrênicos é por nobre causa. Para o teu bem, para o meu bem… (pausa dramática) para o nosso bem.

Gostava de avaliar o que se passa contigo. Nós dois sabemos que não és a pessoa mais inteligente que existe, porém tampouco és um tolo. Longe disso. Tens aí na tua massa encefálica conteúdo o bastante para tomares as decisões sensatas. 

Então por que diabos não tomas as decisões sensatas?

Por exemplo, já lá se vão quase doze meses de árduas pesquisas para o teu, como tu gostas de chamá-lo?, «projetinho». Escolheste o tema adequado, a personagem principal está pronta, a linha narrativa se mostra impecável, sabes para onde ir, como ir, quando ir.

E o que estou a ver? Estou a ver um gajo à deriva escrevendo digressões sem rumo num sítio web, ou a tocar instrumentos exóticos em músicas exóticas que nunca dão em nada, ou a fumar o cigarrinho de palha à tarde enquanto entorna um qualquer líquido etílico, ou a jogar o xadrez contra o computador a ver até que altura consegue competir com a máquina sem perder as estribeiras (chegaste ao nível 15, uau, muitos parabéns, que feito, hein?).

Vejo tudo isso e vejo as pastas com todas aquelas centenas, milhares de folhas do teu próximo livro, à espera do autor, à espera de serem devidamente colocadas em prática.

Falo a sério, gostava mesmo de avaliar o que se passa contigo.

Dizes para toda a gente: sou escritor, estou a trabalhar numa obra edificante, o livro mais significativo que alguma vez sonhei em escrever. Dizes essas lorotas todas enquanto o tal projetinho sufoca nas tuas gavetas. Achas isso bonito? Sentes orgulho do circo que estás a montar?

Que tal tomares um bocadinho de vergonha na cara?

Tem foco, tem linearidade no teu ofício, não te esqueças de que és um tipo que escreve, esta é a tua atividade primordial, é por ela que tu respiras, faz tudo pela escrita, não te percas em procrastinações sem pé nem cabeça.

Faz-nos este favor: levanta e termina o livro.

Do sempre, sempre teu,

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #14)

então, ao que parece, somos mesmo criaturas de hábitos. como diria um antigo: tu és aquilo que tu fazes repetidamente. consistência. 

numa altura perguntaram para a iris murdoch como ela lidava com o desafio de escrever livros extensos, ao que ela respondeu: não se chega à página quinhentos & quatro antes de passar pela página dois. susan sontag adotava filosofia parecida. (a imagem do tijolinho-de-cada-vez [sedutora demais para não ser evocada neste contexto].) 

evolutivamente, é provável que o hábito tenha ajudado o animal humano a lidar com certas imprevisibilidades: repetir o mesmo caminho, manter-se — na medida do possível — num mesmo acampamento à guisa de não se perder, preparar os mesmos alimentos para ninguém engasgar ingerindo coisas venenosas &tc. &tc. 

hábito que também se mistura com foco. fulano é pintor. fulano vai ao próprio ateliê todos os dias, segue a rotina, pinta quadros. não perde o foco. & aqui nos deparamos com um dos maiores desafios destes tempos pós-modernos: como manter hábito/foco diante de tantas possibilidades? 

um colega escritor dissera-me que não está dando conta de escrever com regularidade, pois acaba se perdendo nas séries (há milhares delas), nas redes sociais, nos noticiários (toda aquela ladainha de sempre). acontece que o hábito não tem juízo de valor. não possui a capacidade de julgar ética & esteticamente os estímulos que recebe. ele atua quase que de forma automática, funciona no modo «recompensa».

grosso modo, o hábito é justamente isto: conjunto de atos que geram recompensas neurológicas. se a pessoa se esparrama na poltrona para assistir à netflix & isto faz com que o cérebro libere as mesmas substâncias prazenteiras que liberaria se estivesse diante de um longo & custoso romance russo, ela tenderá (insisto: tenderá) a buscar o caminho mais fácil para atingir sensações agradáveis. 

mas não precisa de ser assim.

o artista que se apega à saudável rotina habitual cria uma espécie de antídoto, rede de proteção contra as redundâncias externas. é como o violino que se afina antes da grande sinfonia. toma o pequeno-almoço, prepara chávena de café, senta-se à escrivaninha, entrega-se às leituras para ativar neurônios, pratica exercícios [aparentemente] despretensiosos… qual um bom amante, sabe que o prazer da empreitada pode (& deve) ser prolongado.

«nice and easy», cantaria o saudoso sinatra: «making all the stops along the way».

— p. r. cunha

Cem jardas para o livro

Por questões justificáveis, a escrita costuma ser associada ao academicismo — ou pelo menos à erudição. Talvez porque o «colocar ideias num determinado contexto» seja, amiúde, a continuidade de uma jornada cuja travessia mostrara-se repleta de leituras. E o erudito (eis a lógica duvidosa) lê mesmo um bocado.

