Senhoras & senhores, descolagem autorizada

Tiveste um ano repleto de escritas e agora estás deitado numa cama macia a anotar isto aqui, sem nenhuma vontade — propriamente — de anotar isto aqui.

Overdose de literatura (ou o mal de Montano [vide Vila-Matas et al.]). Escrever todos os dias e ver o que acontece.

Amanhã viajarás para Portugal e tua mãe pensa que tu deves estar na lua, muito satisfeito com tudo; afinal, recebeste um prêmio de literatura, ela diz, era bem o que tu querias, não era?, não era?, não era?

Há um telefonema, a gentil pessoa do outro lado da linha te dá os muitos parabéns porque tu acabaras de receber um prêmio, sentes tremor de pernas, o teu coração é um motor de fórmula 1, teu sistema nervoso libera acetilcolina, noradrenalina, o solo desaparece, estás a cair, era bem o que tu querias (pausa dramática), não era?

Fizeste as pazes com o tablete-leitor-eletrônico, principalmente porque antes era-te um verdadeiro estorvo escolher os livros à viagem, o peso na mochila, a indecisão, «será que é mesmo este livro que gostavas de levar na aeronave» etc. O teu tablete tem agora duzentas obras digitalizadas e pesa um pouco mais do que uma folha A4. Estás a sentir-te um bocadinho sujo diante dessa situação.

Chegaste mesmo a sonhar que os livros de papel gritavam na tua cara: traidor!, traiçoeiro!, desleal!

Agora, diz até breve aos leitores, diz que voltas, diz que sentes já o cheiro dos pastéis de nata…

— P. R. Cunha