Como sentir saudades do cérebro literário

No início deste semestre, uma das minhas alunas de escrita criativa veio conversar comigo e ela estava tão angustiada que eu precisei de dizer: acho melhor sentar-se e tomar um copo d’água, está a ter um burnout. Ela bebeu o copo d’água num só gole e contou-me que há tempos que não conseguia terminar um livro, qualquer que fosse o tamanho do livro, que distraía-se com facilidade, perdia o foco, que o cérebro dela parecia ter se acostumado completamente com o imediatismo das informações eletrônicas, e mesmo as notícias mastigadas da Internet por vezes se tornavam tão maçantes que chegar até ao ponto final era um fardo quase insuportável.

A primeira coisa que perguntei foi se estava cadastrada em alguma rede social, ao que ela me respondeu que sim: Facebook, Instagram e Twitter. Contou-me também que havia tentado manter um microblogue nas plataformas tumblr, mas que a tarefa não lograra êxito, pois o excesso de outros microblogues tirava-lhe o tempo necessário para escrever os próprios textos, e que o acúmulo de fotografias, relatos egotistas a respeito de política, as fofocas do entretenimento, cenas de barbáries nas grandes cidades faziam-na ter ânsia de vômito e deixavam-na com a cabeça à roda.

Acho curioso perceber que, via de regra, quando converso com alguém a respeito daquilo a que costumam chamar de incapacidade moderna de concentrar-se numa tarefa durante muito tempo, é a própria pessoa que acaba a revelar os prognósticos: são as redes sociais que consomem, as notícias fáceis e costuradas que empobrecem a experiência da leitura, o envolvimento desnecessário com usuários intransigentes que acham que estão a mudar o mundo coçando o traseiro enquanto gritam impropérios atrás do ecrã do computador… e por aí adiante.

Apesar de estar escondido dentro de uma caixa craniana e dar a impressão de inacessibilidade, o cérebro é um músculo que também precisa de exercícios, que atrofia se for neglicenciado. Trocando em miúdos: se durante anos os seus braços acostumaram-se a carregar apenas o peso da caneca do café até aos lábios, não adianta ir a um ginásio desportivo para tentar levantar uma barra de 150 kg (spoiler alert: vai se arrepender enormemente). O mesmo parece acontecer com a capacidade cerebral: os neurônios não têm juízo de valor; se condicionarmos o cérebro a receber informações rápidas e superficiais, é assim que ele vai querer mastigar os próximos alimentos.

A minha aluna, que na primeira juventude orgulhava-se imenso pois devorava sem grandes dificuldades livros como Guerra e paz do Tolstói, ou mesmo o calhamaço de A piada infinita do David Foster Wallace, agora sentia-se fatigada diante do livrinho de bolso A alma encantadora das ruas, do João do Rio. Acontece que passou quase uma década a manusear constantemente o próprio telemóvel, a buscar os atalhos mais fáceis, a distrair-se com a inutilidade alheia, ao que o cérebro — que antes se mostrava uma excelente máquina literária — entregou os pontos, como se dissesse: ok, se é isto o que tu queres, vamos lá ser rasos também.

A boa notícia é que o período de desintoxicação digital mostra-se relativamente curto. Se você numa altura da vida leu bastante até ser fisgado pelos imediatismos da Internet, não precisa de se desesperar (tanto). É reversível.

Minha aluna decidiu utilizar o próprio telefone apenas para aquela função que quase ninguém mais se importa e que deveria ser a principal tarefa de qualquer telemóvel, isto é: fazer chamadas. Ela desativou as redes sociais, viu-se de súbito com cerca de cinco horas livres por dia, horas que antes eram gastas a ler comentários disparatados, a assistir aos vídeos de gatinhos a fazer coisas que os gatinhos fazem. Hoje aproveita esse tempo para exercitar o cérebro como costumava fazer: leu João do Rio, depois os contos de Raymond Carver, os primeiros textos do Lima Barreto e escreveu uma das estórias mais interessantes do nosso curso. 