Distorções parecidas parecem também assombrar esta outra atividade considerada por muita gente como um jogo intelectual: o xadrez. Ainda no panorama acadêmico, poucas reações costumam ser mais cômicas do que a do professor que precisa de confessar que não sabe jogá-lo. Consideram o xadrez um desafio ao cérebro; de forma que manusear as peças sobre o tabuleiro seria uma constatação da própria inteligência, amostra de sagacidade.

Curiosa insegurança.

Quando perguntaram para o Grande Mestre Bobby Fischer — provavelmente o maior de todos os tempos — o que achava dessa glorificação intelectual do xadrez, ele respondera com a frieza da praxe: é apenas uma superfície lisa com casinhas quadriculadas, só isso. Boris Spassky, ao que parece, pensa da mesma forma.

Não surpreende, portanto, que muitos ainda se sintam deveras incomodados quando essas práticas santificadas são deslocadas do pedestal para alturas mais, digamos, mundanas.

Há uma mesa cheia de docentes universitários. Estou sentado para a ponta direita, visivelmente desconfortável (spoiler alert: não sou docente universitário). Um dos professores me pede para discorrer a respeito do meu processo de escrita. Eu me arrumo na cadeira, bebo um gole de café e explico:

«Futebol americano, NFL. O escritor em muitas ocasiões faz as vezes do quarterback, precisa de saber lançar a bola direitinho, sim, mas sem ser afobado. Se percebes a aproximação da defesa, guarda a bola, tem calma, espera. Quinze jardas para a frente, quatro jardas para trás, mais doze adiante. Se há buracos na linha adversária, ótimo!, não hesites em acionar o running back. Deixa-o correr. Corre, running back, tu dizes. A secundária agora se mostra povoada? Então joga a bola para o alto, vê se o tight end está em forma. O fim do livro depende disto, da quantidade de touchdowns que a tua equipe consegue emplacar. E estejas preparadinho para deixares o campo completamente arruinado, com toda a sorte de escoriações. Pode ser um jogo brutal…»

Pela fisionomia assustada do professor, deduzi que aquilo não era bem o que ele estava esperando. E quando, irrequieto, voltou-se rapidamente aos outros colegas para discutir «pormenores universitários», daí tive a certeza de que não era mesmo o que ele estava esperando.

— P. R. Cunha


nfloldtimes

 Quarterback é atacado pela defesa adversária: tal escritor a escrever livros. (Imagem: NFL Archives)

É o escritor de ficção um personagem; ou melhor: o escritor de ficção precisa de ser/tornar-se (também) um personagem?

Knut Hamsun foi um civil ambíguo, com inclinações sociológicas extremamente duvidosas, chegara mesmo a flertar com o nazismo. Porém, ao mesmo tempo, escreveu literatura com ímpar sensibilidade e desenvoltura. Tais contradições são mais corriqueiras do que se imagina.

Fome, o aclamado livro deste escritor norueguês, mostra-se até hoje um relevante relato sobre a vida daqueles que decidem-se numa altura dedicar-se à escrita a tempo inteiro. Narra as peripécias de um flâneur que perambula fantasmagoricamente pelas ruas de Cristiania (a Oslo contemporânea) em busca de ideias, imagens, cenas, personagens, qualquer coisa que o ajude a escrever crônicas para os jornais. O protagonista — alterego de Hamsun — depende desses textos para permanecer em pé, quitar dívidas, matar a fome, seguir em frente. Carlos Drummond de Andrade não só elogiara imenso a obra como tratou de traduzi-la para o português, agradável releitura poética que pode ser encontrada nas páginas publicadas pela Geração Editorial.

Quando a figura do autor mescla-se voluntariamente com a do personagem, surgem perguntas: afinal, quem é quem, o que é verdade, o que é ficção, que jogo é este?

Sabe-se que Knut Hamsun, entre outras coisas, foi marinheiro, lenhador, conduziu bondes, trabalhou em quintas criadoras de frango, ficara dias sem comer. Vivera períodos de intensa instabilidade, sem morada fixa, atormentado entre os Estados Unidos e a Europa. É possível decifrar um bocado disso nas páginas de Fome. No entanto, o que torna o livro ainda mais intrigante é o facto de o protagonista (mesmo que acompanhado «de perto») permanecer uma incógnita para o leitor.

Lê-se a respeito de um tipo excêntrico com roupas surradas, a levar consigo um toquinho de lápis para todos os sítios a fim de anotar as próprias impressões errantes. Um péssimo administrador financeiro, sem dúvida, chegando a gastar numa única ocasião todo o salário do mês que recebera como jornalista freelancer. O leitor descobre como ele age, sente, desespera-se, enche-se de esperança para logo cair num vale de lágrimas e infortúnios. Mas, mesmo assim, é como se as verdadeiras entranhas do protagonista permanecessem algures, paradoxalmente algures.

Hamsun reflete-se em Fome da mesma forma que gostava de se revelar na chamada vida real: cheio de segundas intenções, ora sofrível, ora magnífico, corajosamente medroso, uma esfinge difícil de ser decifrada. Não é simples, portanto, notar se foi o homem-escritor que mesclara-se com o personagem livresco ou se foi o protagonista-de-papel que alimentara uma existência ainda mais errática e contraditória lá fora.

