Antídotos literários / confissão

Uma amiga geóloga certa vez me disse que quando não estava a estudar as alterações da crosta terrestre, quando não estava, portanto, a praticar a própria geologia, ela tinha febre, sofria de tristezas, comportamentos irascíveis, neuroses prontas para atacá-la. O mesmo parecia ocorrer quando papai não exercia a medicina: tornava-se taciturno, atormentado, lembrava-se de que era apenas um homem, incontáveis adversidades o afligiam, comia pouco, falava pouco. No meu caso cheguei à conclusão de que só sei escrever — e com isso não estou a colocar juízo de valor na empreitada (isto é: se bom ou mau escritor). Há muitos seres humanos que possuem carteira de motorista mas não dirigem os automóveis com destreza; o mesmo ocorre em toda a parte, com todas as profissões. Se levarmos em consideração os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sobre a expectativa de vida do homem brasileiro — 75,8 anos —, estou a caminhar para a metade da minha existência e sinto-me satisfeito por já ter chegado à conclusão de que só sei escrever, escrever todos os dias, e praticar também todas as outras atividades que orbitam a escrita: ler, contemplar, ouvir, pesquisar etc. etc. Se passo um dia sem escrever fico meio louco, imprudente, fraco, desgovernado, acato todas as perturbações neurológicas, apetite incorrigível, soterrado em melancolia, pouco saudável, péssima constituição, olheiras, alma (ou isso a que chamam de alma) gélida, intemperanças diversas — as dores e as mazelas e as consequências e o tempo de recuperação aumentam à medida que os dias se passam e não me sento para escrever —, frenesi, letargia, memória fraca, pouca imaginação/razão corrompida, como diria um antigo, insônia, delírios, e a escrita parece ser o único remédio, a escrita como conforto, subterfúgio, escrita-abrigo. Numa palavra: se não escrevo, vivo morto etc.

— P. R. Cunha 

«And one more for the road», a solitude etílica

Na última sexta-feira cheguei ao fundo do poço — isto se levarmos em conta os parâmetros de dignidade do Stanislaw Ponte Preta. Quer dizer: fui ao bar sozinho.

A verdade é que poucas coisas na vida são mais românticas/literárias/idealizadas do que ir algures para tomar um trago com a própria solidão.

(O porteiro do meu prédio, ao me ver sair, espantou-se com o fato cinza e com o chapéu: estás parecido com o Frank Sinatra, ele disse. Não precisaria lembrar aos leitores que estamos em pleno século vinte e um. Então este rapaz que vos escreve, que mal chegara aos trinta e poucos, sai para encher a cara com trajes à moda gângster siciliano. Excêntrico…)

Minha ideia, além de, naturalmente, entornar os copinhos, era quem sabe arrumar um canto para rabiscar qualquer coisa sobre a glamourização da escrita. O tipo que pensa: só escrevo quando conseguir uma boa escrivaninha, só escrevo quando a temperatura estiver amena, após o chá, se vistas para o oceano, quando comprar um computador melhor, ao som do jazz, se cadeira com almofadinhas, ao jardim, ou quando o silêncio for absoluto, ou depois de fazer meu jogging, ou com a caneta-fonte de dois mil dinheiros. As exigências que se acumulam do lado de fora. Enquanto a página permanece vazia.

Estava, portanto, num bar e havia pedido uma dose de uísque, e fiz o sinal de dois com os dedos, como faziam os alternativos dos 1960. Dois cubos de gelo, eu disse para a atendente. Ela tinha um dragão estranho tatuado no pescoço — só dava para ver a cabeça e a língua a cuspir fogo.

The Cranberries no sistema de som.

Quando me virei para pegar o copo sobre o balcão, percebi que um amigo acabara de se sentar a uma mesa à esquerda. Não fui falar com ele. A ideia era beber meu uísque em paz, com a minha roupa de Frank Sinatra, com o meu bloquinho de notas, com os meus pensamentos sobre a glamourização da escrita, com o meu fracasso. Mas de vez em quando olhava de soslaio para o conhecido: tinha a cabeça apoiada no braço, comportava-se como se estivesse à espera de alguém.

Alguém que nunca chegou.

— P. R. Cunha

O escritor e o fantasma de si mesmo*

Não se pode esquecer disto: a vida do escritor de literatura está amiúde à beira de um colapso. 

Hoje o leitor acomoda-se numa espreguiçadeira de lona com inclinação progressiva, tem consigo uma limonada refrescante, folheia as páginas de Tolstói, ou mesmo intriga-se com as narrativas de Hemingway, ou quem sabe até se apaixona pelas meditações introspectivas da sra. Virginia Woolf. Segura essas figuras literárias numa praia paradisíaca enquanto férias e talvez nem desconfie que tais autores foram seres humanos constantemente assolados pela melancolia, pelos distúrbios de ansiedade, pelo delírio neurótico.

Escritores que sentem o entusiasmo de criar cosmos paralelos, a euforia de desenvolver personagens e cenas que invadirão a consciência de toda a gente como se fossem mundos realmente possíveis. Mas que por vezes esquecem de que a jornada não é feita apenas de caminhos paradisíacos.

