Resíduos radioativos

Só sentimos falta/valorizamos quando deixamos de ter: boca sem afta; banho de água quente; livros de papel; um amor correspondido.

É importante guardar os pormenores do livro a respeito do qual estamos a escrever. 

Céline dissera que o livro é como uma moça grávida — não podemos expôr o bebezinho aos raios-x demasiadamente, atrapalha a gestação, o desenvolvimento do futuro miúdo. 

Faça o pré-natal com discrição, sem alardes. O segredo cria sensações misteriosas. (Basta observar as pessoas que preferem permanecer em silêncio.)

Tenha uma lista de títulos em mente ou anotada nas margens do caderno, mas não é imprescindível nomear o livro com tanta pressa.

No momento em que intitulamos a obra, ela perde um bocado de energia. Nomear — os estruturalistas sabem disso — é conceituar, expor o livro à luz do dia antes do necessário. 

Na altura em que escrevemos o título definitivo no papel em branco, estamos condenados.

Jogue o tubarão de volta para o oceano, finja que nada aconteceu.

Nunca dizer o nome, nunca dizer do que se trata. Se muito, explicar o mínimo: sou escritor, de forma que, obviamente, estou a escrever qualquer coisa. Isso é tudo.

Um livro ao revés, portanto. A folha de rosto fica para o final: como aquele artista que só assina a obra quando acredita que o quadro se mostra pronto o bastante para o escrutínio público.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #37)

em um dos eventos mais (quiçá o mais) emblemático da poesia romântica, coleridge & keats apertam as mãos em sinal de reverência mútua. meses depois, ainda sob os efeitos inebriantes do encontro, coleridge confessaria: «senti a morte naquela mão».

trecho do poema A BOLA (inédito & [propositadamente] incompleto)

o escritor segura a caneta
tal jogador domina a bola
apenas o instrumento de trabalho
nada quer dizer
se dentro de si o ar se perde
pressão atmosférica
há pelés, ronaldos,
maradonas, zidanes, baggios,
a mesma bola, mas quanta diferença
no tratar, no jogar, no drible, no gol
a pena literária, igual:
paveses, sebalds, machados,
barretos, styrons —
como pode
é a mesma caneta
a mesma bola
mas outras mãos
outros pés
& o abismo interior
a dividir os meios.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #31)

TEMA DA ÚLTIMA AULA DE ESCRITA CRIATIVA DE 2019

[SUGESTÃO DOS ALUNOS]

quando tu escreves ficção, tu estás a contar mentirinhas. sim, é um jogo. um jogo em que tu farás de tudo para esconder as costuras da tua trama & não aborrecer os leitores — que não querem lembrar que estão imersos em ilusões. portanto, tens de ser convincente. & também por se tratar de um jogo, o escritor de ficção tem a liberdade de soar/agir de maneira, digamos, excêntrica. tu crias mundos paralelos, percebes?, personagens, sentimentos, caos, ordem, és tipo um deus pagão sem ambições evangelistas. o próprio escritor se (re)cria. sempre antes de começar qualquer narrativa gosto de imaginar uma versão otimizada de mim mesmo. uma espécie de escritor sob efeito de esteróides literários, se preferires. o meu duplo é muito melhor do que eu, escreve muito melhor do que eu, é sociável, toca guitarra numa banda islandesa de post-rock, ele sempre tem muitas ideias, sabe colocá-las em prática, o meu duplo já publicou várias obras, sabe lidar com a pressão editorial, participa da feira do livro, conversa com os leitores sem magoá-los. enfim, acho que pegaste a essência, certo? acontece que, para a coisa toda funcionar, o doppelgänger precisa mesmo de ser inatingível. ele é um eu-hipotético-ideal-übermenschizado, uma direção. um foco. a escrita acontece enquanto tento me aproximar desse espelho encantador cuja desenvoltura me inquieta & me perturba & me fascina ao mesmo tempo.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #26)