A verdade é que autobiografias literárias permitem e até encorajam esse tipo de impasse. Principalmente quando as regras classificatórias (romance, ficção, literatura, história, relato documental…) não são esclarecidas ao público. De certeza que era essa a ideia de Hamsun, como se ele tirasse um sarro: sim, sou também personagem, costumo agir sem pensar, digo disparates, minha vida é um enredo em constante metamorfose. Fome esclarece-se, assim, como um fragmento, uma amostra dessa linha imaginária que se expande e se contrai de acordo com os caprichos da pena do escritor.

Que Hamsun chegasse ao ponto de finalmente não conseguir mais perceber em que verdades estava inserido e consequentemente ter parado numa clínica de loucos não deveria surpreender vivalma.

— P. R. Cunha

Outra viagem à volta do meu escritório

Alguns amigos que costumam me visitar ao escritório já sabem que quando a minha escrivaninha está entulhada de livros, e papéis, e canetas, e lápis, e pequenos cartões repletos de hieróglifos é porque estou metido em alguma coisa, como se diz, de fôlego. A sala está serena, as prateleiras mostram-se impecáveis, as obras devidamente ordenadas, mas a escrivaninha, meu verdadeiro sítio de trabalho, parece ter sido revirada por um furacão categoria 4. Isto costuma deixá-los confusos, um bocadinho irrequietos.

Acontece que a bagunça é ilusória. Ou melhor: para os olhos deles, sim, a mesa está realmente um caos. No entanto, é o método que meu cérebro criou para se organizar. A neurociência tem nos mostrado com detalhes que nossos neurônios não são lineares; lidam com possibilidades, cortam caminhos, prolongam outros. Assemelham-se mais a um tronco de árvore do que a uma longa e reta highway norteamericana. 

A escrivaninha torna-se, portanto, o reflexo do modus operandi de quem a utiliza. Por isso que muitos dirão que uma das tarefas mais importantes do escritor é achar um espaço fixo, adequado às repetições diárias, em que será possível habitá-lo com ideias, possibilidades, recomeçar a empreitada de onde parou.

José Luis Gutierrez é um colega mexicano. Ele diz que não consegue escrever. Ou que antes conseguia, mas hoje não dá conta, aposentou-se. Gutierrez utilizava o próprio computador para criar narrativas. Ao sentar-se, movia rapidamente o cursor do rato para um vídeo no YouTube, depois, numa nova aba do browser, tentava responder aos emails, abria outras abas para monitorar Twitter, Facebook, Instagram, e enquanto se desdobrava para não ter um aneurisma, precisava ainda de lidar com as mensagens que a noiva lhe mandava pelo telemóvel. Não me admira o facto de ele não conseguir escrever nada depois desses constantes bloqueios mentais.

As vias do pensamento humano podem não ser lineares, mas isso está longe de significar que o cérebro esteja adaptado às multitarefas. Cientistas de universidades britânicas demonstraram que dedicar-se a mais de uma função ao mesmo tempo diminui a produtividade em ao menos 60%. É como se o sistema cerebral preferisse trabalhar com temas isolados, para só depois expandi-los, mesclá-los, remodelá-los.

O escritório, ter um sítio para onde ir, um sítio onde se pode montar o próprio ambiente, de acordo com as próprias particularidades torna-se ainda mais essencial quando o escritor precisa de lidar com essas distrações modernas. Comentei com o Gutierrez a respeito desses pormenores e acrescentei ainda que quando começo a escrever quase nunca utilizo o computador. Acho que se uma tempestade geomagnética afetasse as infraestruturas atuais — e nos levasse de volta à Idade Média em termos tecnológicos — eu conseguiria me virar sem grandes conflitos*. Caderninho de anotações e a boa e velha caneta é tudo de que o escritor realmente precisa quando se depara com ideias interessantes. Só depois, com a estrutura do texto devidamente elaborada, sento-me ao computador para transcrever. 

À laia de desfecho, talvez fosse a altura de fazer-vos uma branda confissão: aprendi a escrever ficção utilizando uma velha Olivetti Lettera 22 que pertencera ao meu avô materno e cujo barulho infernal levava-me para outras dimensões (possivelmente a um daqueles vales cósmicos sobre os quais a física quântica tanto comenta). De forma que instalei um software chamado Noisy Typer que simula o som das máquinas de escrever quando digito as teclas do meu computador. É assustadoramente eficaz.

Aprendi também a não sentir vergonha dessas minhas peculiaridades: escrever é o trabalho mais importante da minha vida, ao passo que fiz, faço, e ainda farei de tudo para aperfeiçoá-lo. Antes de sentar-me para criar, tomo o café como se fosse um imperador asteca, mantenho as minhas rotinas, desligo o telemóvel, desconecto o computador da Internet, concentro-me numa única tarefa, cultivo escrivaninha estranha, do meu jeito, com as minhas bagunças metodicamente arrumadas. 

Não é sempre uma travessia elegante, pois não, mas é bem agradável quando funciona.

— P. R. Cunha


*Alas!, este blogue, no entanto, deixaria de existir.

Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha