O resto é xadrez

São cinco horas & vinte minutos da tarde de um desses dias de inverno tão comuns em Brasília. Estive a jogar xadrez até agora.

O xadrez sempre tirou o melhor & o pior de minhas capacidades. O xadrez me proporciona certa paz; a beleza de uma jogada bem executada pode ser a diferença entre uma semana aprazível & serena e uma terrivelmente irritadiça, sem vontades etcétera. Entusiasmo & apatia. O xadrez me deu a concentração plena, foco, a disciplina, excelente desenvoltura na hora de lidar com os embaraços da vida, tornou-me um ser humano mais inteligente, adaptável — realista.

Mas o xadrez também me trouxe ansiedades, frustrações, birras infantis diante de adversários muito mais fortes do que eu, fúria nas derrotas, vício, noites de pesadelo, o xadrez já roeu todas as minhas unhas, já me fez chutar paredes de concreto/madeira/ferro, espatifar bonitas jarras de vidro no chão, xingar a pobre da minha tataravó, cujas rugas jamais vi.

O xadrez acalma. O xadrez acirra os ânimos. 

O xadrez quer me matar do coração.

— P. R. Cunha