estou com esta frase que não me sai da cabeça: ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. não me lembro quem disse isso. ou melhor: quem escreveu. porque, como se sabe, a minha interação com a chamada (abre aspas) realidade exterior (fecha aspas) é basicamente pautada pelos livros, palavras impressas. daí eu penso com os meus botões: kafka escreveria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? absolutamente. mcewan, também. swift, defoe, joyce, proust… é coisa que todos eles escreveriam. mas sinto cá uma culpa indecorosa. [«indecorosa» talvez seja a palavra mais sofisticada que vocês irão ouvir da minha boca. a verdade é que depois de um tempo a gente meio que aprende muitas palavras sofisticadas & o desafio é segurar a língua para não utilizá-las.] mas estava a explicar a respeito da culpa indecorosa, que vem do facto de eu apenas citar os estrangeiros: musil, kierkegaard, mann, handke, auster, essa gente. incomodar-me-ia ser visto pelos meus conterrâneos como um desses mimados-classe-média-que-leram-algumas-coisinhas-algumas-dezenas-de-livros-&-agora-se-metem-a-citar-os-gringos-apenas-os-gringos-nada-mais-que-os-gringos-pois-sentem-que-não-pertencem-ao-contexto-latino-americano &tc. &tc. &tc. acontece que também aqui, regionalmente (brasil & não só), pretendo fazer boa figura. então editamo-nos. acrescentamos nomes locais à laia de aprovação. é terrível. haroldo de campos diria que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO? diria. sérgio porto? sim. lima barreto? sim. borges, alan pauls, neruda, ricardo piglia, sabato, guillermo rosales (nuestros/mis hermanos), todos escreveriam que ESCREVER É UM MODO DE ESTAR NO MUNDO. o meu cachorro está neste exato momento a pular feito um maluco porque uns pássaros atrevidos querem comer a ração dele. por incrível que pareça, o cão se mostra mais sereno hoje. é que ontem ele tentou morder o filho do vizinho. o vizinho veio reclamar & eu disse: o seu filho fica a jogar pedras no meu cachorro & você espera que o meu cachorro faça o quê? acontece que é o terceiro filho de vizinho que o meu cachorro (um boxer caramelo absolutamente inofensivo quando ninguém joga pedras nele) tentou morder. o prefeito da rua recebeu as devidas reclamações & passou aqui para falar comigo. ele saiu do próprio hyundai reluzente, ajeitou os cabelos (automóvel & cabelos com coloração idêntica), o prefeito teve de bater palmas, pois a campainha não está funcionando. conversamos ali mesmo, à entrada. ele acredita que a melhor solução é castrar o animal. eu disse a ele que de forma alguma, essa medida está fora de cogitação, ninguém mexe nas bolas do meu canino, & perguntei ainda como ele se sentiria se tentassem tirar as bolas dele (dele = prefeito da rua), se o colocassem numa maca de ferro gelada & abaixassem as calças dele (prefeito da rua) & mostrassem um bisturi afiado & arrancassem fora as bolas dele (prefeito da rua). o prefeito da rua disse ai!, que isso seria terrível, sente dor no saco escrotal só de imaginar. pois é, então ninguém mexe nas bolas do meu cachorro.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #12)

arrumar a escrivaninha para um novo trabalho, nova empreitada, quantas portas serão abertas, escancaradas, outra vida. 

(& era como se minha cabeça estivesse hibernando, até que, de repente: booooom!)

vamos supor que francisco & samir sejam amigos, conheceram-se em criança, na escola. vamos supor também que eles não se encontram há décadas, vinte anos talvez. sabemos que vivem na mesma cidade; francisco é advogado, mora perto da praia; samir é arquiteto, mora ao cimo da serra. ambos estão naquela fase a que chamamos — não sem um comedimento desconfortável — de meia idade. aconteceu de franciso ser contratado para defender o caso de um empresário que, assim como samir, possui residência ao cimo da serra. francisco raramente sobe a serra, não lhe apetece o clima frio das montanhas, de forma que decidira aproveitar-se da ocasião & convidar o longevo amigo para, como se diz, colocar a conversa em dia. samir mostrara-se de facto muito surpreso com a ligação de francisco: eu realmente não esperava, ele disse, & antes de se despedirem ao telefone, combinaram hora (às 15h) & local do encontro (cafeteria da serra). vamos supor que francisco tenha aparecido, vamos supor ainda uma última vez que francisco tenha esperado cerca de duas horas pelo amigo arquiteto — mas samir nunca apareceu.

