Escritores solteiros casam-se com a própria obra

Há poucos meses participei de uma entrevista de emprego em que a pessoa responsável pela seleção dos candidatos me dissera: a nossa empresa é uma amante muito exigente. Essa frase ficou na minha cabeça.

Escrever livro é como estar num relacionamento — há períodos incríveis em que autor e narrativa parecem feitos um para o outro, depois brigam, dormem em camas separadas, sentem muita raiva, saem para jantar, pedem desculpas, dormem juntos novamente etcétera.

Para Franz Kafka, escrever era solidão absoluta, a descida ao frio poço de si mesmo. Não é difícil, portanto, compreender os motivos de o autor de A metamorfose ter confessado várias vezes ao amigo Max Brod que o casamento à moda antiga de certeza lhe tiraria a ociosidade da escrita. Por fim, viu-se diante de um impasse: ficar com a esposa de papel ou contrair matrimônio com a solícita Felice Bauer. E toda a gente sabe o que ele escolhera.

Escritores que precisam do silêncio, do vazio, que não aturariam nenhuma voz atrás dos ombros a lhe dar pitacos sobre esta ou aquela cena, «este personagem não me cativou», diz o cônjuge, «e se você fosse um bocadinho menos pessimista», pergunta a noiva.

Jane Austen nunca se casou, Emily Dickinson tampouco, Henry Thoreau e Walt Whitman também não, Louisa May Alcott dizia preferir remar a própria canoa — sozinha.

Hijos sin hijos, diria o Enrique Vila-Matas. Escritores que decidiram pela solteirice humana, porque a literatura, como se sabe, é uma amante muito exigente.

— P. R. Cunha

O dia em que conheci o Enrique Vila-Matas

Desde já esclareço que utilizo o verbo conhecer com aquela despreocupação do viajante que passa duas horinhas ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris e volta para casa a pavonear que conheceu a França. Pois que tietagem pressupõe atitude, afinal. E quando um mero escriba se mete a falar sobre a admiração que sente por determinado escritor famoso, corre-se sem dúvida o risco de cair para o bobo. Em julho de dois mil e doze saí de Brasília dentro de um Nissan Tiida para percorrer mil duzentos e cinquenta e três quilômetros de estrada até a Festa Literária Internacional de Paraty — a boa e simpática Flip. Era a décima edição da festinha livresca e permiti-me grandes expectativas porque 1) Enrique Vila-Matas e 2) Jennifer Egan, Ian McEwan, Dany Laferrièrre, Alejandro Zambra. Mas a primeira coisa em que realmente reparei no lugarejo não tinha muito que ver com literatura: foi a quantidade expressiva de seres humanos que andavam lá para a chamada melhor idade. Velhinhos e velhinhas tropeçando nas ruelas de paralelepípedos de Paraty. Pensei com os meus botões que teria sido gira se a organização também tivesse se dado conta de que boa parte do público leitor brasileiro já passara dos sessenta/setenta carnavais e construísse caminhos mais seguros, pelo menos durante o evento. Nada. À guisa de desabafo compartilho a tese que elaborei quando diante dessas negligências: acredito que os idosos têm medo de reclamar e depois serem tachados de «velhinhos rabugentos», e a organização Flip bem sabe disso, e fica quietinha na dela porque não quer investir dinheiros em caminhos seguros para aqueles que, no fim de contas, são bem os que financiam a coisa toda. A cidade é bonita e agradável para os jovens adultos. Depois de um tempinho a perambular pelo centro, confesso que senti enorme vontade de cortar os pulsos por conta dos comerciantes de poesia que me abordavam a cada dois passos para ler estrofes de gosto duvidoso ao estilo: estas palavras, meu amigo, são Paraty. É necessário um esforço considerável para não cair numa branda melancolia e para não começar a achar toda aquela overdose de literatura um verdadeiro absurdo. Felizmente, percebi ligeiro que havia uma espécie de antídoto «contra» os poetas de rua: sentar-se nalgum canto, abrir um livro do Foster Wallace e responder numa qualquer língua estrangeira que je ne parle pas portugais. É claro que depois de me utilizar desse subterfúgio canhestro eu comecei a me sentir culpado e por vezes cheguei mesmo a abordar poetas-comerciantes na rua para pedir poema: vá lá, leia-me alguma coisa. Eles abriam sorriso que ia até Angra dos Reis e citavam: o corpo, a alma, Paraty, não fazem sentido. Fim da tardinha, chegara o momento de ir ao bate-papo Vila-Matas/Zambra. Este meu jovem coração se sublevou e assaltou-me o primeiro sentimento de mamãe-eu-sou-patético-idolatro-escritores. Duas horas depois, estava eu na fila de autógrafos a ver de longe a cabeça grisalha do Vila-Matas, as mãos disciplinadas do escritor espanhol num surto de assinaturas e os leitores que saíam com os livros coloridinhos editados pela saudosa Cosac Naify. Quando cheguei perto o bastante para conseguir escutar o que o Vila-Matas falava para as pessoas e o que as pessoas falavam para o Vila-Matas reparei que ninguém dizia nada, absoluto silêncio. O processo se passava da seguinte maneira: ser humano se aproximava do Vila-Matas, jogava o livro do Vila-Matas sobre a mesa, Vila-Matas abria o livro, assinava, devolvia o livro para ser humano e pronto. Não me orgulho em dizê-lo, mas essas cenas Tempos modernos — com o livro a fazer as vezes do parafuso — causaram-me uma incontrolável Schadenfreude (prazer pelo infortúnio alheio). Vila-Matas não levantava a cabeça porque ninguém lhe dirigia a palavra, parecia óbvio. E muito provavelmente ninguém lhe dirigia a palavra porque Vila-Matas não levantava a cabeça. Resolvi colocar essas ruminações em prática. Na minha vez, fiquei parado numa postura ridícula, hoje consigo perceber com clareza, numa postura imbecil e teatral diante do Vila-Matas. Daí mostrei o exemplar de O mal de Montano — que juntamente com O náufrago, do Bernhard, foi a obra que mais reli na vida — e lhe disse: el libro más increíble de la literatura española, sin dudas. Vila-Matas levantou a cabeça. Arregalou os olhos. Fitou-me por alguns segundos: ¿Cómo te llamas, joven? Eu disse meu nome, ele autografou na folha de rosto do Montano e estendeu-me a mão: ¡Suerte, chico! Estarrecido, fiquei ainda uns bons trinta minutos perto da fila a ver se ele iria conversar com mais alguém. Não conversou. A linha de montagem dos leitores tinha voltado a funcionar: joga o livro, o Vila-Matas assina, pega o livro, vai embora. Em silêncio. Absoluto.

— P. R. Cunha

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