Descobertas incompletas

Sento-me à mesa da cafeteria, peço um expresso médio, acendo o Marlboro:

Nos primórdios do século 20, em contexto de guerras-que-se-alastravam, Max Horkheimer alegou que o cerne da vida é atormentar-se e morrer. Clara pitada de azedume schopenhaueriano, cuja filosofia do pessimismo norteara diversos outros pensadores da chamada Escola de Frankfurt — universidade do abismo. As primas Culpa e Contradição também estariam à espreita, escondidas atrás do arbusto, prontas a atazanar o vivente pedestre, de preferência em circunstâncias melancólicas. Haveria um esforço honesto para manter distância dessas mazelas taciturnas, e a essa tentativa Bertrand Russell (outro filósofo pouco inclinado ao sorriso) chamara de «a parcela da felicidade à qual todos nós, ao que parece, temos direito». Seres angustiados em busca de antídotos para amenizar sofrimentos, como já se escreveu em demasia. Almas errantes à mercê de um universo que não é bom, nem mau, e tampouco se importa em nos fazer felizes ou infelizes. Mas dentro desse teatro de indiferenças — ainda a ecoar as palavras de Russell* — cada um teria a possibilidade de construir para si uma série de valores e desejos. Caberia a nós, portanto, estabelecer uma vida satisfatoriamente plena. Mesmo que em boa parte do tempo tal plenitude se mostre inalcançável.

— P. R. Cunha


*Sugestão de leitura: Bertrand Russell, No que acredito (L&PM Pocket, 2010).

Sra. Carmen & Grand Hotel Abyss (sobre escrever livros estranhos)

Na época eu estava a passar por dificuldades financeiras, como facilmente se compreende, e a sra. Carmen ficou sabendo e me disse assim: posso te ajudar, criatura, mas com uma condição. A sra. Carmen, para quem não sabe, tem noventa e seis anos, dama grisalha, capciosa, imenso apetite sexual. Precisas apenas de permanecer um tempinho comigo, todos os dias, ela explicou, coisa de duas ou três horas, à sala do meu apartamento, eu te observo, podes ler também se quiseres. Mas, sra. Carmen… — eu disse. E a sra. Carmen fez «Shhhhh!, Shhhhh!!!!, Shhhhh!!!!!», é pegar ou largar. Eu peguei. Durante dois meses fui todos os dias (menos aos domingos) ao apartamento da centenária, carregava meus livros, escrevia enquanto ela ficava a me olhar e a dizer: menino bonito, rapaz agradável, pedaço de mau caminho, pão. Por vezes a sra. Carmen pegava no sono de um jeito engraçado, toda oblíqua na poltrona verde e eu bem achava que ela tinha batido as botas. Aquilo me dava nos nervos, falo a sério. Eu então me aproximava de mansinho e ficava a esperar que a barriga dela fizesse algum movimento. Vai, barriga, move. E se a coisa demorasse a se mover eu balançava os ombros da sra. Carmen: ei, sra. Carmen, está a dormir? Ela se estremecia e os lábios respondiam com um sorriso maroto: ai, meu pãozinho, menino bonito, podes beijar-me se quiseres.

(…)

O Stuart Jeffries contou-me que havia um desentendimento entre os filósofos György Lukács e Theodor Adorno. Lukács dizia que a Escola de Frankfurt — da qual Adorno fazia parte — não dava conta de mudar na prática aquilo que criticava em teorias. Os membros desse movimento, escreve Lukács, fixaram residência no Grande Hotel Abismo: bela morada equipada com todo o conforto, à beira de um precipício, o da vacuidade, da absurdidade.

Quando começo a escrever um livro estranho, acho que também me escondo num desses hotéis, para refletir sobre os sofrimentos do mundo a uma distância segura. E isso deve fazer o esqueleto do sr. Lukács se remoer todo, a sete palmos abaixo de terra.

— P. R. Cunha