devaneios da própria máquina de escrever (episódio #44)

há escritores muito supersticiosos. acreditam em fantasmas, bruxas & nesse tipo de coisas. andaram a escrever uns livros magníficos, mas continuam a acreditar em tretas estranhas.

batalhar em duas frentes literárias ao mesmo tempo, ou «efeito borboleta». pequenas causas — o simples bater de uma borboleta no brasil a gerar (através de intricada cadeia de eventos) um tornado no texas. medidas/escolhas insignificantes, digamos: virar à esquerda & não à direita, podem ter consequências devastadoras na vida de quem decide virar à esquerda & não à direita. (à direita, não sabemos, poderia estar um amor perdido, uma nota de cem dinheiros, um livro do baudelaire fora de catálogo).

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diagrama da trajetória do sistema de (edward) lorenz/strange attractor, dependência sensível às condições iniciais; somatórios de erros & incertezas. dois projetos literários podem seguir o mesmo caminho até determinada altura — altura em que pequenas perturbações (i.e. um dia soalheiro dedicado aos prazeres carnais) desviam a dupla & cada um passa a seguir estradas distintas. assim:

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curiosamente, o fractal representado pela trajetória do sistema lorenz/strange attractor/dois projetos literários lembra o formato de uma borboleta. porém, nada premeditado. obra do acaso.

— p. r. cunha

Bonatti, astrofísico

Hipótese: à maré
Interferência —
propriedade
das ondas.

Bonatti, nascido a 14 de outubro de 1965, frequentara a Universidade de São Petersburgo e tornara-se um astrofísico de renome. Parece que era uma pessoa verdadeiramente encantadora até, como se diz, perder os botões. Bonatti está agora ao terraço do laboratório doméstico, encosta-se na balaustrada e fica a olhar para o próprio telescópio — está com medo de apontá-lo para a Lua e, com esse simples gesto, iniciar uma irrefreável reação em cadeia. «Se eu apontar o telescópio para a Lua», pensa Bonatti consigo mesmo, «minha esposa fica irritada, com a irritação da minha esposa o vizinho também se aborrece, com o aborrecimento do vizinho as luzes são acesas, por causa da claridade o ladrão se assusta, por causa do susto do ladrão os cachorros latem, os latidos acordam a velha senhora do bairro, a velha senhora tem sede e escorrega da escada, com a morte da velha o neto marceneiro entra num período de luto, por causa do luto do marceneiro a escrivaninha que eu havia encomendado não fica pronta», e assim por diante, até ao infinito. Bonatti ajeita os óculos sobre o nariz pontudo, faz um aceno de cabeça, como que a enfatizar a veracidade de suas observações, e pergunta-se novamente: «Devo mesmo apontar o telescópio para a Lua?».

— P. R. Cunha