Na última aula, ela veio me agradecer. Tinha os olhos repletos de lágrimas e segurava os dois volumes da biografia do Frank Sinatra escrita pelo James Kaplan (quase duas mil páginas). Dissera-me que leria tudo nas férias e que, depois, dedicar-se-ia à obra do Scott Fitzgerald.

Esta minha breve e enriquecedora experiência como «professor» demonstrou-me que não existe nada mais gratificante do que devolver a vontade de literatura a alguém.

— P. R. Cunha


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Felizmente, ainda é possível escolher entre o ecrã e a folha do livro / ©Event Horizon

Imagens invertidas

Para a Lunna Guedes

Escritor é, amiúde, um ser que gosta de observar. Criatura inclinada à chamada «busca de padrões». E como fica imenso tempo isolado, longe com os próprios pensamentos, acaba que encanta-se quando se depara com um qualquer semelhante — um doppelgänger.

Tais observações podem também desconcertá-lo. Nada é assim tão simples com escritor. Como no caso de Jason Molina, que sentia muita culpa por ser artista, por ter as liberdades de um artista. Molina perguntava-se por que cargas d’água ele não era o sujeito a limpar o lixo, por que cargas ele era o tipo que ficava a observar o sujeito a limpar o lixo. Aquilo não lhe parecia correto. 

Ociosidade constrangedora, dir-se-ia. E o doppelgänger se transforma em antimatéria.

Os físicos explicam que a antimatéria é composta de antipartículas — ou seja, partículas com cargas opostas, diferentes das que podemos encontrar na matéria normal (à guisa de um breve exemplo: as antipartículas dos prótons são os antiprótons [basicamente, prótons com carga negativa]). Quando partículas e antipartículas se aproximam, o resultado é um aniquilamento de grandes proporções. 

Isto é: no mundo subatômico, encontrar-se com um doppelgänger não é nada romântico. Os escritores Edgar Allan Poe e Robert Louis Stevenson pareciam compreender isso melhor do que toda a gente. Deparar-se com um igual com cargas opostas (o estranho caso do dr. Jekyll [Je: «eu» em francês / kyll: corruptela de kill {«matar» em inglês}] e sr. Hyde [corruptela de hide {«esconder», «ocultar» em inglês}]) por vezes pode gerar inquietações irreversíveis.

Os gatos, sabemos, são os doppelgängers selvagens de uma enormidade de escritores — que estimam a independência dos felinos, o apreço pela solidão («Quem não tem cão, caça como o gato», ou seja, sozinho). Mas trata-se de um olhar que também exige certas longitudes. A depender do momento pelo qual passa o escritor, essa análise felina pode deixá-lo irrequieto. Nem todos os gatos vão lhe parecer bichos solitários e felizes. Principalmente quando o escritor percebe (eis novamente a «busca de padrões») que muitos gatos tendem a voltar às casas cujos humanos davam-lhe mais carinho e comida.

Escritor que busca compreender essa sorte de fascínio, pois encontra nessas contradições uma série de possibilidades, de conjecturas, de fins. Então escreve poemas sobre os doppelgängers, sobre os gatos, porque a solitude com ressalvas dessas figuras pode ser a dele num futuro bem próximo. Quer saber, portanto, se numa altura, depois de correr o risco de aniquilar-se, ele também buscará a companhia de humanos que davam-lhe carinho, comida… um abrigo.

— P. R. Cunha

Masha Tolkalina fala sobre os contos russos de P. R. Cunha

— Tradução de Alice V. Monteiro

De modo geral, os russos ainda têm uma visão deveras tropicalista a respeito do Brasil: terra de gentes felizes, que sabem lidar com a penúria, enorme região geográfica do globo onde há carnaval e é verão o ano inteiro. Ao que por vezes se demora a compreender quando se chega a estas latitudes mais invernosas qualquer coisa de muito melancólica de um país que emana tanta amistosidade e benevolência.

Em certa medida, é o que está para acontecer com as primeiras tentativas de se apresentar por aqui os contos do escritor brasileiro P. R. Cunha — que escreve diretamente neste nosso ardiloso idioma. Os temas que permeiam as suas curtas narrativas logo demonstram que ele está lá muito mais interessado na descrição da infelicidade do que nos preparativos de uma festa de máscaras com papeizinhos coloridos.

