A colmeia

O pai e a mãe estão conversando na cozinha. Enquanto o pai prepara o café, a mãe lê o jornal e diz: é mesmo um sistema econômico predatório, inútil, onde já se viu?, telemóvel com ecrã dobrável, quem precisa de um troço desse? O pai fica a observar o fluxo constante do café a cair do coador: dizem que o Franklin lá da firma tem um desses — ele fecha a garrafa térmica —, qualquer dia o planeta não suporta mais esse tipo de capricho. Lá em cima o menino está dormindo. Abre os olhos. Faz uma espécie de cabana com o próprio cobertor. Espera até que alguém vá chamá-lo para se arrumar e ir à escola. O menino regozija-se com aqueles minutinhos extras de sono, os melhores minutinhos de preguiça de sempre, ele pensa. Mas ninguém aparece. O menino se dá conta de que é sábado e a soneca transgressora perde todo o sentido. Ficar deitado sem ter que fugir de compromissos não possui o mesmo sabor. O menino se levanta e vai até ao quintal. O pai e a mãe ainda estão a conversar na cozinha. A mãe está a comer as torradas com manteiga enquanto observa pela janela embaçada o filho a brincar no quintal. O menino fica parado embaixo da árvore. Ele tenta jogar pedras na colmeia. As três primeiras pedras não atingem a colmeia, a quarta, sim. Daí as abelhas assustadas voam em todas direções, inclusive na direção do menino, que começa a ficar com a pele empolada — é alérgico. Mas não há nenhuma moral realmente relevante nesta história.

— P. R. Cunha

Digressões sabáticas sobre: encontros de turma

Ir a encontros de turma é uma experiência aterradora. Ali estão os seres humanos com quem você estudou na juventude, e que na época eram apenas crianças bonitinhas com ambições engrandecedoras — i.e. salvar o mundo do aquecimento global —, mas hoje têm barba, varizes, cabelos brancos, falam de um jeito estranho, halitose, fumam à beça, e tomam café a cada cinco minutos. Logo você percebe quem se deu bem (o estilo da roupa, geralmente com relógio de ouro no pulso [Rolex etc.], o perfume, o jeito de segurar a taça de vinho, o rosto de desdém [asco, desprezo, por aí fora] quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico), e quem, digamos, não se deu nada bem (o desalinho, a camisa estampada, o desodorante, muitas bijuterias, o batom vermelho de mais à ocasião, a barriga de chopp, a alegria no rosto quando o garçom oferece cerveja num copo de plástico). A verdade é que lidar com o sucesso alheio não é fácil. Alguém escolhera a profissão que você tanto queria e esse alguém hoje exerce um cargo incrível, tem dois filhos, uma esposa maravilhosa, mora em Londres, enquanto você ainda vive com a mamã e brinca de ser artista incompreendido. Você então bebe demasiado para esquecer que é — aos olhos dos seus colegas de turma — um fracassado. Você pensa em ligar para o terapeuta que a sua irmã lhe aconselhara no início do ano. Você diz consigo mesmo: assim que sair deste encontro perturbador, vou ligar para o terapeuta da minha irmã. Ser mais «pé-no-chão», procurar um emprego de verdade, largar das asas da mamã. Daí você lembra que tem trinta e oito anos, ou quarenta e dois anos. Começa a sentir a exaustão da empreitada. E é justamente aí, no momento em que você está a se sentir mais vulnerável, mais fragilizado, que o gajo com a profissão que você tanto queria, que o gajo que tem a mulher boazuda, os filhos prodígios, a casa londrina, é justamente aí que esse belíssimo espécime da raça Executivus prosperandus oferece-lhe uma vaga de estagiário para o almoxarifado.

— P. R. Cunha