— p. r. cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #8)

(espécie de epílogo aos devaneios anteriores [#7])

poucos ofícios se alimentam tanto da procrastinação quanto a escrita. a falta de ideia que se transforma em mote para o escritor, pois lá está ele metendo-se a anotar justamente sobre ausências. metalinguagem, o espelho do sujeito que se volta para a prática em si, aos verbos, à fazenda gramatical. alguém entra na sala do escritor & se depara com uma figura ligeiramente curvada à mesa. o escritor diz: «escrevo sobre a não-escrita, escrevo a respeito de não ter nada para escrever», & o certo alguém acha isso curioso, magnífico, edificante. mas se acompanhasse um ensaio de ballet & escutasse a bailarina dizer que está a praticar a não-dança/dança-negativa/ausência de ballet, de certeza que tomaria a moça por louca. ou um pintor que garanta: estou a pintar um não-quadro. ora, esse aí desafia as teorias de física, perdera as estribeiras.

(…)

mui breve anatomia da escrita: escrever é edificante, horripilante, traz paz, traz guerra, escrever é bonito, é feio, pode esclarecer, pode obscurecer, é poético, é sintético, ruídos, silêncios, verborrágico, antropofágico, bibliofágico, escrever destrói, escrever constrói, é céu, é noite, nuvens, tempestades, tardes soalheiras, escrever afina & desafina, amplia & reduz, micro/macro, é um pugilista em constante treinamento, escrever acalma para desassossegar, é fogo-&-neve, paradoxo contraditório: escrever é vício.

— p. r. cunha

Caderno de viagem: outro prólogo (outra parte escrita num Fabienne Chapot [marketing and sales by New Edition Stationery BV — Netherlands] com folhas pautadas à moda escolar e motivos selvagens para a capa)

Como deve ler-se este caderno de viagem? Qual é a maneira mais apropriada de o ler? O autor do caderno sugere que ele devia ser lido de uma maneira — faz com as mãos como deve ser lido. Depois de apreciá-lo com a devida atenção, comentamos «sim!, sim!, agora compreendo, faz todo o sentido». Agradecemos com uma mesura desajeitada, rimos dos nossos modos teatrais. 

O viajante também conhece a filosofia de Wittgenstein. Importa-se imenso com a filosofia-Wittgenstein.

Podes ler o caderno de viagem uma primeira vez e achar profundamente tedioso, sofrível até; mas daí lê deste novo modo, de um modo que nunca imaginarias e dizes: ora!, que maravilha este caderno de viagem, brutal, agora gosto deste caderno de viagem etc. 

Estás a ler mais intensamente.

Como demonstrar que determinado autor de cadernos de viagem te agrada? Relê o autor várias vezes, consome o autor, ignora o autor quando for preciso, não sintas pena do autor.

O cidadão passa três breves dias em determinado país, volta e conta para os seus: conheci tal país. Vós sempre achastes isto curioso. Já Marco Polo esteve vinte seis anos na China e por vezes confessava: não conheço a China. Numa cidade como Lisboa, é preciso escolher, selecionar, é preciso ir para algum canto, explorá-lo, dar-se por satisfeito. Não podeis ter Lisboa toda para vós. Como dizia um ilustre antigo — é não estar em parte alguma em todo o lado estar.

Pôr por escrito os pensamentos de viagem, os aforismos de viagem, os trechos vagos que te assombram durante uma chuvosa noite em Aveiro. Escreves sobre a viagem como fosses salvar a sanidade de alguém. Provavelmente a tua própria sanidade.

É improvável imitar ipsis litteris a rota de outro viajante — as diferenças (ruas, estilo, temperatura [meteorologia de forma geral], profundidades, cores, linhas, pessoas etc.) são de imediato percebidas. Como dizia o teu avô: precisas criar os teus caminhos. 

Noutras palavras: o teu comboio vai para o outro lado. Tens uma certa emoção, queres tornar isto o mais claro possível — ao teu modo.

O tempo em Aveiro no período natalício: sol, chuva, ventos, sol, chuva, sol, ventos, chuva, ventos, sol. Uma escola de transitoriedade, as nuvens aveirenses ensinam-te que tudo passa. Nada é permanente. (Falar sobre as dificuldades de se trabalhar como meteorologista em Aveiro.)