Lida-se, inclusive, com uma série de motes ainda caríssimos para os autores russos; como aquela tristeza nascida do esvaziamento do sagrado, do desespero, o espinho na carne da modernidade, nas palavras de Yves Bonnefoy. Seres humanos que, continua o próprio Bonnefoy, estão sempre a nascer, sem jamais chegar a se livrar de nostalgias, pesares e sonhos.

Imaginamos ao lado da escrivaninha do brasileiro o anjo taciturno de Dürer, quase podemos observar as pilhas de livros de Thomas Bernhard e W. G. Sebald — confessadamente as duas maiores influências de P. R. Cunha — a servirem de fortaleza contra as vertigens de um abismo que se encontra sempre às redondezas.

Na seara russa, o primo mais próximo é aquele homem enfermo, o homem que se diz muito mau em Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Tipo suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas que não deixa de sê-lo por nada. P. R. Cunha a colocar suas personagens embaixo da terra, ou numa espécie de exílio prolongado — e nisso ele tem também um bom quinhão do nosso Venedikt Erofeev.

São relatos de figuras perturbadas que aos poucos começam a cair num inevitável esquecimento porque têm dentro de si já uma alma esvaziada de sentidos. A vida que não vive mais, como disseram. A atmosfera é de gelo, de tempo paralisado, de inevitabilidade… de morte — o que deixa tudo ainda mais inquietante e o leitor fica mesmo a se perguntar, por céus!, em que cantos brasileiros haveria de ter tanta treva.

Ainda é muito cedo para dizer como será a receptividade dos russos quando aqui chegarem os primeiros exemplares dos livros de P. R. Cunha. Porém, antes de abri-los, talvez fosse o caso de se entender que a neve e a neblina não são fenômenos unicamente meteorológicos — pois que também assolam o coração humano. E vem por aí uma nevasca brasileira.

O manipulador de vidas

Vladimir Nabokov está a observar uma antiga fotografia de família e percebe que para um canto escuro encontra-se um carrinho de bebê vazio. O ano é 1899 e o carrinho foi um presente de alguma tia para o bebê Nabokov, que nascerá em abril. A presença daquele carrinho o inquieta muitíssimo. As outras pessoas retratadas sorriem de maneira despreocupada, não ligam para o carrinho vazio, não se importam com a ausência de Nabokov. Perturba-o não a morte — os milhares e milhares de anos em que tudo se passará sem ele —, mas sim os invernos em que a família viveu sem se dar conta do fato de que um dia ele iria existir. É de se perder os parafusos, dizia o Nabokov, cuja obra está repleta de memória e de como utilizá-la para alastrar-se no tempo. Estudamos o Império Romano e de súbito somos transportados para o longe, não estamos mais presos a estes setenta/oitenta anos de planeta. Regressamos aos gregos porque os filósofos de Atenas nos confortam ao mostrar que é possível desacelerar o comboio cronológico se dedicarmo-nos à contemplação, aos pensamentos, às intempéries que guardamos, como se diz, no lado esquerdo do peito. Fugir, portanto, desta cadeia temporária dentro da qual a nossa existência orgânica se mostra enjaulada até chegar a hora do suspiro derradeiro. Nabokov e tantos outros escritores que já lá pensaram um bom bocado, entraram em contato com a falta de sentido de todas as coisas e à laia de autodefesa (re)criaram para si outras possibilidades. Tentativa de multiplicar-se, sem dúvida — porque uma só vida nunca bastou. Veja o caso do rapazote contemporâneo que está sentado ao ecrã a perder-se num qualquer videojogo e quando se morre há sempre uma nova chance, reinícios. Capcioso, o videojogo. Sabemos muito bem que nada se passa dessa maneira quando nos deparamos com a realidade. O automóvel despenca do desfiladeiro, ninguém sobrevive, não há segunda chance. Mas de alguma forma conforta pensar que pelo menos preencheram o carrinho de bebê, o bebê cresceu, cá se distraiu, o bebê morreu.

— P. R. Cunha