Fronteiras da instabilidade

Apaixonar-se é deslumbrar-se: por uma pessoa, por uma ideia, por abstrações, por fantasmas.

Dizem que todas as paixões, numa altura, são cegas.

Há qualquer química no cérebro humano que faz querer seguir adiante, independentemente dos padrões repetidos, das certezas repetidas, dos estragos repetidos. Desconsidera o que, para um observador à distância que não está apaixonado, parece óbvio. 

É lá uma armadilha!, podem gritar.

Mas o deslumbre é imenso. Além de cegos, deixa-nos surdos, hipnotizados.

Em mapas não-lineares a constante de Feigenbaum (Mitchell J. Feigenbaum [4.669 201 609 …]) anuncia o mau presságio — o caos se instalara.

Sensibilidade às perturbações iniciais. O simples bater de uma borboleta no Brasil a causar tornado no Texas.

O simples bater de coração a causar estragos devastadores na assim chamada «alma».

A longo prazo o sistema, embora não aleatório, é imprevisível.

Caminhamos de livre e espontânea vontade na beiradinha desta falésia, olhamos para o precipício, o precipício nos dá medo, vertigem.

Tropeçamos.

mandelbrotset

O tema da tragédia é Trois Gymnopedies: No. 1, Lent et doloreux — Erik Satie.

Às vezes sobrevive-se à queda; noutras vezes, não.

— P. R. Cunha

devaneios da própria máquina de escrever (episódio #44)

há escritores muito supersticiosos. acreditam em fantasmas, bruxas & nesse tipo de coisas. andaram a escrever uns livros magníficos, mas continuam a acreditar em tretas estranhas.

batalhar em duas frentes literárias ao mesmo tempo, ou «efeito borboleta». pequenas causas — o simples bater de uma borboleta no brasil a gerar (através de intricada cadeia de eventos) um tornado no texas. medidas/escolhas insignificantes, digamos: virar à esquerda & não à direita, podem ter consequências devastadoras na vida de quem decide virar à esquerda & não à direita. (à direita, não sabemos, poderia estar um amor perdido, uma nota de cem dinheiros, um livro do baudelaire fora de catálogo).

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diagrama da trajetória do sistema de (edward) lorenz/strange attractor, dependência sensível às condições iniciais; somatórios de erros & incertezas. dois projetos literários podem seguir o mesmo caminho até determinada altura — altura em que pequenas perturbações (i.e. um dia soalheiro dedicado aos prazeres carnais) desviam a dupla & cada um passa a seguir estradas distintas. assim:

1*0VB_IjJClOq9Zry3t1fB-w

curiosamente, o fractal representado pela trajetória do sistema lorenz/strange attractor/dois projetos literários lembra o formato de uma borboleta. porém, nada premeditado. obra do acaso.

— p. r. cunha

Bonatti, astrofísico

Hipótese: à maré
Interferência —
propriedade
das ondas.

Bonatti, nascido a 14 de outubro de 1965, frequentara a Universidade de São Petersburgo e tornara-se um astrofísico de renome. Parece que era uma pessoa verdadeiramente encantadora até, como se diz, perder os botões. Bonatti está agora ao terraço do laboratório doméstico, encosta-se na balaustrada e fica a olhar para o próprio telescópio — está com medo de apontá-lo para a Lua e, com esse simples gesto, iniciar uma irrefreável reação em cadeia. «Se eu apontar o telescópio para a Lua», pensa Bonatti consigo mesmo, «minha esposa fica irritada, com a irritação da minha esposa o vizinho também se aborrece, com o aborrecimento do vizinho as luzes são acesas, por causa da claridade o ladrão se assusta, por causa do susto do ladrão os cachorros latem, os latidos acordam a velha senhora do bairro, a velha senhora tem sede e escorrega da escada, com a morte da velha o neto marceneiro entra num período de luto, por causa do luto do marceneiro a escrivaninha que eu havia encomendado não fica pronta», e assim por diante, até ao infinito. Bonatti ajeita os óculos sobre o nariz pontudo, faz um aceno de cabeça, como que a enfatizar a veracidade de suas observações, e pergunta-se novamente: «Devo mesmo apontar o telescópio para a Lua?».

— P. R. Cunha