Quarta nota #7 — vende-se

Caminhada na floresta
o cheiro da relva
sinistro presságio.

§ Se o propósito da vida humana for mesmo a tal busca da felicidade, acúmulos de experiências alhures, receber reconhecimento enquanto ainda se está vivo… então, dedicar-se à atividade literária a tempo inteiro é provavelmente a aposta mais absurda, mais incrível, mais gratificante, mais perturbadora e mais contraditória que tu poderias fazer.

§ Fulano escreveu um livro muito bonito, cujas linhas ninguém entendera. Só foram compreendê-las duzentos e cinquenta e cinco anos depois; quando Fulano há muito já servira de banquete às minhocas.

§ Ainda assim, Fulano permanece horas a devorar o Beckett, o Adorno, o Jünger, o Genet e outros. Depois, anota a respeito do Beckett, do Adorno, do Jünger, do Genet…

§ O perigo de se lidar com o absurdo diariamente: o absurdo se torna hábito, o absurdo cria moradas, o absurdo fica. Entra-se num ciclo em que sentes sempre um abismo.

§ Elefante na biblioteca: a literatura e todos as possibilidades criadas por ela não passam de commodities, mercadorias (Leandro compra livros, Marta os vende — livros custam dinheiros). Vamos às lojas adquirir esses trocinhos de papel, pagamos por eles. A dinâmica é bem esta: há um produto, as pessoas perdem o interesse pelo produto, o produto começa a desaparecer.

§ «As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. […] Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise» — trecho da carta aos leitores escrita por Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.

§ Livraria Saraiva pede recuperação judicial para reestruturar dívida de R$ 675 milhões. O pedido foi aceito. A empresa agora precisa de apresentar um plano econômico viável nos próximos sessenta dias.

— P. R. Cunha

Ação/reação: sentidos opostos (fugir algures)

Para o Daniel Jatobá

Antes de sair para umas merecidas férias (cerca de dez dias [porque mais do que isso enlouqueço]), achei coerente publicar texto que me fizesse refletir um bocadinho enquanto longe desta atividade literária que, de muitas formas, me legitima quando estou à sociedade. Uma recente conversa com o grande amigo e professor existencial Daniel Jatobá* instigara-me como da praxe a questionar o papel do escritor num contexto cada vez mais mutável, imprevisível; como a pessoa que se dedica aos livros** precisaria — ou não — se posicionar diante de determinados contextos contemporâneos etc. Estas foram as intenções, como se diz. Em que medida as consegui pôr na prática não me compete a mim julgar.

*Intrigante escritor-personagem sobre quem os leitores brasileiros, em breve, terão o prazer de ler no conforto dos respectivos lares.

**A confissão arrepiante, sussurrada, de um homem que dedicou a vida à obra e que agora precisa de se controlar para não se arrepender; construir para si narrativas que justifiquem as fugas para cantos fechados enquanto o tempo passa, enquanto a vida passa.


Estamos em 2018 e está a acontecer todo o tipo de porcaria, coisas realmente doidas, isso para dizer o mínimo.

O escritor maduro — ou seja: aquele que não sofre mais antes de escrever, aquele que encontrara a própria voz, aquele que tem já na memória um sem-número de referências que lhe auxiliam a qualquer momento, aquele que se esquecera do jargão «bloqueio criativo» pois tem sempre algo engatilhado a respeito do qual deseja discorrer com afinco —, o escritor maduro, como eu estava a dizer, que depois de tanto estudar/pensar/matutar/problematizar está agora a ouvir no rádio as últimas notícias do mundo e se vê invadido por uma estranha sensação de culpa, como se fosse um dos maiores responsáveis pelas anomalias sociais: escuta passivamente, acredita que não se envolvera o bastante até ao ponto de fazer a diferença, de influenciar de maneira positiva a escolha das outras pessoas, de compartilhar o conhecimento que adquirira nesses anos em que a boa fortuna lhe dera todas as condições possíveis e inimagináveis para exercer literaturas.

Depois do setembro mais quente de sempre, estou farto de tanto calor.

Qual seria, portanto, a missão do escritor (por vezes a confundir-se com a figura do intelectual), a prioridade, o que deve exigir a atenção e a engenhosidade do escritor, escritor que, como já foi dito, passara anos a estudar, a adquirir toda a sorte de conhecimentos, qual o propósito disso tudo?

Deve ou não ter empenho político, ser alienado, ter engajamentos, convicções, que postura adotar diante dos acontecimentos tenebrosos, da possibilidade cada vez mais plausível de o Brasil eleger um protótipo de fascista com cérebro de Homo neanderthalensis (sem querer desrespeitar os Neandertais), um fascista falsificado, e toda a gente que já se deparara com mercadoria falsificada sabe do risco que estamos a correr.

Fica-se muito confuso, diz que «puxa vida!, a verdade é que odeio política, mas as pessoas sabem que eu escrevo, e pensam que tenho muito a dizer sobre política, economia, taxas, ideologias, mas acontece que se alguém me perguntasse qualquer coisa sobre o Sebald eu saberia responder, sobre o Paul Auster, também saberia imenso, sobre o Winston Groom, sobre o Tchekhov, mas sobre política […]».

Escritor politizado: ou bem se faz de ridículo ou muito raramente se torna um guia digno de se seguir — como um George Orwell ou um Jonathan Swift.

Compreende que a casa está prestes a desmoronar mas não imagina como uma massa encefálica repleta de referências literárias conseguiria melhorar a conjuntura; sente dores, sente medo, sente-se impotente, fraco, vaidoso, suscetível, vingativo, perdido — não quer se responsabilizar por nada nem por ninguém, não quer adotar posturas pedantes à moda eu avisei. Estão todos no mesmo barco.

Minha avó chega de Niterói, daqui a pouco. A que ponto habituei-me às pequenas ocasiões desta existência em ebulição. Passear com vovó enquanto tudo está a ruir, pensar que não sou babá de vivalma, que não só os escritores têm responsabilidades, todos os brasileiros têm responsabilidades, e cada um pode e deve decidir por si quais são essas responsabilidades, sempre com a terceira lei de Newton à cabeça = as ações possuem reações, consequências. 

Que os demônios eleitorais tenham piedade de nós…

— P. R. Cunha