Preparação literária em hipóteses (parte III)

«Nenhum artista é artista vinte e quatro horas por dia.»

Não haverá uma pitada de ironia no fato de que essa frase fora escrita por Stefan Zweig? Justo ele, que nem diante do próprio suicídio deixou de fazer arte — cabelos engomados, gravata impecável, a camisa devidamente abotoada, a última cena montada em Petrópolis-RJ antes de se despedir dos palcos mundanos.

Mas, afinal, o artista — e para os efeitos destas hipóteses vamos tratá-lo logo de escritor —, o escritor precisa de trabalhar a tempo inteiro?

Sim e não (ambiguidade propositadamente calculada).

O escritor consegue produzir o essencial, tudo aquilo que vai perdurar, apenas em alguns raros momentos de inspiração — a ideia geral ainda é do sr. Zweig.

São necessários milhões de pessoas em uma nação até surgir aquele/aquela a que chamaremos de bom escritor/boa escritora, milhões de horas tediosas precisam de passar, milhões de palavras arremessadas ao lixo para, enfim, observarmos uma histórica estrela cadente da literatura que de forma breve iluminará a noite das nossas insignificâncias.

Trata-se, portanto, de ofício que exige disciplina, continuidade. A ideia não é necessariamente «trabalhar» a tempo inteiro, mas manter os canais abertos, manter a luneta virada para o céu. Se estivermos desprevenidos a locomotiva se vai alhures, não embarcamos… 

Manter-se num estado de vigília espontânea, era isso o que eu estava querendo dizer.

Lembremos agora, à guisa de reforço, a quantidade de terra, e lama, e dejetos que o minerador precisa de se ver livre antes de conseguir encontrar pedras preciosas. 

Pois, o bom escritor e a boa escritora nunca deixam de ir ao fundo, de limpar, não desanimam quando se deparam com falsos diamantes. Se estiverem na mina certa, sabem que o aguardado tesouro vai aparecer: questão de tempo.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte II)

Ao simplificarmos a equação: (escritor = pessoa que escreve), percebemos as multiplicações de categorias relacionadas. Há quem escreva por hobby, para um desabafo terapêutico, há quem escreva ficção, outros preferem material biográfico, história, sociologia, antropologia etc. etc.

Há também os que, por motivos variados, não conseguem/podem escrever, e os que podem/conseguem escrever mas se sentem muito culpados por isso — eu cá tenho tempo, disposição, estabilidade para me dedicar à literatura, enquanto outros tantos não têm esse mesmo, digamos, «luxo».

O mundo do lado de fora pode ser perverso e hostil. Se a pessoa que escreve não conseguir desenvolver certos mecanismos de defesa, terá de lidar com crises paradoxais.

O escritor que para de escrever (primordialmente) para si mesmo e começa a trabalhar para os leitores, para abraçar o planeta inteiro, para resolver os defeitos sociais, desapontar-se-á. «Não era bem isso o que eu estava esperando», diz-se.

Acontece que todas as dificuldades internas e externas acompanham o nômade durante a viagem. A jornada por si só não é uma fuga ou um antídoto contra os transtornos de ninguém. No decorrer do percurso, novos desafios surgirão, coisas que nunca imaginávamos que pudessem acontecer irão acontecer. 

A vida não deixa de existir só porque viajamos.

E o escritor é uma espécie de viajante.

Alguns gostam de acreditar que o escritor leva a melhor existência possível. E se a pessoa que escreve deixar-se iludir pela miragem da bonança, ela dará entrevistas, ou apresentar-se-á num encontro literário com discursos românticos sobre como escrever é uma prática apenas prazerosa, edificante, sem efeitos colaterais.

Mas um médico que resolvera fazer medicina para salvar a vida das pessoas cedo ou tarde precisará de encarar a morte, o paciente que não vai se recuperar, o fracasso.

São acordos tácitos que assinamos enquanto temos os pulmões a respirar, o cérebro funcionando, o coração a bater.