Num passeio público junto ao Tejo, perto do Cais do Sodré, a ouvir a lamentosa sirene de um ferry que afasta-se para dentro do nevoeiro, ofereceram-te, em cinco ocasiões, sacolinhas de maconha. (…) A partir de então, decides ser mais cauteloso com a tua vestimenta.

É possível estar em Lisboa sem estar em Lisboa? Se lês os apontamentos lisboetas de Fernando Pessoa estás também a perambular pelas ladeiras, a ver as casas coloridas, estás a navegar o mesmo Tejo, a ouvir o fado — é possível viajar até às quintas portuguesas sem nunca aterrar em Portugal? Em que sítio estamos quando lemos os relatos do viajante, do observador? Cochilas com o Livro do desassossego ao colo e pensas para ti mesmo: onde é que me meti — onde nos metemos quando folheamos o Livro do desassossego? 

Ouves a respiração do poeta, estás numa aldeia distante. Não te apeteces voltar.

De início não pensavas muito em escrever sobre Lisboa, Évora, Sintra, Aveiro. Limitavas a observar e a entender a dicotomia que te ia na cabeça. Demoravas imenso tempo observando as gôndolas aveirenses com a ingênua crença de que poderias usar tudo aquilo que estavas a ver — tal e qual Funes, o memorioso de Borges.

Mas tu te esqueces, tu não te lembras de tudo.

Estás na Praça do Comércio, Lisboa. Atravessas o Arco da Rua Augusta. Estás rodeado de turistas, miúdos a falar o francês, o alemão, o espanhol, o russo, miúdos a correr loucamente atrás dos pombos bravos e modorrentos que comem as migalhas de um pastel de natas. Perguntas: ora, onde foram parar os portugueses? Não os vias por ali, isso era certinho.

— P. R. Cunha

Quarta nota #1 — hesitação entre uma explicação racional e realista e o acatamento do fantasmagórico

§ Escrever porque não se deve nada a ninguém — em caso de erro (conceito vago quando ficções), admitir o fracasso, procurar novos caminhos etc.

§ Houve um assassinato na floresta. Os dois maiores suspeitos do crime eram o Coelho e o Besouro. A família, os amigos e o advogado do Coelho, obviamente, defendiam o Coelho; enquanto a família, os amigos e o advogado do Besouro, naturalmente, defendiam o Besouro. No tribunal, a juíza Borboleta não conseguira controlar tamanha gritaria — na qual nenhum dos lados ouvia o outro. [As relações animais são tumultuosas em vários aspectos.]

§ Escritores, peritos no controle da mente. E fábulas dizem muitas coisas sobre a interioridade do indivíduo ao «brincar» com a simbologia coletiva.

§ Vinte partidas contra o computador (Rating: 1300), com onze vitórias para a máquina, oito vitórias para o homem — id est eu —, e um stalemate/impasse/empate. O xadrez ainda me ensina o que fazer quando não há mais nada a ser feito.

§ As livrarias brasileiras estão a fechar as portas exponencialmente e não vejo administradores públicos muito preocupados com isso. Viver no Brasil em 2018 — um pesadelo de olhos abertos (o mau-olhado daquele olho do mal).

§ «Prazer em jogar com o macabro e o terrificante», diria o Calvino.

§ Aquecimento global, florestas devastadas, oceanos apodrecendo, fusão da tecnologia da informação com a biotecnologia, androides/humanoides, inteligências artificiais, machine learning, reengenharia da vida… — tantos desafios ardilosos e ainda vemos por aí primatas a matar os outros por causa da cor e do número de uma camiseta. 

— P. R. Cunha

O dia em que tomei haxixe — ou quando Clarence Seedorf (ainda) tentava encantar a desconfiada torcida do Botafogo de Futebol e Regatas

Em abril de 2013 fui com um amigo assistir Botafogo e Sobradinho no estádio Bezerrão, Gama — a aproximadamente 30 km de Brasília. A ideia era ver o Seedorf jogar com a camisa alvinegra, mas numa altura a partida estava tão enfadonha que o meu amigo perguntou de forma descompromissada, como quem pede jujuba na farmácia: já escreveu sob efeito de entorpecentes?

