O currículo

Sérgio Retallack, responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie., ajustou a moldura do certificado UMA DAS 100 MELHORES EMPRESAS PARA SE TRABALHAR – 2019. O candidato ao emprego observara a cena sem mover o pescoço. Retallack sentou-se novamente na cadeira executiva giratória, folheou o currículo do candidato uma última vez e disse: impressionante!, realmente impressionante. O candidato até tentou, mas não conseguiu esconder um vaidoso esboço de sorriso. No entanto, prosseguiu Retallack, sinto dizê-lo que não poderemos contratá-lo, senhor… (aqui o responsável pelo processo seletivo de funcionários da Info&Cie. torna a pegar o currículo do candidato) …senhor Boaventura, isto, senhor Augusto Boaventura. O candidato parece confuso. Você vê, a nossa mais nova política de relacionamento preza, antes de mais nada, pela disponibilidade, disse Retallack, e como não pude deixar de notar (aqui Retallack joga desdenhosamente o currículo do candidato sobre a superfície lisa e lustrosa da mesa feita com madeira de sândalo [uma das madeiras mais caras do mundo]), sim, como não pude deixar de notar, o senhor não possui nenhuma rede social, nem ao menos uma conta no Twitter, senhor Boaventura, ao passo que, bem, ao passo que não poderíamos observá-lo, quero dizer!, avaliá-lo da forma que gostaríamos, o senhor compreende, não compreende?

— P. R. Cunha

As preocupações do funcionário serão discutidas no devido tempo (com prólogo à moda «fire walk with me»)

Hoje o bot do WordPress, muito gentil por sinal, deu-me os parabéns porque nos últimos oito dias eu publiquei sete textos, e agora está a me enviar mensagem de encorajamento que diz: ficas on fire se compartilhas qualquer coisa esta quarta-feira. Quem nunca cedeu aos caprichos de um bot aprazível que atire o primeiro processador.


O Haroldo, assim como toda a gente, passa por dias bons & dias ruins. Ontem foi um dia bom — alta atenção sem esforço, boa produtividade na firma, conseguira regular a intensidade das próprias emoções, deixara erros & frustrações de lado. Acontece que hoje talvez o Haroldo não consiga dizer o mesmo; isto é, hoje ele não está a ter um dia bom — correio eletrônico com palavras distorcidas, a garçonete do restaurante da firma que reparara sem pudores, durante um tempo prolongado de mais para ocasiões desta natureza, garçonete que reparara, portanto, na barriga protuberante do Haroldo, a tentativa frustrada de esconder essa protuberância atrás do cinto, a elasticidade do cinto, a culpa enquanto mastigava lentamente os seis donuts com recheio de doce de leite, a grande área desmatada no cocuruto do Haroldo, área que não para de crescer, a queda excessiva de cabelo, ativação de estresse que desencadeia sentimentos & pensamentos negativos, instabilidade, quebra da concentração, impotências (moral & sexual [o «negocinho» do Haroldo tende a não funcionar nessas condições, ele se culpa muitíssimo, geralmente recorre àqueles discursos comuns tais como: ora!, isto nunca me aconteceu antes/deve ter sido um remédio que tomei/estou a investir muitos dinheiros numa multinacional &tc.), certo nervosismo, Haroldo tenta agora direcionar a atenção para assuntos mundanos, respira-inspira-respira-inspira, posição de lótus, tenta eliminar a tensão muscular, inspira-respira, mas a tensão muscular continua ali, não foi para canto algum. O Thomas, que trabalha a poucos metros do Haroldo, no Setor de Vendas & Controle de Qualidade, a quatro metros & vinte centímetros da baia do Haroldo, para ser mais exato — & a exatidão aqui é de extrema importância, sempre foi —, o Thomas levanta os olhos da tela do próprio computador & não consegue (& talvez nem queira) imaginar o que se passa na cabeça do colega, os demônios, como se diz, que o sistema neurológico do Haroldo precisa de combater dia após dia & assim por diante.

— P. R. Cunha