— P. R. Cunha

Preparação literária em hipóteses (parte I)

Monólogo sem fins doutrinadores apresentado aos alunos de escrita criativa (turma do primeiro semestre de 2020).


A verdade é que, como já foi dito, não existe receita infalível para se começar a escrever literatura. Cada um terá de decidir por si mesmo quais ingredientes servem e quais precisam de ser descartados. 

Somos esponjas adiposas que absorvem (às vezes por osmose) uma variedade absurda de informações e numa altura devemos selecioná-las com esmero. 

Aqui o método tentativa-e-erro vem bem a calhar.

Estudos neurológicos demonstram que o cérebro humano tem certa predileção por repetições. Elas ajudam a economizar energia encefálica. Talvez seja por isso que pessoas criativas tenham hábitos de trabalho rotineiros. É uma forma de dizer aos neurônios: certo, sabemos do que se trata, vamos logo ao que interessa.

Alguns preferem chamar isso de «modo automático».

Antes de escrever, preparo o meu café e certifico-me se estou a usar a mesma chávena de sempre. A folha de papel precisa de estar posicionada mais ou menos no mesmo quadrante da mesa. As canetas (azul, vermelha, preta e verde) descansam por perto. Se estou relaxado, coloco o jazz e as palavras como que dançam sobre a superfície embranquecida da página.

Haruki Murakami gosta de se perder enquanto corredor de fundo. Caminha durante horas. Prepara o corpo, prepara o próximo romance.

O tabaco matinal era o gatilho de escritores como Clarice Lispector, Bowles, Patricia Highsmith, Onetti, Beckett, Beauvoir, Sontag.

O dramaturgo Tom Stoppard gosta de assistir a filmes de terror antes de trabalhar.

John Cheever gritava impropérios para toda a vizinhança ouvir.

Arthur Miller entregava-se à imagem de um homem andando com barra de ferro na mão durante tempestade com relâmpagos.

Benjamin Britten tomava banhos frios.

São caprichos curiosos, até um bocadinho extravagantes, mas absolutamente praticáveis. Importante manter a simplicidade nos hábitos, pois, como escrevera um antigo, «nunca se sabe o dia de amanhã». A nossa realidade é escrava da entropia, tudo se encaminha à desordem. Se adotamos rotinas complexas, algo de estranho pode (e vai) acontecer no meio do caminho e não conseguiremos mantê-las da maneira como imaginávamos.

Estabelecer contextos adequados às divagações — quando a mente se perde ao longe, e tudo parece fluir como mágica. Mas não é mágica, é treino. E sossego. E, sabemos, o maior inimigo do sossego são os meios de comunicação portáteis: telemóveis, computadores, relógios conectados à rede… a lista é enorme.

Sentamo-nos para escrever. O telefone toca. Tudo está perdido, acreditem. Quando percebemos a tolice que acabamos de cometer, lá se foram preciosas horas de trabalho contínuo.

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 11

Há por aí imensos manuais sobre como escrever livros, diz o sr. Anselmo. Eu mesmo poderia ter utilizado vários deles. São baratos. Mas não o fiz. No entanto, ele continua, no entanto, acho que posso compartilhar outra cartilha de igual importância, cartilha a que dei o didático nome de «Manual sobre como não escrever livros» (grifo do sr. Anselmo). É de fácil entendimento. Começa da seguinte maneira: primeiro, tu não podes escrever todos os dias. Aliás, se queres não escrever um livro, é de suma importância que não escrevas todos os dias. Nada de montares rotinas, nada de te encantares com o nascer do sol, nada de teres lá uma mesa para chamar de tua, nada de café matinal, nada de leituras inspecionais, nada de leres Montaigne, nada de ouvires o John Cage. Percebes: se não queres escrever livro, precisas de ser como um zombie alheado. Fecha os teus canais. Não viaja. Não sai de casa. Ignora tudo que possa inquietar a tua alma. Evita cair em tentações e não compres papel, caneta, lápis. Exclui do teu computador os editores de texto, quebra a tua impressora com uma machadinha… Acontece que o sr. Anselmo poderia passar horas e horas compartilhando pontos pertinentes do próprio «Manual sobre como não escrever livros», mas agora ele está com preguiças.