Apesar de ter experimentado muitas coisas, digamos, ilícitas confesso que o ofício criativo me é mais proveitoso quando sóbrio. Vejamos… Uma ou outra canção depois de um cigarrinho de maconha e eis basicamente a minha experiência psicodélica no «fazer artístico». 

Sim, sou aquilo a que costumam chamar de careta.

Tenta escrever alguma coisa com haxixe, sugeriu o amigo enquanto o Seedorf errava um lançamento que, como diria um antigo, até a minha avó acertaria.

Dois dias depois do jogo (zero a zero) consegui o haxixe — cuja fonte, obviamente, não pretendo revelar —, tomei a erva e sentei-me para escrever. O relato, que ficara deitado para a gaveta de meias nesses últimos cinco anos, decidiu, enfim, se levantar.


Brasília, 19 de abril de 2013: haxixe

Tomei haxixe às dez da manhã, depois do pequeno-almoço. Estou agora sentado numa rede perto da piscina. O céu azul machuca os meus olhos, ao que preciso tapá-los com as mãos de tempo em tempo. Vejo aquelas sujeirinhas estranhas à moda minhoca navegarem no meu globo ocular. Nunca tomei haxixe. Tenho ao meu lado um bloquinho de notas para escrever a respeito desta experiência. Tudo o que sei sobre os efeitos desse entorpecente li nos livros dos senhores Walter Benjamin & Charles Baudelaire. Vaga sensação de premonição, angústia — ainda não sinto nada disso. Qualquer coisa de estranho, de inevitável que se aproxima — tampouco. Estou relaxado. Bloquinho de notas sobre a minha barriga. Bloquinho de notas sobe e desce de acordo com a minha respiração. Eu respiro de uma forma engraçada. E se eu tivesse uma parada cardiorrespiratória? Surgem imagens, recordações há muito tempo soterradas, às vezes prazer, às vezes dores. Minha infância foi feliz o bastante. Sensação de poder escrever o que eu quiser, qualquer coisa!, pois se algo sair dos trilhos posso sempre colocar a culpa no haxixe. Somos surpreendidos & assaltados por tudo o que acontece — um passarinho está a cantar ao longe, não gosto do canto desse passarinho, gostava que um outro passarinho maior pudesse dizer a esse passarinho menor, na língua dos passarinhos, obviamente, ei, passarinho, diria o passarinho maior, pode parar de cantar, o seu canto me irrita imenso, e eu apenas observaria o diálogo dos passarinhos, não interviria, de forma alguma, assunto de passarinhos. Surgem sensações atmosféricas: névoa, opacidade, pesadez do ar. Pesadez do ar. Pesadez. Do. Ar. A caneta caiu da rede. Grande preguiça para procurar a caneta. A caneta agora parece pesar uns cem quilos. Não consigo tirar a caneta do chão. A caneta é azul, dessas que podemos comprar no supermercado. Uma vez tentei roubar uma dessas canetas, mas não era uma caneta azul (tipo Bic), era caneta preta tipo outra coisa. Havia muita gente por perto e resolvi não roubar a caneta. Fiquei acanhado, percebes? Foi quando descobri que eu não era um criminoso. Um criminoso não daria a mínima para as gentes, para os seguranças, um criminoso de verdade apenas apanharia a caneta, colocaria a caneta para o bolso, mais natural impossível, como fazem os criminosos de verdade, como se nada tivesse acontecido. Caneta. Bolso. Sair do supermercado. Simples assim. Não fui feito para o mundo do crime. Não fui feito para nada. Estou a ser sincero agora. O haxixe me deixou sincero & sem filtros, penso. O haxixe começou a atuar. Sim, estou sob o efeito do haxixe. Escrevo sob o efeito do haxixe. Se sair baboseira, culpa do haxixe. Estou a me repetir. De tudo isso o tomador de haxixe dá conta numa forma que a maior parte das vezes se afasta muito da norma «comum». Dor de cabeça. A rede começa a me abraçar, planta carnívora. Sou um inseto dentro de uma planta carnívora cujos lábios têm formato de rede praiana. Minha mãe comprou essa rede em Cabo Frio, Rio de Janeiro. Não vou às praias de Cabo Frio há mais de cinco anos. Cabo Frio me faz lembrar de papai. Tudo o que me faz lembrar de papai me causa angústia. Não pensar em papai. Não ir a Cabo Frio. O mais comum é uma mudança ininterrupta entre estados oníricos e de vigília, um vaivém constante. Ondas, portanto. Quase morri afogado numa piscina quando eu tinha cinco, seis anos, a mão grande do meu avô puxa a minha cabeça pequena com cabelos claros. Os olhos e os cabelos dos bebês mudam de cor. Os olhos e os cabelos dos adultos perdem a cor. O cabelo do meu avô era grisalho. A mão dele me salvara de um afogamento precoce. Devo a minha vida ao vovô. O nexo entre as coisas torna-se difícil de estabelecer. Meus pais trabalhavam no hospital; médicos. Vovô ficava em casa com a gente. Vovô dizia que conseguia ver o espírito das pessoas mortas. Ficávamos sentados, vovô, meus irmãos, tenho um irmão e uma irmã, ambos mais velhos, ficávamos sentados, e vovô nos contava alguma história sobre um ou outro espírito, e a luz da sala por vezes começava a piscar, e meu vovô gritava: pare de piscar!, e a luz parava de piscar. Eu olhava para os meus irmãos, e estávamos todos naturalmente assustadíssimos, mas permanecíamos em silêncio, vovô sempre transmitira muita segurança, sabes, era esse tipo de pessoa, muitos espíritos na sala, a luz piscava, eu a me cagar de medo, mas nada de pânico, vovô está ali. O pensamento não ganha forma de palavra. Tudo é irresistivelmente hilariante. Sou um consumidor de haxixe, repito para comigo mesmo. Mundo do crime. «É curioso que a intoxicação com haxixe não tenha até agora sido estudada experimentalmente.» Acho que para quem tomou haxixe, inferno-&-céu — tudo a mesma coisa. Meu avô morreu, meu pai também morreu, eu também vou morrer. Tomo haxixe, escrevo sob efeito do haxixe. Talvez eu morra aqui mesmo, nesta rede carnívora. Estou com sono. Fecho os olhos.

