Sábado noturno

Alonso Rivera ergueu o dedo em riste para o barista, que de má vontade levantara-se da cadeira de onde assistia à final do torneio futebolístico. Quase sem tirar os olhos da televisão, o barista encheu o copo de Alonso Rivera e da rapariga que estava ao lado dele. Depois fechou a garrafa de uísque, afundou-se novamente na cadeira. A rapariga era no mínimo uns vinte anos mais nova do que Alonso Rivera, facto que não passara despercebido para os outros sentados à bancada, que vez ou outra cochichavam entre si qualquer coisa maliciosa a respeito. Os dois — Alonso Rivera e rapariga — pareciam não se incomodar. Bebiam o uísque, conversavam sobre jazz, literatura latino-americana, ele tocava suavemente nas costas das mãos dela, ela sorria, ele contava mentiras, ela ajeitava os cabelos e fingia que acreditava. Só aquela noite, pensou Alonso Rivera enquanto levava o último gole do líquido escuro à boca, só mais uma noite. E cada um finalmente partiria para o seu lado, sem se tornar a ver.

— P. R. Cunha

Poucas & boas a respeito do escritor (vaidades &tc.) / anotações carnavalescas

O escritor sabe que é um mundo, microcosmos, uni-verso. Tal-&-qual o viajante de Theroux (i.e.: o próprio Theroux), reconhece que existe dentro dele um cancro indetectável de vaidade, presunção & mitomania a roçar o patológico. O escritor por vezes trata «dos outros» para esconder-se da vergonhosa, da despudorada verdade: que está a tratar, mesmo, é de si. Sempre ele, sempre dele. O pior pesadelo do escritor, então (& aqui ainda agarro-me às imagens de Theroux [pai], que compreende imenso das coisas), o pior pesadelo do escritor, como estava eu a dizer, é a terrível perspectiva de encontrar outro escritor. Dois escritores que porventura se percebessem dentro de um elevador às 7h15 da manhã — um vai para o running matinal, o outro à padaria. Não têm nada a falar. Olham-se, estranham-se, repelem-se… Odeiam-se.

— P. R. Cunha