devaneios da própria máquina de escrever (episódio #33)

hoje de manhãzinha aconteceu a primeira partida do torneio de xadrez (modo blitz [10 minutos]) do qual estou a participar nas plataformas chess.com. meu adversário foi vujasinvujke, da sérvia. com pontuação de 1425 (mais de 1800 vitórias), vujasinvujke ganhou fama de ser um enxadrista ousado & agressivo. de forma que precisei de alterar/adequar o meu estilo de jogo — que costuma ser voltado às trincheiras defensivas.

prcunha (brasil): peças brancas
vujasinvujke (sérvia): peças pretas

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minha abertura foi propositadamente simples (uma variação minimalista do paulsen attack) — de certeza que o sr. vujasinvujke não me conhecia, ao que a pegadinha parece ter funcionado. numa partida de xadrez, sabemos, brinca-se muito com os processos mentais do adversário. se enfrento um oponente bem mais capacitado do que eu, cometo erros bobos à laia de me fazer de desentendido. & se a isca é mordida, as chances de vitória aumentam consideravelmente (como se verá a seguir).

o meu primeiro «erro bobo» foi cometido cedo, antes de o relógio ultrapassar o minuto nove. vujasinvujke, como era esperado, atacava-me com insistência maquiavélica — (nb4) o cavalo dele já às portas da minha família real, a ameaçar ao mesmo tempo rei-torre-&-rainha, num xeque que me seria devastador (vide nc2).

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em vez de defender a minha posição com a rainha (sei lá, qb3), retribuí o ataque de vujasinvujke com o bispo (repito: sou basicamente um zagueiro de várzea a dar botinadas no adversário, atacar nunca foi o meu forte): xeque.

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o ruim das partidas online é que não podemos ver a fisionomia do adversário. eu basicamente «dei» um bispo para vujasinvujke chamar de seu. ele aceitou o presente de bom grado, pescou a minha peça com o próprio rei.

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agora sim, rainha branca em b3 (xeque). os xadrezistas não têm papas na língua, então digo-vos sem falsa modéstia que depois dessa jogada a partida estava ganha (o duelo inteiro pode ser visto no gif a seguir). preciso de confessar, no entanto, que muito provavelmente tudo só se passou dessa forma porque o sr. vujasinvujke não conhecia o meu estilo de jogo — enquanto eu já o vira trucidar inúmeros adversários. & são esses pequenos detalhes que podem decidir as batalhas ao tabuleiro.

board

— p. r. cunha

Praia de Icaraí

«A evasão de P. R. Cunha para dedicar-se algures integralmente ao xadrez causou nesta família uma impressão profundamente desagradável.»
Notas de minha mãe

Foi preso ontem, às onze horas da noite, um enxadrista brasiliense que se achava embriagado, completamente fora de si e provocava desordem em um boteco na rua Mariz e Barros, Niterói. Na ocasião de ser conduzido para a delegacia, tentou surrar o rondante com um chapéu-de-chuva, que trazia consigo. Ninguém se feriu.

O que disse o delegado a respeito do enxadrista brasiliense: o que é certo é que muito raramente aparecem aqui meliantes deste gênero — intelectual, jogador de xadrez, e pelos vistos ainda escreve romances. Não deixa de ser uma pena, posto que são excelentes conversadores.

Como vais?, o delegado perguntou para o jogador de xadrez. Bem, respondeu o jogador de xadrez com uma resignada tristeza. Já não sofres?, perguntou o delegado. No físico, disse o jogador, no físico, passo às mil maravilhas.

O enxadrista brasiliense, que está na 467ª posição do ranking mundial, foi liberado hoje pela manhã. E isso tudo é confuso demais.


» Malas prontas para Niterói

prcunhaniteroiriodejaneiro

Na dissolução do espaço e do tempo de uma partida de xadrez, também o enxadrista se desintegra

Ajeitou as peças com esmero,
e viu-se desaparecer no tabuleiro,
no jogo de xadrez,
num combate glaciar.

Há anos que arquiteto uma fuga do mundo para passar o resto dos meus dias a jogar xadrez. Uma escapada, como se costuma dizer, para apaziguar a angústia que me tolhe, etc. Jogar o jogo de xadrez, ter ao meu lado uma chávena de café — como se essas coisas fossem as derradeiras. AMBIENTE DO JOGO DE XADREZ: cabana alpina à Nietzsche, sem qualquer sinal de vida além do ronronar distante dos aquecedores e o som do nevão que cai alhures. ADVERSÁRIO DE XADREZ: semblante indiferente, como que perdido num labirinto de jogadas mentais que aos poucos se materializam ao tabuleiro; ele-ou-ela inclina a cabeça para trás, na atitude de quem concentra-se com afinco imperturbável. Adversário de xadrez (ele-ou-ela) demonstra, portanto, uma frieza assustadora; e quando me vejo perante essa criatura polar reconheço, em todos os sentidos do termo, o meu íntimo opositor (doppelgänger). Que coisa tão estranha! DURAÇÃO DO JOGO DE XADREZ: tempo indeterminado, um jogo de xadrez sem cronometragem. INÍCIO DA PARTIDA DE XADREZ SEM CRONOMETRAGEM: os enxadristas analisam-se como dois condenados que se dirigem ao cadafalso; têm no rosto aquela vã tentativa de coragem. Resignaram-se. Os enxadristas aguardam o movimento do adversário em absoluto silêncio. Escutam o tamborilar da neve no tejadilho. Os enxadristas agora jogam o xadrez — para dar cor a uma vida que já lhes feriu imenso.

— P. R. Cunha