— P. R. Cunha

Fragmentos de um romance inacabável (parte VII) – algo que sabemos muito bem: a calmaria do Escritor não pode durar para sempre

As cartas que enviara aos amigos e aos familiares transbordam de obscurantismo. As emoções, nas raras ocasiões em que elas timidamente aparecem, estão como que escondidas sob máscaras de formalidades e distanciamentos. Noutros termos: se lemos o que ele escrevera nessas correspondência íntimas, temos quase a certeza de estarmos a lidar não com um homem real, mas com um personagem de literatura. 

Sob a fumaça, o fogo continua a mover-se sem controle, dia após dia. Estopim, gatilho, combustível para escrever. O Escritor está deitado na rede a observar os pássaros: calado, na dele, não incomoda vivalma. Seria uma péssima ideia aborrecê-lo, levá-lo ao limite, colocar mais complicações na sua cabeça. (Não mexer com quem está quieto etc.) Quanto mais você cutuca o Escritor, que — como se disse — está deitado na rede, calado, quanto mais você bagunça a ociosidade do Escritor, mais provável é que ele se torne irascível, imprudente, tristonho, colérico, ardiloso, macambúzio, desajuizado.

As ondas podem parecer calmas e reconfortantes, mas também elas devem quebrar em algum ponto, o processo precisa terminar em alguma praia, em alguma parede rochosa, na madeira de um cais, na proa de um navio. O Escritor não pode se manter deitado na rede a tempo inteiro.

Ter muito o que dizer, e não dizer nada. Ter muito o que construir, e não construir nada. Há séculos o ser humano tem feito isso.

Abre um livro, semblante de quem tem algo de extrema importância para compartilhar, e compartilha: aqui, onde as promessas para as gerações vindouras foram armazenadas. Aponta para o livro, rasga uma página, continua: é isso que acontece com as promessas. Rasga outra página: Palavras que se perdem nos resquícios apodrecidos das obras do passado. Rasga ainda outra página. E outra, e outra, e outra…

— P. R. Cunha