— P. R. Cunha

Maneira de praticar uma operação

Antes da escrita (do acto propriamente dito, como dois amantes que se preparam para uma noite de núpcias), a insistência em se ter o mínimo de tecnologia digital sobre a mesa — nada de controle remoto do ar condicionado, carregador, telemóvel, nenhum aparelho que precise de pilha/bateria para funcionar. Cercar-se de objetos analógicos (livros, esferográficas, bloco-notas, lápis, borracha, fotografias reveladas [como antigamente {uma 3×4 da minha namorada}], a biografia do Nietzsche escrita pelo Rüdiger Safranski, caneta corretiva «shake’n squeeze» fora da validade [JUN/2019]). Pequeno almoço: bandeja com café, biscoitinhos amanteigados, sande de queijo. Caso esteja a escrever qualquer coisa para o sítio web, só depois, bem depois, tiro o computador da maleta, abro o editor de texto, datilografo as anotações. A fonte do meu editor de texto imita a tipologia de uma máquina de escrever. Sim, sou ridiculamente contraditório. Tenho a certeza de que outros seres humanos desenvolveram rotinas mais eficientes (eficazes[?]) do que a minha (é tirar o telemóvel do bolso e não se preocupar com tretas, porque ali já se tem tudo). Acontece de eu ainda encontrar muito conforto nesse arcaico modus operandi. Como se o meu cérebro estivesse constantemente preparado para alguma catástrofe nuclear, quando só me restariam os pedaços de concreto dos prédios arruinados e a superfície amorfa da areia para descrever os meus pensamentos.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #49)

[da importância de se manter um diário.] certo, você está a esperar o autocarro, ou dentro de um anfiteatro durante o intervalo do espetáculo, ou na fila da cafeteria, ou a ler os jornais no saguão do hotel — quando alguém diz algo realmente interessante, uma faísca de ideia, aquela frase de certeza é a semente de uma narrativa (um romance, se calhar). você agora apalpa todos os bolsos da calça & não encontra nada. sem caneta, sem bloco-notas. a frase, como costuma acontecer com todas as frase, desvanece, torna-se opaca, fantasmagórica, até se mostrar apenas um rastro amorfo, como um lençol após incêndio doméstico. alas! depois de ter passado por incontáveis ocasiões desse gênero, resolvi finalmente comprar um diário. um diário portátil, pode-se dizê-lo, já que sempre me dei muito bem com os cadernos que costumo preencher de maneira um bocadinho neurótica durante as leituras da praxe. mas precisava de algo que eu pudesse levar para todos os lados. não é nenhum moleskine, não tem capa de couro, não é item de colecionador. trata-se de uma cadernetinha 11 x 16 cm fabricada pela tilibra que me custara doze dinheiros em papelaria popular no centro de taguatinga, distrito federal. a primeira medida que tomei foi garantir a mim mesmo que nunca, em hipótese alguma, mostraria o diário para vivalma. pois sei que quando quero mostrar algo a alguém acabo invariavelmente me policiando: importo-me com a tipologia, deixo de escrever termos inadequados (férteis adubos do fluxo de consciência), fico com medo de rabiscar & de repente arruinar a estética da página &tc. DIÁRIO SECRETO, escrevo na primeira página, sentindo-me um ingênuo miúdo do primário. mas que assim seja. por vezes, pego-me distraído, estou debruçado para diante do bloquinho com papel cor de creme, meu banco de dados às proliferações de possibilidades, discorro a respeito do baloiço moroso dos galhos de uma sibipiruna («caesalpinia peltophoroides»), sobre a importância de se manter um diário. estou feliz.

— p. r. cunha