História abreviada do absurdo

Acho que tudo começou numa dessas noites de Natal, ali por volta de 2006/2007, eu estava deitado na rede que fora estendida entre os pilares centrais da varanda, chovia um bocado, & já estava claro que alguns convidados não compareceriam à ceia, que começariam a ligar para as justificativas da praxe: que o temporal isso, que a chuva aquilo, que as ruas estavam alagadas, & eu folheava a biografia do Stálin (A corte do czar vermelho [Simon Sebag Montefiore {Companhia das Letras}]), & meu irmão, visivelmente entediado, veio me perguntar o que eu estava a fazer, daí eu mostrei o livro & disse-lhe que estava lendo a biografia do Stálin & não sei por que diabos acrescentei que também estava a pensar em escrever um livro, literatura, & disse isso sem ter nenhuma ideia concreta à cabeça, nenhum tema, nenhuma motivação, disse isso apenas para passar o tempo, descontrair, disse ao meu irmão: irei escrever um livro de literatura, um excelente livro de literatura; ao que meu irmão respondeu sem titubear: eu tenho a certeza disso, que irás escrever um grande livro de literatura — & foi bem essa confiança cega no meu suposto potencial, confiança sincera, esse fascínio sem ressalvas, essas palavras de incentivo do meu irmão que me fizeram querer escrever literatura de facto, mesmo sabendo que nenhum gesto que façamos justifica as nossas adesões (Cioran), que nada é valorizado por qualquer vestígio de substância, que a «realidade» é da alçada da insensatez, uma mentirinha despretensiosa para puxar conversa com o meu irmão numa noite de tempestades natalícias & toda a minha vida se modifica. É assim que as coisas costumam acontecer, não é mesmo?, não é mesmo?, não é mesmo?

— P. R. Cunha

Sr. Anselmo – parte 14

Não há objetivo, diz o sr. Anselmo, nem propósito, tu não estás em jornada nenhuma. Há travesseiros, confortos artificiais, buscas pelo entretenimento sintético. Há fugas, explica o sr. Anselmo. E cada organização antropocêntrica criou/cria/criará para si ilusões de estabilidade, fantasias de permanência: Sócrates, Pedro I da Rússia, o Iluminismo, as bombas, Alexandre, Platão, o terremoto de Lisboa, o Muro de Berlim, Nero, as Torres Gêmeas, os incas, Sêneca, os maias, toda a filosofia grega, toda a filosofia romana, os sumérios, a astronomia grega, o Império Romano, a biblioteca de Alexandria, Napoleão, os Habsburgo, a queda de Constantinopla, os Romanov, o Império Austro-Húngaro, Schopenhauer, a Revolução Francesa, Sputnik, Hitler, os invernos, Newton, Homero, a Revolução Russa, o Albert Camus, Mussolini, Apollo 13, Lênin, Tutancâmon, os medievais, o Sebald, Gutenberg, Galileu Galilei, Thomas Bernhard, os babilônicos, Cioran, os outonos, Einstein, as grandes guerras mundiais, Montaigne, o Enuma Elish, o Gavrilo Princip, a Dinastia Sung, Nietzsche, o Canato Turco Ocidental, os verões, Gilgamesh, o Império Otomano, a Dinastia Yuan, o Califado Omíada, o Império do Grande Qing, a peste bubônica, a gripe espanhola, o Salazar, o Francisco Franco, o Hermann Göring, a Comuna de Paris, o arquiduque Francisco Ferdinando. Todos passaram, insiste o sr. Anselmo, tudo ruínas, miragens. Tudo desaparece.

— P. R. Cunha