Quando apontam a mira do rifle para as profundezas do próprio coração, estão também prestes a flertar com o desconhecido, com a insanidade, com as imprevisibilidades da nossa espécie. À medida que acumulam notas a respeito de si mesmos e das pessoas ao redor, sentem-se cada vez mais poderosos, como se perto de desvendar mistérios que antes se mostravam insondáveis.

Chamo a isso de ponto de virada: ou o escritor decide que é hora de parar, ficar por ali mesmo, pronto, chega, está satisfeito com o que viu; ou continua o desaterro e perde-se completamente na penúria da cave. 

Ainda extasiados com o ópio da sabedoria adquirida, muitos decidem prosseguir com a escavação, e assim preparam a derradeira sepultura. Não sabem se loucos ou o quê; e não raro passam a se questionar como o fizera Edgar Allan Poe pouco antes da morte, num sanatório em Baltimore: quantas histórias, afinal, precisaremos inventar até esclarecermos que estamos sempre fugindo da nossa própria realidade?

— P. R. Cunha


*Como publicado na edição de despedida da revista 8ito.

Síndrome das pernas inquietas (restless legs)

Escrever é estar escrevendo, não é uma coisa — é gerúndio, processo. Eu hesito e ando atento enquanto descrevo, porque não sei o que vai acontecer. Há várias esquinas, precipícios, inúmeras possibilidades; preciso de decidir a cada momento. Sempre uma surpresa.

Quem diz: eu entendo o que é escrever, entendo perfeitamente do que se trata; quem diz isso, na verdade não entende patavinas. Por outro lado, aquele que não diz que compreende o ato de escrever, que não pensa que o entende, que não finge entendê-lo e nem mesmo quer entendê-lo — voilà, este sim sabe do que se trata.

Perguntamos a outro escritor como devemos escrever e logo percebemos que a pergunta não faz sentido, é perda de tempo, pergunta absurda, pois o escritor só pode falar sobre a sua própria escrita. E nunca, nunca dois escritores são iguais.

O que os outros dizem sobre literatura não tem importância.*

Alguém pode muito bem escrever livros sobre literatura, crítica do romance, e nunca ter passado pelo estágio de angústia — aquela angústia inquietante antes de criar narrativas aparentemente do nada, angústia de brincar de deus. Alguém pode tornar-se muito eficiente, muito esperto em argumentações intelectuais de toda a natureza, perito em apontar os escandalosos defeitos da obra alheia, e esquecer-se completamente de que é incapaz de construir um parágrafo decente, um personagem sequer, esquecer-se de que esse tempo em que esteve absorto em atividades pedantes e autodestrutivas, de que esse tempo foi um tremendo desperdício de energia, papel, dinheiro, matou árvores à toa.**

Podia estar lá fora, esse alguém, de repente pedalar uma bicicleta, alimentar patos num lago qualquer. Podia. Mas tranca-se num gabinete escuro e poeirento, mete-se a falar sobre o romance de Fulano, pensa que conhece todas as teorias literárias, todas as escolas da literatura mundial, embora esse alguém saiba que jamais conseguirá escrever um romance, um continho, um aforismo. É isso o que está acontecendo.

Entra numa livraria e vê a quantidade absurda de livros que tratam de outros livros. O apanhador no campo de centeio segundo Sicrano; Grandes esperanças de acordo com Beltrano etc. Muita argumentação, muita disputa, muito debate — conflitos desnecessários.***

— P. R. Escritor


*Que a literatura esteja difamada como um produto bastardo; que sua forma esteja desgastada e careça de inovações (i.e., revoluções); que seu passado tem sido negligenciado, tudo isso já foi dito e repreendido o bastante — vide Adorno (apropriar [ensaio = e ≠ notas de literatura]).

**Romancista de gêneses é um guerreiro muito corajoso. Os críticos (com raras exceções [James Wood, Susan Sontag {as páginas sobrevivem}, Roland Barthes {as páginas sobrevivem²}]) — criaturas à Leviatã.

***O leitor inicia determinado texto no ponto X; ao final, precisa de estar algures, longe. Do contrário, o escriba não exercera a própria função com dignidade.

Neblinas, quarta-feira

A escrita, simplesmente, forma de desaparecer — ela diz. Sentar-se nalgum canto, alheado, sumir-se. Mas precisamos estar a fugir de algo, ou de alguém, ou de tudo. Caso o contrário — ela continua enquanto leva a chávena de café aos lábios —, caso o contrário, estamos aqui a lidar com um ser humano sozinho e nada mais. Daí eu digo a ela que me adaptaria bastante bem numa habitação desconfortável: gosto dos hotéis, por exemplo. Talvez você seja de natureza felina, ela diz. Escrever, isso basta, viver no interior da nossa alma, isso basta. Ela acende um cigarro, me oferece um cigarro, eu digo que não fumo há quinze anos. Ela insiste. Eu aceito o cigarro. Tendências de isolamento, ela diz e solta fumaça. O mistério humano, ela diz.

— P. R. Cunha